Mário Domingues e "a rebelião negra"

Já está nas livrarias "A Afirmação Negra e a Questão Colonial". Uma seleção de textos escritos há cem anos por Mário Domingues, um jovem jornalista pioneiro da afirmação negra em Portugal e atento ao movimento negro em todo mundo . Os artigos escritos para jornais como A Batalha ou o Repórter X foram escolhidos pelo investigador José Luís Garcia que escreveu um ensaio para a apresentação desta edição da Tinta da China, agora folheada pela TSF.

A 9 de julho de 1919, Mário Domingues publica nas páginas do jornal A Batalha Colonização. É o primeiro texto de denuncia doa condição dos negros em Portugal. Poucos anos depois, tornou-se também no primeiro autor a defender abertamente a independência das colónias portuguesas em África.

Trazido com 18 meses para Lisboa, era filho de um colono branco e de uma angolana, levada para a ilha do Príncipe como trabalhadora forçada na roça Infante D. Henrique.

Em Portugal, o jovem Mário teve uma educação típica da pequena burguesia. Estudou no liceu francês. Aos 19 anos, começou a escrever primeiro para jornais e não mais parou.

A coragem e o estilo fazem de Mário Domingues um homem à frente do seu tempo, defende José Luís Garcia que selecionou os artigos para esta edição. O investigador assina ainda um ensaio introdutório sobre a vida e obra do autor.

"Ele é um dos maiores símbolos da rebeldia negra. Da passagem do negro de uma condição de subalternidade na sociedade portuguesa para autor da sua vida", acrescenta.

A tiragem do diário A Batalha atingia os 40 mil exemplares. Mário Domingues não era por isso uma voz isolada, sublinha o investigador do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa. O sociólogo não tem dúvidas quanto à importância do autor, nem quanto à qualidade da escrita visível nas mais de 300 páginas do livro agora publicado.

Com a chegada do Estado Novo, Mário Domingues decide viver só da escrita. Traduz, por exemplo, Charles Dickens, Stefan Zweig, e começa a escrever policiais e livros de aventuras.

Anastácio José, O Preto de Charleston, O Crime de Sintra, são alguns dos livros escritos por Mário Domingues A maioria assinados com pseudónimos estrangeiros. "Por vezes até para o suposto tradutor inventava um pseudónimo. É o mestre da pseudonímia'', acrescenta o sociólogo. No total, publicou mais de 150 livros.

Mário Domingues Anarquista, cronista e escritor da condição negra

A Biblioteca Nacional tem por estes dias uma mostra dedicada ao autor. Junto à entrada da sala de leitura da biblioteca nacional, cinco vitrines, com fotografias, cartas, manuscritos, cópias de jornais e alguns livros contam a história de Mário Domingues.

A de grande publicista do movimento negro em Portugal, a de jornalista no Detective e no Repórter X; a de novelista e romancista; a de escritor de livros de policiais e de aventura.

Há também um retrato a óleo "soturno, com um olhar melancólico" pintado pelo filho, Pimentel Domingues. A colaboração com o filho está bem patente nesta mostra. É dele o grafismo de vários livros e sobretudo a capa de O Menino Entre Gigantes. Um romance autobiográfico dedicado à mãe, que Mário nunca conheceu. A criança que aparece na capa é o neto.

Um dos últimos projetos editoriais de Mário Domingues foi a publicação de romances históricos dedicados a figuras da História de Portugal. O trabalho valeu-lhe uma condecoração atribuída pelo Estado Novo, em 1972.

Já depois do 25 de Abril, Mário Domingues volta a reivindicar-se fiel às ideias da juventude. Envia uma nota ao diretor da "Voz Anarquista", a saudar a saída do primeiro número do jornal. "Agora, mais do que nunca, é preciso proclamar bem alto que o anarquismo não é a desordem, a violência e o crime, como as forças reacionárias têm querido qualificá-lo. Nesta hora que o 25 de Abril parece tornar propícia a melhores dias".

José Luís Garcia, que estuda a obra há mais de duas décadas, ainda tem "a esperança de ver o nome de Mário Domingues numa rua, ou um busto, na cidade de Lisboa. E também gostava de ver O Menino Entre Gigantes, reeditado e inserido no Plano Nacional de Leitura".

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