Vamos falar de Cabo Delgado em Moçambique?

Ao longo da última semana a atenção internacional tem estado centrada nas eleições dos EUA. E diria que, infelizmente, pelas piores razões vamos continuar a falar muito dos vencedores e dos derrotados nestas eleições. Entretanto, por esse mundo fora muito tem acontecido. Os bielorrussos continuam a protestar, os democratas de Hong Kong sentem o garrote da República Popular da China de modo cada vez mais incisivo e, pela primeira vez, temos notícias sólidas de uma vacina para o Covid-19.

Mas é sobre Cabo Delgado que vos quero falar. Esta província moçambicana tem estado nas notícias por dois motivos. Em primeiro lugar, pelos seus recursos naturais e principalmente pela descoberta de gás natural. Esta riqueza levou à articulação de um conjunto de investidores estrangeiros que é muito importante para a sua exploração. O optimismo que acompanha estas notícias contrasta com a incerteza associada ao segundo motivo: a violência crescente.

Cabo Delgado tem assistido nos últimos anos a vários episódios de violência que têm deixado uma marca profunda nas populações. E é aqui que entramos num território com contornos imprecisos e no qual não temos a confirmação, por exemplo, do número de vitimas. O acesso a informação credível e sustentada é cada vez mais difícil devido á ausência de jornalistas das áreas afectadas.

No entanto, o que podemos afirmar com certeza é que a violência está em crescendo. Mais preocupante é que parece ser um processo que envolve controlo de território e também recrutamento local. A situação hoje contradiz duas ideias defendidas pelo governo de Moçambique: os ataques eram causados por estrangeiros vindos da Tanzânia e que a situação estava controlada.

Mas, a realidade é de facto outra e as reacções internacionais começam a fazer-se sentir. Destas destacaria a da União Europeia através de Josep Borrell e a do Presidente francês Emmanuel Macron. As vozes internacionais juntam-se agora à do Bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa que há muito tem tentado chamar a atenção para a urgência desta tragédia. Nas suas palavras: «Destroem casas, bens públicos, matam pessoas, raptam, meninas principalmente.»

A população de Cabo Delgado vive dias terríveis. Parece que o governo moçambicano dá finalmente sinais de reconhecimento da realidade e do facto de precisar de ajuda internacional. Entretanto, a carnificina continua.

*A autora não segue o acordo ortográfico de 1990

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