Um país que lida mal com o mérito

Critiquei várias vezes Mário Centeno. Discordei dele outras tantas e cheguei mesmo a questionar-lhe o caráter, a propósito da polémica com António Domingues, na Caixa Geral de Depósitos. Nem sempre geriu bem politicamente e a forma como sai do Governo, numa altura de crise, é disso exemplo. Mas isso não o torna inviável como Governador. Torna-o humano.

Em plena pandemia, no meio de uma crise económica e social nunca antes vista, há partidos políticos - e não só - que estão mais preocupados em impedir Mário Centeno de ir para o Banco de Portugal do que em encontrar soluções para a crise. À falta de bons argumentos, escrevinha-se uma lei à pressa, à medida das circunstâncias, como se fosse a legislação mais importante e urgente do país. Como se, em democracia, fosse aceitável fazerem-se leis ad hominem.

Mas a pergunta principal continua sem resposta: qual é mesmo o problema de nomear Mário Centeno para o Banco de Portugal? É de legalidade? Não. É de competência? Também não. É por ter feito um mau trabalho enquanto esteve à frente do Ministério das Finanças? Seguramente que não. Então qual é o problema?

À falta de razões objetivas, os que estão contra a transição de Centeno para o Banco de Portugal procuraram na subjetividade o respaldo para o soundbyte que pode granjear mais uns votos. Não sendo um problema legal, é, argumentam alguns, um problema ético e moral. Há também os que preferem argumentar com a falta de condições políticas, uma expressão que dá para tudo, mas que, quando não concretizada, não diz rigorosamente nada. Procurei, por isso, na última semana, perceber onde estão esses problemas éticos, morais e políticos.

Sobre a ética e a moral, há quem argumente que, tendo Centeno tomado decisões importantes sobre o Novo Banco, o Banif ou o Montepio, não pode - não deve - ir agora para o regulador que os supervisiona. Para além da ignorância que esta afirmação revela, isso significaria que os interesses do Banco de Portugal são antagónicos ou conflitantes com os do Governo. Ou seja, que não existem ambos para defender os interesses do mesmo Estado.

Além disso, convenhamos que sair do Ministério das Finanças para ir para o Banco de Portugal não é exatamente a mesma coisa que sair do Governo diretamente para a banca privada. Ou andar a vender seguros de crédito ao Estado e depois ir geri-los para o Governo, como já aconteceu no passado com figuras apoiadas pelas mesmas pessoas que agora criticam a transição de Centeno para o Banco de Portugal. Ou estar, por exemplo, na Assembleia da República a fazer leis que depois encaixam que nem uma luva num cliente lá do escritório.

Se Centeno vai ou não ser um bom Governador, logo se verá e cá estaremos todos para fazer essa avaliação, se for o caso. Mas sair de ministro das Finanças para o Banco de Portugal é, parece-me a mim, deixar de servir o Estado de um lado e passar a servi-lo do outro. E há dois critérios que me parecem bastante simples e óbvios: ter currículo e ser competente técnica e politicamente.

Mas com isso, com a competência dos outros, em Portugal, lida-se muito mal. E, no calor do momento, há sempre os que acham que nos podemos dar ao luxo de continuar a queimar pessoas, umas atrás das outras, em fogueiras de aproveitamento político, de mesquinhez e, às vezes, de inveja, tão própria de gente pequenina. Admirem-se depois por ser tão difícil convencer gente de qualidade para a política. E continuem a queixar-se da mediocridade reinante entre a nossa classe dirigente.

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