Um 28 numa Europa a 27

O governo, que lançou foguetes e chamou o mestre de cerimónias para anunciar a Liga dos Campeões e usou Lisboa como exemplo para dar uma medalha de cartão aos profissionais de saúde, está entre a contingência de ter que despedir a ministra da Saúde e a calamidade de aparecer aos olhos de toda a gente, como não sabendo, afinal, o que está a fazer. Até há dois dias, não havia problema algum em Portugal e a questão de não se estar a verificar uma descida consistente de novos casos de Covid-19 na região de Lisboa explicava-se pelo número de testes que estavam a ser realizados.

Uma ilusão repetida inúmeras vezes não se torna uma realidade, mas foi preciso que especialistas em saúde fizessem umas contas simples para que o governo percebesse que se estava a enganar a si próprio. Se há mais testes, precisamos de dividir esse número pelo número de casos positivos e encontrar o resultado, para ficarmos com uma ideia mais clara sobre o problema de contágio. O resultado é 28 e coloca-nos na cauda da União Europeia a 27. Mais, o número de testes caiu significativamente desde que iniciamos o desconfinamento.

Não é estranho, por isso, que em diversos órgãos de comunicação social, se tenha dado conta da manifestação de desagrado de António Costa com os números que lhe fornecem e as figuras que o obrigam a fazer. No relato da revista "Visão", o primeiro-ministro chegou

a tirar a palavra a Marta Temido para se queixar que "o tipo de linguagem e a falta de clareza dos dados impedem o Governo de montar uma estratégia eficaz para travar os contágios".

O país que sempre temeu uma Europa a duas velocidades, anda agora, ele próprio, a três velocidades. E ninguém estranha que o deslumbramento tenha impedido os responsáveis políticos de ter visto para fora do seu gabinete. A culpa é de Camões, que inventou a figura do velho do Restelo, utilizada até aos dias de hoje para descrever todos os que se recusem a acreditar no sucesso da epopeia do governo que estiver em funções.

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