O exercício luso-francês na pré-época dos grandes

A pré-temporada vai fazendo o seu percurso e, nesta altura, já pouco falta para uma nova época com as virtudes e os defeitos do costume. Os três clássicos candidatos acertam agulhas e, por capricho do destino e do calendário, até vamos ter um dia que poderia ser batizado como o da cimeira luso-francesa. Pouco comum, é verdade, mas de interesse óbvio.

Ainda é cedo para a projeção que todos gostam de fazer nestas alturas, ou seja, qual dos três grandes está em melhor posição para atacar o título (e as restantes frentes, claro). E é prematuro, antes do mais, porque os plantéis não estão encerrados - nem estarão tão depressa - e isso impede-nos de avaliar com rigor o que cada um poderá realizar com eles. Se não se sabe ainda com que armas se conta é inútil mandar palpites.

De qualquer modo, lá vão surgindo sinais em função daquilo que já se conhece. Pelo menos, a perceção de que há um Sporting a consolidar-se para a missão concreta de defender o estatuto de campeão; um FC Porto cujas interrogações dependem mais de quem pode ainda sair do que de quem pode ainda entrar; e um Benfica, envolto num turbilhão nunca visto, para quem o arranque da época é determinante para tudo, desde a solidez financeira até ao futuro diretivo.

Deixemos, portanto, para mais tarde um olhar sobre os nomes que cada um agendou até agora. Ugarte, Ricardo Esgaio ou Ruben Vinagre, no Sporting, Pepê ou Fábio Cardoso, no FC Porto, João Mário ou Meité, no Benfica, constituem apenas o começo. Entre os que vêm e os que vão ainda muita coisa vai suceder. Que é como quem diz, o impacto real de cada jogador dependerá sempre das ideias que o treinador terá para cada um deles mas, principalmente, do modo como definirá o enquadramento global. De resto, é aqui que reside a chave para abrir o caminho do sucesso que todos eles pretendem.

Os jogos de preparação são uma componente fundamental, embora uns com mais necessidade de acelerar o processo do que outros. O FC Porto, por exemplo, só arranca "a contar" na ronda inaugural do campeonato; o Sporting e o Braga começam por discutir o primeiro troféu da época numa Supertaça sempre apetecível; enquanto o Benfica, precisamente entre a Supertaça e o campeonato, estreia-se na tentativa de aceder à Liga dos Campeões.

Ora, é fácil de perceber que, de todos, é a águia que tem o maior risco. Vacilar numa primeira jornada da Liga portuguesa não é irreparável - já houve quem começasse a perder e acabasse campeão - ou falhar numa Supertaça não significa um desastre desportivo nem uma tragédia financeira. Agora, ficar fora da Champions (ainda por cima outra vez) é tudo aquilo: irreparável, um desastre desportivo e uma tragédia financeira.

Logo, ao olharmos a tal cimeira luso-francesa deste fim-de-semana, rapidamente se nota que é Jorge Jesus quem tem o maior peso sobre os ombros. Não tanto pelo desafio com o Marselha, naturalmente, mas porque é o derradeiro teste antes do início do sim ou sopas com o Spartak de Moscovo, o tal em que ele sabe que está "proibido" de falhar.

Mas há também mais dois duelos nada desaconselháveis, pelo contrário. Sendo que, para o Sporting, o desafio com o Lyon é igualmente uma última abordagem antes da Supertaça. Ruben Amorim, provavelmente, já apresentará uma equipa muito próxima daquela que defrontará o Braga em Aveiro. E, enfim, há sempre o aliciante suplementar de tentar vencer mais uma edição do Troféu Cinco Violinos.

Os dragões terão o campeão Lille pela frente, com um grau de exigência importante, na antecâmara de outros dois (Roma e Lyon) para, então sim, Sérgio Conceição projetar o primeiro onze oficial da temporada.

Em resumo, aproveitem porque não é todos os dias que vemos três boas equipas francesas, quase em simultâneo, perante o melhor trio do futebol português.

PS: Estão aí os Jogos Olímpicos mais estranhos de que há memória. Um ano depois da data prevista, sem público, com condicionantes nunca vistas, com a maioria dos japoneses contra a sua realização, nada é comparável com qualquer outra edição. Para quem, como eu, o acompanhou de perto durante 16 anos, é uma dor de alma ver o maior evento desportivo do planeta emparedado desta maneira. Mas a realidade é implacável: ou era assim ou, simplesmente, não era. Mais do que as razões financeiras e/ou políticas que levaram a que as coisas avançassem neste quadro, é uma compensação - ainda que mínima - para os atletas. E é neles que devemos pensar.

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