OE: O apelo ao vazio da política

Daniel Oliveira considera que "a antecipação mediática e institucional de uma crise política ainda antes de qualquer negociação" é uma tentativa de "dramatização e chantagem" para retirar o poder negocial ao PCP e ao Bloco.

No espaço de opinião que ocupa semanalmente na TSF, começa por dizer que "quem entra num hospital por estes dias perceberá a dimensão da crise do Serviço Nacional de Saúde, depois das exigências da pandemia, compreende os efeitos que ela teve e sente na pele a sangria de médicos para o privado mal se abriu a porta de saída" e que "quem tenha acompanhado a abertura de vagas que ficam todos os anos vazios saberá que não basta despejar dinheiro no problema".

O comentador sublinha que "depois de décadas de erros, com dinheiros públicos e a ADSE a darem o músculo para o privado, será cada vez mais difícil segurar médicos no SNS, o único que a todos pode servir por igual dos cuidados primários aos casos mais complexos".

Para isso, defende, "a primeira condição para o fazer é mexer nas carreiras médicas, tornando-as mais atrativas", já que, reitera, "o Serviço Nacional de Saúde, melhor criação da nossa democracia, está em crise", uma crise "procurada por quem o quer desfazer para o entregar à clientela e os recursos públicos ao privado, e não foi contrariada por incúria, medo dos lobbies ou indecisão".

Para o comentador, "este é só um dos exemplos das muitas coisas que estão em causa no debate em torno do Orçamento do Estado e de outras que, não estando no Orçamento, têm uma profundidade política que exige entendimentos que só acontecem quando um governo minoritário precisa do apoio de outros partidos para sustentar a sua legitimidade".

"Os cidadãos e a comunicação social queixam-se com toda a razão do distanciamento da política em relação aos problemas concretos dos portugueses, mas quando estão em causa os problemas concretos dos portugueses preferem ignorar o que a política tem de conteúdo e fixar-se na forma. Ignoram a estratégia e ficam-se pela tática", sustenta.

No mesmo plano, o comentador acrescenta que "à saída do encontro com o Presidente da República, Jerónimo de Sousa tentou explicar que um debate sobre o Orçamento do Estado e tudo o que o rodeia é, antes de tudo, sobre os problemas concretos do país, problemas como o estado de rutura do Serviço Nacional de Saúde, problemas como sermos campeões europeus em precariedade, adiando a vida incapazes de fazer planos, comprar casa, constituir família, imaginar uma carreira, problemas como a impossibilidade de pagar uma creche, dificultando a decisão de ter um filho ou condenando-o a uma desvantagem inicial de que dificilmente recuperará."

"Em vez de o país mediático e político estar a discutir tudo isto, e é isto que se deve discutir nestes momentos, começou logo, dois dias depois da apresentação de um Orçamento do Estado dececionante, a acenar com uma crise política e a responsabilizar aqueles que não se reveem num documento construído sem negociação por todas as suas consequências. Este ano o alvo é o PCP. No ano passado, foi o Bloco de Esquerda. Para a semana serão os dois", continua.

Na perspetiva do jornalista, "dos que se dedicaram a esse bullying nenhum foi ver o que foi cumprido no Orçamento de 2021". Caso o fizessem, "veriam, por exemplo, que os mesmos 30 milhões orçamentados para o apoio a cuidadores informais aparecem nos três orçamentos dos três últimos anos sem nunca terem sido executados e nasceram de compromissos, compromissos que têm importância na vida de pessoas concretas".

"São tantos os compromissos assinados entre PCP, Bloco Verdes ou PAN que ficaram por cumprir que é difícil não compreender a sua crescente exigência e impaciência. Se até os ministros protestam com a fantasia em que se tornaram os orçamentos, como não protestarão aqueles que não estão no Governo e não têm qualquer compromisso político para manter uma minoria a governar", atira.

De acordo com o comentador, "se há coisa de que ninguém pode acusar o Partido Comunista é de faltar à palavra dada ou de não ter uma postura de seriedade nas negociações".

"Como acontecia com o Bloco de Esquerda, António Costa tomou o voto do PCP como inevitável e não se deu ao trabalho de negociar. As coisas não podem ser assim. Como os deputados do PS, os deputados do PCP e do Bloco têm o dever de representar as preocupações do que os elegem. Não conseguirão pôr tudo o que gostariam no Orçamento, nem sequer a maior parte, mas a sua função não é a de assinar qualquer coisa que lhes apareça à frente com o risco de os eleitores sentirem que aqueles deputados até podiam ser do PS e não fazem falta nenhuma na Assembleia da República", defende.

Para Daniel Oliveira, "a antecipação mediática e institucional de uma crise política ainda antes de qualquer negociação tem várias motivações: nuns casos é mera preguiça, é mais fácil fazer contas aos ganhos e perdas eleitorais do que aos ganhos e perdas do SNS e noutros casos é política, pretende-se com a dramatização e a chantagem retirar o poder negocial ao PCP e ao Bloco."

"Pretende-se matar a negociação, substituindo-a por um ultimato. Pretende-se retirar o mandato àqueles deputados, transformando-os em marionetas de agendas políticas que não são suas, mas, acima de tudo, pretende-se transformar a política num jogo de cálculos eleitorais em que no que realmente interessa à vida de todos tudo fica sempre na mesma", acrescenta.

O jornalista considera que "a estabilidade só é um valor político importante se estiver ao serviço da estabilidade da vida das pessoas. Estabilidade política sem estabilidade social tem um nome: pântano" e acrescenta que "é nos pântanos que germinam as crises de regime muito mais difíceis de resolver do que as crises políticas circunstanciais".

"Espero que o PCP e também o Bloco se mantenha firme naquilo que se exige a quem é eleito para representar os seus eleitores: fazer valer o seu voto que representa o voto de centenas de milhares de portugueses para conquistas políticas. O resto não é política, é a espuma dos dias", remata.

Texto adaptado por Sara Beatriz Monteiro

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