O dedo do SIS que aponta a lua

Igor Khashin, o russo de Setúbal (vamos chamar-lhe assim para toda a gente saber de quem falamos), anda a ser vigiado pelos serviços secretos portugueses. A vigilância, dele e dos restantes dirigentes dos conselhos de compatriotas russos, aumentou quando o seu país anexou a Crimeia em 2014.

Quando se lê o texto que dá corpo à manchete do Expresso fica, aliás, a saber-se que no SIS havia uma espécie de especialização em "Casa da Rússia", um departamento de contra-espionagem que ou não descobriu rigorosamente nada sobre o senhor Khashin ou descobriu e achou que o melhor era meter a raposa dentro do galinheiro para que a vigilância não desse muito trabalho.

Ser um propagandista do Kremlin e um adepto dos feitos de Putin não transforma o senhor Khashin num perigoso espião, capaz de pôr em causa a nossa existência como país. Mas deveria ser suficiente para que alguém no SIS se desse conta de que era preciso avisar as instituições do Estado que contrataram uma pessoa que acha que os ucranianos merecem castigo por serem ucranianos. Pode dar-se o caso, não julguem que é impossível, que o SIS nem soubesse que ele colaborava de vez em quando com o SEF e que trabalhava para a Câmara de Setúbal. Como os russos são muito bons na espionagem, provavelmente o senhor Khashin só interrogava refugiados ucranianos quando o espião do SIS que tinha a cargo a sua vigilância estava de folga ou, estando a trabalhar, fazia pausa para almoço.

Este é um país onde toda a gente sabia e não fez nada. Talvez porque não houvesse nada a fazer sobre o que toda a gente sabia. Ou talvez porque nunca somos capazes de ver o mais evidente, neste caso a falta de bom senso que é colocar russos a interrogar refugiados ucranianos que procuram a nossa proteção. Os tolos do SIS perderam-se, fascinados a olhar para o dedo que lhes apontava a lua.

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