Shireen Abu Akleh: Do lado errado, a liberdade de imprensa vale zero

Daniel Oliveira relembra o caso de Shireen Abu Akleh, uma jornalista da cadeia de televisão Al-Jazeera que morreu na semana passada enquanto cobria um ataque israelita na cidade de Jenin, na Cisjordânia ocupada. "Shireen Abu Akleh nasceu em Jerusalém numa família cristã-árabe. Viveu nos EUA e, por isso, tinha cidadania palestiniana e norte-americana. Depois de passar por vários órgãos de comunicação social, entrou para a Al-Jazeera, a mais prestigiada televisão internacional de informação em língua árabe e uma das mais relevantes em todo o mundo", começa por dizer o comentador no seu espaço habitual de Opinião na TSF.

O cronista refere que, há 25 anos, Shireen Abu Akleh " foi uma das primeiras mulheres a trabalhar em cenário de guerra e conflito". "Ouvida como a voz da Palestina para o mundo, ela era a mais notável e famosa jornalista no mundo árabe. Se alguém podia matar Abu Akleh, quer dizer que podia matar qualquer jornalista. E foi isso mesmo que se quis provar em Jenin", considera Daniel Oliveira.

"O Governo israelita começou por acusar os palestinianos mas lá acabou por assumir que o disparo até poderia vir do seu lado. Mesmo assim, a mesma comunicação social que na guerra da Ucrânia acha que não precisa de duvidar de nada do que lhe diz uma das partes, confundindo o justo julgamento moral de uma ocupação com a participação militante num esforço de guerra, decidiu desconfiar dos testemunhos dos dois colegas que Shireen Abu Akleh, a sua produtora e o seu câmara, que foi ele próprio atingido", explica o jornalista, sublinhando que a comunicação social israelita "manteve a dúvida se os autores do assassinato, bem dirigido à cabeça de uma jornalista claramente identificada e com colete à prova de bala, teria sido mesmo quem os jornalistas diziam que tinha sido".

"Porque Shireen Abu Akleh", diz Daniel Oliveira, "também é cidadã norte-americana, Israel ficou numa situação incómoda e tentou desacreditar o testemunho dos seus colegas, exigindo participar na investigação da sua morte em território palestiniano e lançando dúvidas atrás de dúvidas". O comentador compara esta situação com a Rússia: "É mais ou menos o mesmo que Vladimir Putin exigir participar nas investigações ao massacre de Bucha. Para Israel, tal como para a Rússia, o seu vizinho não tem realmente direito a existir, a aplicar as suas leis, a investigar os crimes cometidos no seu território, até jornalistas que não sejam devidamente monitorizados."

O cronista nota que só depois de "uma organização independente ter confirmado o testemunho dos seus colegas e de Israel ter desistido de contrariar a evidência é que a comunicação social europeia assumiu o que, noutro caso, não hesitaria dar como provável tendo em conta todos os dados que já tinha na mão". "Não é a primeira vez que Israel tem a Al Jazeera como alvo. Há cerca de um ano, as suas forças bombardearam o prédio onde a Al Jazeera, a Associated Press e outros órgãos de comunicação social internacional tinham os seus escritórios em Gaza. O edifício colapsou", recorda. "Na altura, como agora, Israel começou por mentir. Garantiu que o edifício estava a ser usado pelo Hamas. Prometeu provas. Passou um ano e essas provas ainda não apareceram, nem vão aparecer, porque Israel nem sequer precisa de fingir que as suas mentiras são verdades. Nunca sofrerá qualquer consequência pelos seus atos", defende Daniel Oliveira.

"Se alguém tinha dúvidas sobre o objetivo simbólico da execução de Shireen Abu Akleh, as Forças Armadas de Israel esperaram pelo funeral da jornalista para sublinhar que nada foi por acaso, que se tratava mesmo de um aviso a toda a imprensa que ali esteja e não siga o seu guião. Carregou sobre o cortejo, incluindo aqueles que carregavam o seu caixão, que caiu no chão", assinala, frisando que "os soldados alegaram provocações".

"Querem maior provocação do que o símbolo dos seus crimes?", questiona Daniel Oliveira. Para o comentador, "isso chegou para que boa parte da imprensa ocidental falasse em confrontos entre palestinianos e israelitas". "Assim é neste conflito. Israel nunca agride, nunca mata, nunca carrega sobre palestinianos. Entra em confrontos, responde a provocações."

Na opinião de Daniel Oliveira, "a clareza moral do nosso jornalismo fica-se pela Ucrânia". "Desde 2000, 46 jornalistas palestinianos foram assassinados por soldados israelitas. Não é o único Estado que o faz. É o único que, executando jornalistas incómodos, conta com o apoio ativo e cúmplice dos governos ocidentais e a indiferença de grande parte dos jornalistas europeus e norte-americanos", considera.

"Porque se instituiu que um Estado a que a Amnistia Internacional acusa de manter um regime de Apartheid e que assassina jornalistas incómodos é, veja-se bem, uma democracia. Israel, que nasceu como um sonho magnífico de liberdade, há muito tempo que deixou de ser uma democracia. Apenas está do lado certo dos nossos interesses. Por isso, os seus crimes não nos chocam e a vida das suas vítimas não nos mobiliza", conclui.

Texto: Carolina Quaresma

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