A outra máquina de fazer espanhóis

Desenhos, pinturas e uma parede. Assim se agigantam as palavras de Valter Hugo Mãe. O traço de Juan Domingues descreve "com outra liberdade", uma espécie de caligrafia da velhice. Ao longo de toda a semana, empoleirado num escadote, foi desenhando o seu livro. A parede é o seu olhar e são as suas memórias. Partilham agora o espaço da Zet Gallery, em Braga, com a reprodução das ilustrações que deram vida ao romance do escritor, "A Máquina de Fazer Espanhóis", reeditado em novembro do ano passado, pela Porto Editora. E são um convite à reflexão. A exposição inaugura este sábado. Para ver, tocar e até manipular.

"Trocar uma imagem por palavras é complicado", desabafa Juan Domingues, lá na galeria onde o desafio de mostrar os seus desenhos, através da linguagem, numa conversa gravada à distância, se revela mais difícil do que podia parecer. O traço é-lhe a expressão familiar, a sua forma de comunicar. Importa fazer com ele a viagem das ilustrações que o romance de Valter Hugo Mãe o levou a palmilhar: "Foi um livro que me feriu bastante, porque tinha perdido dois avós, de uma forma muito repentina. Foi um livro que pesou, no sentido daquilo que é a responsabilidade para com os mais velhos, a discriminação pela idade, a falta da companhia dos familiares, que não é muito discutida. Senti muito na pele, foi uma carga enorme."

Juan conta-nos a história de duas senhoras acamadas, que se quiseram pentear e pintar para aparecer. Havemos de nos cruzar com elas, por entre os corredores desta exposição, onde a reprodução dos desenhos e das pinturas originais ganha dimensões maiores, invadindo o olhar do público.

A parede é uma outra conversa. 3 metros de altura por 2 de largura, "é um paredão gigante, para estar ao nível das palavras do Valter", descreve Juan, ensaiando o desafio lançado pelo escritor, pela Porto Editora e por Helena Mendes Pereira, a curadora da exposição. "Aqui era sempre necessário ter outra liberdade, e ir para além da obrigação do livro. A escala é outra."

Até 16 de abril a parede impõe-se, embora o artista desvalorize a ideia de eternizar uma parede. "Isto é efémero, depois da exposição a parede volta a ser branca, o que é importante é eternizar atitudes." E porque a abertura está marcada para sábado, véspera de eleições, Juan Domingues deixa um apelo à reflexão: "Falamos de coisas sérias. Espero que quem venha à exposição se desafie pelo livro, e pela história do António Silva, perseguido pelos fantasmas do Estado Novo. E estamos a viver um período do século XXI , em que a extrema direita volta a surgir. Eu não vivi o fascismo, mas coisa boa não foi, de certeza. Creio que é um bom motivo para as pessoas que cá venham refletirem, e até votarem em consciência."

Fica também um convite à manipulação: "Há desenhos que podem ser tocados, alguns sobre o Salazar, que eu até vou desafiar as pessoas a estragar os trabalhos. Manifestarem-se perante a carga que eles representam." A ideia é mesmo provocar uma reação "a ver se as pessoas são capazes".

"A Outra Máquina de Fazer Espanhóis" é uma exposição individual de Juan Domingues, patente na Zet Gallery, em Braga, de 29 de janeiro até 16 de abril.

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