Quando a arte fica de quarentena, como (sobre)vivem os artistas?
arte em tempo de pandemia

Quando a arte fica de quarentena, como (sobre)vivem os artistas?

Precisam do público como de pão para a boca. Alimentam a alma e o corpo de salas cheias, aplausos, risos e gingares de anca. Cada dia sem pisar o palco é, para eles, mais um dia de desespero e incerteza. Com a pandemia da Covid-19, artistas, técnicos, agentes e promotores veem-se parados, fechados, agarrados às notícias a ver se lhes chegam boas novas, enquanto vão caindo notificações de mais um espetáculo cancelado, de mais um evento adiado, de mais uma fonte de receita reduzida a zero.

O Governo anunciou medidas de apoio ao mundo do espetáculo que passam por reembolsar apenas os bilhetes de eventos cancelados e não adiados, mas ter rendimento é, ainda assim, um desafio para quem não pode sair de casa para criar e mostrar a criação. A TSF falou com uma atriz, uma humorista, um músico e um agente para perceber como (sobre)vive a arte em tempo de pandemia.

Os dias de "ansiedade" e o "efeito tsunami"

Mia Tomé deambula pela casa enquanto tenta decorar uma peça de teatro que não sabe se vai chegar a palco. A atriz tem vivido os últimos dias entre uma "grande ansiedade" e uma consciência da necessidade de "ter calma", enquanto se "agarra à esperança" de dias melhores.

Os ensaios estão parados. As locuções, dobragens e outros trabalhos que lhe garantem o sustento também. Resta-lhe o trabalho de escrita e o tempo para pensar em formas de dar a volta à situação.

Hoje, não fosse a pandemia, estaria "numa residência artística a preparar um espetáculo com estreia marcada para 30 de abril", que teme que não vá sequer chegar a cena. O que for cancelado não vai ser reposto, "é trabalho perdido".

A agenda da humorista Joana Gama também tem agora mais espaços por preencher e tudo indica que permaneça assim durante alguns meses. A digressão do projeto Banana Papaia (um programa apresentado com Rita Camarneiro, alojado na plataforma Maluco Beleza, que ganhou contornos próprios e saiu do ecrã para os palcos) tinha já sete datas marcadas e teve de ser cancelada, ou seja, "não vai de todo acontecer".

Além da digressão, a humorista perdeu a oportunidade de participar numa roast battle (uma batalha de piadas) no espaço lisboeta de promoção da comédia Maxime Comedy Club e estão em risco também os trabalhos como apresentadora e atuações em festivais "que ainda não foram canceladas oficialmente, mas que irão ser, certamente".

Os últimos dias têm sido de "adaptação psicológica aos cancelamentos de trabalho, mas também uma espécie de preparação" para o que vai mudar na forma como trabalha. O desafio de trabalhar a partir de casa não é novo para a artista, mas fazê-lo com a filha de seis anos - que vai interrompendo a entrevista para pedir a atenção da mãe - torna mais difícil a concentração e a criatividade.

Uns quilómetros acima, o guitarrista e teclista dos Prana vê-se a braços com a incerteza. Apesar de não viver exclusivamente da música, João Ferreira acredita que os próximos tempos serão "duros" para a banda sanjoanense com uma década de existência que lançou no final do ano passado o EP "Entre o Verde e o Laranja".

A "impaciência" tem reinado, nas últimas semanas, no seio da banda, sobretudo, depois de verem cancelado o concerto de apresentação do novo EP em Lisboa, "que contava com quatro convidados - os Kumpania Algazarra, o Frankie Chavez, a Cristina Branco e a Cláudia Pascoal (a convidada surpresa)".

Como a arte "não é um bem essencial", o músico teme que a pandemia crie "um efeito tsunami que comece aos poucos a deitar abaixo os projetos mais pequenos".

19 mil eventos cancelados ou adiados. Quem protege a arte?

"Nunca estamos protegidos", atira Mia Tomé. E o problema da falta de apoio aos artistas não é de hoje, garante a atriz: "Temos muito poucos direitos, raramente temos contratos, a maior parte de nós trabalha a recibos verdes, portanto, significa que é sempre incerto aquilo que recebemos."

Para a situação mudar, sustenta, "tínhamos de andar muitos anos para trás e estabelecer outras formas de trabalho, começar a existir algum tipo de contratos, por exemplo, ia ajudar."

Os dados das três maiores bilheteiras online apontam para, pelo menos, "19 mil eventos cancelados ou adiados", adianta Sandra Faria, a porta-voz da Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE), isto sem contar com o número considerável de iniciativas gratuitas que também foram e vão ser canceladas ou adiadas.

Foi por este motivo que a APEFE decidiu pedir ao Governo uma série de medidas para proteger o mundo das artes como "a suspensão imediata do pagamento de IVA, TSU, IRC" e a criação de uma linha de microcrédito com juros mais baixos do que os anunciados pelo Governo.

E depois da pandemia? Medos e soluções

O receio de Nuno Pires não é tão imediato, apesar de já ter sido obrigado a cancelar 25 datas. O agente dos humoristas Guilherme Duarte, Ricardo Cardoso e Hugo Subtil tem medo do medo do que virá depois: "vai haver o impacto pós-covid que vai ser o público recuperar confiança de estar numa sala de espetáculo".

O empresário defende que deve haver "um esforço do Estado para ganhar a confiança do público que demorará a sair de casa para enfiar-se em salas de 1500 pessoas" e acredita que os festivais de verão serão o barómetro dessa confiança: se acontecerem, o público demorará menos tempo a reagir.

Há, ainda assim, quem consiga ver a face mais clara de uma situação cinzenta. O músico João Ferreira adianta que os artistas terão de se desdobrar "em gravações caseiras" e produções à distância, enquanto aceitam a solidariedade de quem os segue: "É fácil nós unirmo-nos em torno de causas, para fazer concertos solidários, para através do nosso trabalho ajudarmos alguém. Se calhar, estamos numa fase em que vamos ser nós a precisar de ajuda."

Joana Gama vai ainda mais longe e considera que os efeitos da pandemia terão um impacto positivo na forma como os profissionais do espetáculo vão passar a olhar para o digital: "estamos a reinventar-nos nas redes sociais e a aproximar-nos mais do público sem o status do palco".

A humorista entende que os artistas portugueses "querem apresentar um trabalho com extrema qualidade de imagem, som, grafismo" e, nesta fase, estão a valorizar mais a personalidade e o conteúdo espontâneo e não tanto o guião e a estrutura.

A internet encurta a distância e o Instagram torna-se o palco onde os artistas libertam a criatividade que não podem deixar sair para a rua. Resta-lhes esperar que, durante o recolhimento, as marcas e as salas de espetáculo estejam atentas ao trabalho digital de quem vai "destruindo a cerimónia", um direto após o outro.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de