O PCP e o "whatabautismo"

Daniel Oliveira reclama que "é difícil explicar o que leva Jerónimo de Sousa a negar o que todos vemos, pondo em causa que haja uma invasão para estupefação até de muitos eleitores dos comunistas".

Na opinião do comentador, "talvez o PCP esteja tão convencido que a História lhe dará razão que até a verdade do presente lhe seja dispensável", mas "com a sua posição ofende valores fundamentais da esquerda, como a defesa do direito dos povos à sua autodeterminação".

"A questão já nem é saber se o PCP condena ou não a ocupação da Ucrânia, porque formalmente já o fez. É saber que tipo de argumentos usa no debate. Têm sido três: a Ucrânia não é uma democracia plena; A segurança da Rússia estaria de alguma forma em causa com a mera possibilidade do alargamento do NATO; e armar a Ucrânia é alimentar a escalada da guerra", afirma Daniel Oliveira.

No habitual espaço de opinião na antena da TSF, o comentador adianta que não vai "debater o mérito destes argumentos, mas apenas a sua incoerência".

"Quanto à natureza do regime ucraniano, o PCP opôs-se à ocupação do Iraque, apesar de reconhecer que o regime de Saddam [Hussein] era uma brutal ditadura. Quanto ao suposto risco para a segurança da Rússia, o PCP não aceita o argumento da segurança de Israel para justificar a ocupação de territórios palestinianos. Por fim, quanto ao armamento da Ucrânia, o PCP elogiou o apoio militar ao Vietname na resistência à agressão dos Estados Unidos. Em todos estes casos podiam fazer-se muitas e justas considerações laterais, mas nunca se permitiria equivalências entre o ocupante e o ocupado. Está a fazer pior. Mesmo que formalmente condene a Rússia, é ao Governo do estado ocupado que dedica os seus mais ferozes ataques", explica.

"'Whataboutismo' é uma expressão usada para designar uma falácia argumentativa. Quando alguém prefere assinalar a hipocrisia do outro, falando de outros casos, a contestar os fundamentos da sua posição", esclarece o comentador, ao mesmo tempo que admite que o que fez "com o PCP pode ser chamado 'whatabaoutismo'".

Nesse sentido, Daniel Oliveira diz que "a moralidade, quando nasce, é para todos".

"A quem apoiou a invasão do Iraque estão vedados alguns argumentos e indignações à posição inaceitável do PCP. O mais óbvio é uma crítica a uma ocupação imperialista. A ocupação do Iraque foi tão arbitrária como esta. Apenas possível porque o Estados Unidos têm, tal como a Rússia, a capacidade de impor a sua vontade a outros estados. Foi tão ilegal como esta, não tendo recebido nenhuma mandado da ONU para o efeito. Foi tão imoral como esta, pois apenas tinha o objetivo do controlo das matérias-primas de outro país. Foi tão descaradamente mentirosa como esta, inventando armas de destruição em massa e até ligações à Al-Qaeda", acusa.

Para Daniel Oliveira, "muitos dos que agora justamente condenam quem repete a propaganda russa, repetiram estas mentiras" e "aquela não foi menos criminosa do que esta", porque "dela resultaram centenas de milhares de mortos civis e muito mais vítimas pela desestabilização de toda a região por muitos anos": "Bem sei que não eram europeus, mas as vidas têm todas o mesmo valor."

"Sem o argumento do imperialismo, da legalidade ou da moralidade da guerra, resta o da democracia. Quem apoiou a invasão do Iraque acha que faz toda a diferença os Estados Unidos serem uma democracia e a Rússia não. Faz diferença para condenar ainda mais veemente a ocupação do Iraque. O poder democrático age em nome do povo. As ditaduras não", acredita Daniel Oliveira, adiantando que os "europeus e norte-americanos tinham instrumentos para impedir aquela guerra que faltam aos russos e a mentira em que ela se baseou foi difundida pela imprensa livre, não por órgãos de comunicação social censurados".

"Quem apoiou a ocupação do Iraque também acha que faz toda a diferença o país ocupado ser governado por um ditador. Se esse é o último argumento que sobra, então terão de estar disponíveis para debater as alegações do PCP sobre a falta de democracia na Ucrânia mesmo antes da guerra. Que façam bom proveito, porque não será tão simples como pensam. Eu não estou disponível para isso, porque ao contrário do PSD, do CDS e do PCP, acho que, quando há um ocupante e um ocupado, a ocupação é tudo o que moralmente interessa", assume.

Assim, Daniel Oliveira recusa crucificar os comunistas: "Se devo olhar de forma diferente para o PCP à que olhei para o PSD e para o CDS há 19 anos. Com uma pequena diferença: no Governo, eles envolveram o estado português naquela ocupação. Até foi em território nacional que ela foi preparada. O PCP só se envolveu a si mesmo."

"Que interesse tem agora este debate? Para a Ucrânia, nenhum. A perda de vidas de iraquianos não se resolve com a perda de vidas de ucranianos e Putin não deixa de ser um criminoso por Bush também o ter sido. Para quem passou semanas a transformar o debate sobre a invasão criminosa da Ucrânia num debate sobre o cabimento de um partido como o PCP na democracia portuguesa, por causa da sua esdrúxula, insuportável e reiterada posição sobre esta guerra, tem todo o interesse. Ainda mais se nos seus argumentos usarem a história dos comunistas e os apoios que deram a outros regimes. Se o passado conta, conta para todos", argumenta o comentador.

Por fim, Daniel Oliveira conclui: "Bem sei que alguns nascem todos os dias virgens e puros para julgarem o presente e o passado dos outros. As posições dos comunistas sobre a guerra são revoltantes e são um enorme favor à direita e ao enfraquecimento da esquerda e dos movimentos sociais a ela ligados. Nunca lhes perdoarei por isso, mas se por isso se tivesse de fazer qualquer cerco ao PCP, igual cerco teria de ter sido feito aos que transformara a base das Lajes na rampa de lançamento de uma ocupação criminosa e ilegal de uma nação soberana, causando por isso centenas de milhares de vítimas. Durão Barroso e Paulo Portas aí estão a comentar esta guerra. O PSD e o CDS não foram banidos da nossa democracia. Portanto, apesar da sua inaceitável posição sobre a Ucrânia, o PCP também não o será."

*Texto redigido por Rui Oliveira Costa

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