O Chega é excecional

Daniel Oliveira dispensa demorar-se "nesta forma estranha de eleger uma direção, que é apresentar três vezes a mesma lista e insinuar uma demissão caso ela não seja aprovada", e no facto de, "além de haver quem queira castrar homens, haver quem queira tirar ovários a mulheres que abortem, o que quer dizer que a igualdade de género começa a fazer o seu caminho no Chega".

O que mais prende a atenção do cronista é o "espetáculo de amadorismo que foi a organização" da convenção do Chega. Apesar de Daniel Oliveira defender "o regresso à normalidade possível", com "eventos religiosos, políticos, culturais e económicos", que devem "ser bem organizados", o que aconteceu em Évora, aponta o jornalista, "foram cadeiras coladas umas às outras, sem qualquer distanciamento, como já não se vê em nenhum tipo de evento, mesmo com muito menos gente".

As descrições do primeiro dia de congresso do partido da extrema-direita são consentâneas na versão do abandono das máscaras por parte da maioria dos congressistas, "incluindo o líder, que andou praticamente todo o dia sem máscara, num sítio fechado, com 500 pessoas" e da inexistência de "percursos marcados". Assim, conclui Daniel Oliveira, o Chega "passou pela enorme vergonha de ter tido dos primeiros grandes eventos a receber uma visita da GNR, de tal forma eram as violações das regras sanitárias mais básicas".

"Aquele congresso não tem a complexidade duma Festa do Avante! ou de uma peregrinação a Fátima. Estamos a falar de 500 pessoas, ou pouco mais, pré-inscritas, quase todas da mesma organização, que estão durante um dia e meio ou dois dias num espaço delimitado, com cadeiras para se sentarem." Na perspetiva de Daniel Oliveira, é "difícil encontrar uma iniciativa mais simples para se organizar cumprindo as novas regras". No entanto, as normas não foram respeitadas, "não sei se por desleixo deliberado ou por incompetência", comenta o jornalista.

Daniel Oliveira considera "irónico" que tal incumprimento tenha acontecido "num partido que exigiu conhecer o parecer da DGS para a Festa do Avante!, que este fosse público, por causa da exceção que estava a ser feita ao PCP ou que quis o confinamento específico dos ciganos, porque 'não cumpriam as regras e elas eram para todos e para todas' - não obrigatoriamente para os delegados do Chega".

Apesar da juventude do partido recentemente criado, esta era "uma iniciativa facílima de organizar" e Daniel Oliveira salienta que "não parecem faltar meios financeiros ao Chega". É também de estranhar, prossegue o jornalista, que um "partido com apenas um deputado tenha tanto dinheiro para organizar tanta coisa", mas esse é um "debate" para ser feito "brevemente". "Como é que um partido com uma subvenção relativamente pequena consegue organizar e montar tendas enormes para 500 pessoas? Um dia descobriremos. Meios não lhes faltam, têm outdoors espalhados pelo país inteiro. O que lhes falta é capacidade de organização, e isso já foi visível por altura da recolha de assinaturas."

Há ainda uma consideração que o cronista faz questão de sublinhar, por ser "justo" fazê-lo: "o cuidado de ter pessoal da saúde na convenção". A ironia é logo explicada: "Qual António Costa em comissão de honra, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros resolveu lá aparecer, fora do momento que era para os convidados, para dar, segundo ela, 'um beijo ao André, como amiga'. Imagino que para agradecer, em nome dos profissionais de saúde, o desrespeito pela saúde pública que levou à intervenção da GNR."

"Só espero que o beijo, pelo menos, tenha sido simbólico", atira o jornalista. Mas as críticas não se limitam aos participantes; também a imprensa poderia ter dado exemplos melhores, avalia o cronista. Daniel Oliveira acrescenta que "o que não vimos foi a mesma vigilância da comunicação social que houve em relação à Festa do Avante!, um evento muitíssimo mais complexo, onde foram cumpridas as regras". Não foi "seguramente por falta de cobertura, porque nunca se viu na História deste país um partido com um deputado ter direito a tanto tempo de antena".

* Texto redigido por Catarina Maldonado Vasconcelos

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