O governo contra a crise eterna

"Quando António Costa chegou ao Governo, o objetivo da geringonça era bem preciso: reverter o que tinha sido imposto pela Troika. Medidas conjunturais e estruturais contra as quais o país se tinha revoltado, medidas socialmente irresponsáveis, economicamente ineficazes e politicamente ilegítimas, porque impostas externamente e pioradas por um primeiro-ministro que, em campanha eleitoral, prometera o oposto do que fez."

É assim que Daniel Oliveira recorda, no seu espaço de Opinião na TSF, o cenário que permitiu a "construção" de uma maioria de esquerda. "Em 2019 esperava-se que este acordo viesse a ter outra ambição, mais programática", mas, nota Daniel Oliveira, "rapidamente ficou evidente que António Costa não tinha intenção de ir tão longe com os seus parceiros de geringonça".

O primeiro-ministro passou a "gerir à peça", sempre sob ameaça de uma crise política "adiada mas inevitável" e que acabou por "ser salva" pelo surgimento da pandemia de Covid-19.

"Não impediu a queda do Governo mal o Covid-19 deu sinais de abrandamento, mas voltou a dar a António Costa uma missão de curto prazo: responder à urgência de saúde pública e às suas consequências económicas", sublinha. Com a evolução da pandemia para endemia chegava a "hora da verdade, a oportunidade de usar o dinheiro do PRR" ao mesmo tempo que se recuperava "tudo o que dois anos de pandemia destruíram".

Seguia-se, ainda antes de o Governo ter tomado posse, a guerra na Ucrânia, "sem sabermos quanto tempo durará e se se manterá circunscrita à Ucrânia" e com apenas uma "vaga ideia de alguns dos efeitos de um conflito armado destas dimensões, em plena Europa, entre dois países que produzem uma boa parte dos cereais que consumimos e do efeito devastador das sanções impostas ao invasor".

A inflação provocada pelo abrandamento da produção chinesa "vai piorar", alerta Daniel Oliveira, a crise energética "é mais do que certa" e a crise alimentar "terá efeitos quase imediatos no Médio Oriente e em África".

No campo das migrações, podem juntar-se à da Ucrânia "outras a que os europeus seletivamente solidários reagem pior".

Na economia, "de uma crise bancária que a inoperância da Europa transformou numa crise das dívidas soberanas, passamos para uma crise económica e social imposta pela receita absurda da austeridade". Sucedeu-se um "curto intervalo de alguma prosperidade, depois veio uma crise pandémica e por fim a guerra".

"A última malfadada década deixará marcas profundas no futuro deste país. Os últimos três anos mudarão a Europa, o mundo, a globalização e o capitalismo", alerta Daniel Oliveira, que antevê assim que nos próximos anos "António Costa acabará, mais uma vez, por cumprir a função de bombeiro" e um Governo que corre o risco de só conseguir "responder a crises a estímulos externos".

A composição do Governo, defende, não deve ser discutida "no vazio", uma vez que a questão "não é saber se o Governo é bom ou mau em abstrato, se tem mais políticos ou técnicos, mais militantes do PS ou independentes".

A problemática que destaca é a de saber se "continuamos a ter um Governo especialista em gestão de crises - função em que o improviso e a rapidez de António Costa são muito úteis - ou se teremos um Governo que seja capaz de usar esta crise para mudar alguma coisa", um Governo que é uma "força de intervenção rápida que responda à emergência" ou um Governo "político, que aproveita os novos recursos da Europa para requalificar serviços públicos - em especial Serviço Nacional de Saúde e escola pública -, reduzir a doença nacional da desigualdade e apetrechar o país de infraestruturas".

Daniel Oliveira questiona também se o esforço para uma "maior autonomia da Europa" será acompanhado pela tentativa de "reindustrializar um país que trocou fundos comunitários pela destruição da sua capacidade produtiva e que trocou conversa provinciana sobre start-ups e unicórnios por uma estratégia económica digna desse nome".

Se o Governo é bom ou mau, só o tempo o dirá. Para já, realça, "temos de saber para o que será o Governo, porque as crises não são eternas e o que virá depois determinará que país seremos num mundo que mudará muito mais do que imaginamos".

Texto: Gonçalo Teles

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