O "mindset" de parte da nossa elite

Daniel Oliveira afirma que a forma "diferenciada" como os refugiados ucranianos ou sírios são tratados, "ao ponto de uns passarem legalmente à frente de outros, apesar de fugirem de guerras igualmente bárbaras", diz "alguma coisa" sobre "os limites da nossa empatia", que é maior quando se trata de alguém que nos é semelhante. Ainda assim, no seu espaço habitual de Opinião na TSF, o jornalista admite que valoriza "muitíssimo a generosidade dos portugueses perante aqueles que fogem de uma guerra que não desejaram e pela qual não podem ser responsabilizados".

"Apoiar os ucranianos que ficaram a combater e acudir os que procuram refúgio é um dever político e humano de toda a Europa. Infelizmente, alguns gestos de solidariedade, quando deixam claro o que valorizam nas pessoas que aqui chegam, revelam por detrás de bons sentimentos, instintos pouco altruístas. Sempre escondidos, claro, numa análise supostamente tecnocrata", afirma Daniel Oliveira, referindo-se a uma coluna escrita por José Crespo de Carvalho no Observador. "Bem sei que qualquer pessoa escreve artigos no Observador e não devemos dar demasiada importância a todas, mas o professor José Crespo de Carvalho, presidente da Comissão Executiva do INDEG no ISCTE, representa ou devia representar o pensamento mais elaborado da nossa elite nas empresas e na gestão. E ainda por cima é um dos fundadores da plataforma We Help Ukraine em Portugal, que pretende ajudar os refugiados."

Sobre a chegada dos ucranianos a Portugal, José Crespo de Carvalho, citado por Daniel Oliveira, escreve no Observador que, graças ao "ódio e recalcamento" que sentem, os ucranianos "colocarão a faca nos dentes, por isso, ninguém espera que sejam trabalhadores das 09h00 às 17h00 e que venham reclamar o que por cá reclamamos", e acrescenta: "As empresas já perceberam, e bem, que poderá haver uma nova força de trabalho que trabalha mais e reclama menos."

O jornalista e cronista refere que o professor, "depois de prever a vinda de 30 mil ucranianos para Portugal, de várias idades, sobretudo do sexo feminino", lembra que "terão de se sustentar, muitas vezes sozinhas, os seus filhos da guerra", e avisa: "Serão uma força tremenda para o mercado de trabalho português."

"As crises não são mais que oportunidades", explica José Crespo de Carvalho, citado novamente por Daniel Oliveira.

Qual é a oportunidade? "Estes imigrantes", diz Daniel Oliveira, dirigindo-se, mais uma vez, ao texto de José Crespo de Carvalho: "Não têm forma de exigir muito, mas trabalharão muito, não têm forma de querer voltar as costas ao trabalho porque apenas lhes resta trabalhar."

O jornalista indica que o professor, neste artigo escrito no Observador, avisa que os portugueses "têm que trabalhar mais", se não "eles vão tirar-lhes o emprego", porque, como explicou José Crespo de Carvalho, eles "não são dos que trabalham das 09h00 às 17h00 ou reclamam". São, espera Crespo de Carvalho, "pessoas qualificadas", mas que "comem e calam porque estão desesperadas", acredita Daniel Oliveira.

"Este artigo [de José Crespo de Carvalho] resume, numa comovente manifestação de solidariedade com o povo ucraniano, o mindset, usando o 'gestorês' com que estas pessoas agridem a língua portuguesa, de uma parte da nossa elite. Da forma como olham para os trabalhadores portugueses, mandriões e rabugentos", assinala Daniel Oliveira. "Professor de gestão, o autor parece desconhecer as razões estruturais para a baixa produtividade nacional, que nada têm a ver com a forma como os portugueses, tradicionalmente bastante trabalhadores, se comprometem ou não com os seus deveres laborais e resume a forma como algumas pessoas a desgraça dos outros."

Para o jornalista, esta é "uma oportunidade para aumentar a concorrência laboral", mas no "pior nos sentidos". "Uma oportunidade para reduzir direitos, para afastar quem os exige, para escravizar quem está demasiado desesperar para lhes virar as costas."

Segundo Daniel Oliveira, "boa parte" dos sentimentos contra os imigrantes resulta do "racismo e xenofobia", mas "há um sentimento que não é irracional e de que os imigrantes são os últimos responsáveis". "A de que a imigração é usada como forma de baixar salários e tirar direitos."

"Aquilo a que Marx chamou de 'exército industrial de reserva', em que tanto podiam ser desempregados como pessoas em situação suficientemente precária para aceitarem as condições e os salários que outros recusam, mantendo, assim, salários e condições no limiar mínimo de sobrevivência, apenas suficiente para continuarem a produzir", explica o cronista. "O discurso deste senhor [de José Crespo de Carvalho] é, pela forma como olha para o desespero dos que procuram o nosso país para uma vida decente, ou apenas para fugir à morte, o maior aliado do xenófobo", acrescenta.

"Dá-lhes força e argumentos. Contra os que veem na tragédia dos outros uma oportunidade para ter trabalhadores dóceis e indefesos e contra os xenófobos que aproveitam o discurso deles para ganhar adeptos à sua causa só há uma arma: a lei", atira.

"Receber bem os ucranianos é tratá-los como portugueses, com o direito a ter tudo o que senhor Crespo de Carvalho parece desprezar, incluindo o terem horários, das 09h00 às 17h00 parece-me excelente, e reclamarem quando os seus direitos são violados. É assim que, com a sua competência e esforço, ajudarão a fazer crescer este país, com trabalho e com direitos, como qualquer português", finaliza.

Texto: Carolina Quaresma

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