"Tal como há uma guitarra antes e depois de Paredes, há um Fado antes e depois de Amália"

Luísa Amaro, primeira mulher guitarrista profissional da guitarra portuguesa e companheira de Carlos Paredes, conversa com o jornalista Ricardo Alexandre sobre Amália Rodrigues, a mulher que conheceu "ainda muito novinha" e voltou a encontrar anos depois.

Nesta conversa com o jornalista Ricardo Alexandre, Luísa Amaro fala da Amália Rodrigues que conheceu ainda em criança, lembrando a disponibilidade e generosidade da fadista, mas também da relação de amizade e respeito entre Amália Rodrigues e o guitarrista Carlos Paredes.

Luísa Amaro, o que é que significa Amália para si?

Eu conheci Amália ainda muito novinha. Nós tínhamo-la convidado para cantar no nosso colégio porque precisávamos de arranjar dinheiro para uma obra solidária. Algumas duvidaram que Amália fosse aceitar o convite de tão jovens miúdas, mas a Amália foi, a Amália aceitou. E aquilo foi uma grande alegria para as alunas, das mais pequeninas às mais velhas. Sempre acreditámos que ela iria aceitar o nosso convite e fez-se uma grande festa. Amália cantou tudo o que nós tínhamos pedido e juntou-se depois a ver um belíssimo caldo verde. Não me recordo do resto do menu mas sempre me ficou, até hoje, essa imagem da Amália solidária, disponível. E é uma imagem muito bonita quando se é assim tão novinha, devia ter os meus sete e oito anos. Este foi mesmo o meu primeiro contacto com ela.

Depois, com o tempo, fui percebendo que a Amália não era apenas uma cantora de fado, ela estava ao nível das maiores cantoras do mundo, tal como Paredes não é apenas um guitarrista de guitarra portuguesa, é um grande instrumentista, o melhor dos melhores instrumentistas do mundo. E Amália estava ao nível de uma Piaf, estava ao nível de uma Irene Papas, estava ao nível de uma Maria del Mar Bonet, que por acaso também tive o privilégio de conhecer. São mulheres únicas que cantam com o corpo inteiro e que têm a música na voz e no coração. E isso faz toda a diferença pois o público sente essa verdade e quando a sente entrega-se e adere imediatamente. Foi isso que se passou com as crianças a quem ela aceitou amavelmente o convite, nós todos ficámos tão felizes por ter aquela Amália, mas é o que se passa depois ao longo da vida desta grande cantora. Amália cantava o que sentia e fê-lo de uma maneira tão natural e despretensiosa como só os grandes conseguem. Eu disto falo à vontade porque vi, pelo Carlos Paredes, o que é tocar guitarra parecendo talvez tão simples para quem olha e para quem escuta. E normalmente quando se é assim tão grande só assim se consegue esse milagre.

Também não é indiferente o facto da sua extensão vocal ser fantástica. A Amália passa das notas mais graves às mais agudas com a mesma facilidade e nitidez, tudo parece tão simples e conseguido sem esforço. Na verdade, Amália não precisava de gritar para chegar às notas mais agudas. O seu leque vocal tudo abrangia e deslizava com a maior naturalidade. E isto é um dom, é um dom que Amália soube utilizar para que cada palavra cantada fosse entendida, entendida e sentida por ela e por todos nós. Graças a esta voz ela pôde difundir e tornar mais acessível a nossa cultura literária e poética, tanto em Portugal como no mundo.

Os grandes poetas, fui eu verificando, chegam ao povo não pelo exercício muitas vezes do intelecto mas pelo coração que é onde melhor permanecem. Era uma autodidata. Todos nós sabemos que Amália era uma autodidata. Ao Carlos Paredes perguntavam muitas vezes se ele sabia música. Ele sabia o suficiente para compor o que compôs. Eventualmente faltava-lhe a estrutura, a instrução dos grandes compositores. Mas quando está tudo na mesma pessoa, a sensibilidade, a intuição, a inteligência e o bom gosto, muitas vezes o lado mais técnico consegue ser ultrapassado. E foi isto que se passou também com a Amália. Era uma autodidata. Mas esta enorme sensibilidade, inteligência e intuição influenciou as suas escolhas, optando por letras que, através do seu ritmo, melhor se adaptassem à sua voz e ao seu fado.

Amália, uma mulher que fugiu ao destino que a sua condição social de origem humilde lhe traçava. A sua voz, e isso é o que eu hoje sinto com os meus 62 anos, a sua voz sintetiza a tristeza, a melancolia e o sentimento do ser português. Tal como há uma guitarra antes e depois de Paredes, há um Fado antes e depois de Amália. Eles são génios que valem por si só, eles são como eucaliptos como hei de dizer... eles são como eucaliptos que secam tudo à volta e por isso não vale a pena imitá-los. É sempre o conselho que eu dou a quem ouço que quer tocar Paredes... não imitem porque a pessoa não sai bem desse filme. Como com a Amália, não vale a pena imitá-la porque Amália há só uma. E porque ficam no coração das pessoas como eu no início disse. Fica para sempre marcada a imagem tanto da pessoa, que era uma mulher linda que a deve ter ajudado bastante, mas aquela voz que traduz Portugal. Nós ouvimos a voz de Amália como ouvimos Carlos Paredes e vem-nos logo ao consciente às vezes o que o inconsciente está a sofrer de saudade de Portugal. Portanto, eles são tão excecionais que a defesa da sua obra é conseguida por eles mesmos.

Eu conheci a Amália... Carlos Paredes levou-me a casa de Amália e sentia-se às vezes uma amargura porque, tanto no caso de um como no outro, às vezes verem as suas obras da forma como são cantadas e sentidas de forma diferente da deles, eles quase que temem que seja adulterado a sua forma de sentir e de dizer. Mas há uma coisa que eles não se aperceberam, com certeza, mas que eu agora digo: eles podem estar descansados porque eles são os melhores defensores da sua obra. Eles defendem-nas pela sua qualidade natural. Dito isto também, a minha reflexão é sempre esta: tal como não há um segundo Picasso, não há uma segunda Amália ou não há um segundo Paredes.

Arriscou, foi ousada e corajosa. Queixava-se da inveja que caía sobre ela e a sorrir, com um ar maroto, dizia ao Carlos Paredes: Carlos, olhe que não é só de mim que têm inveja, de si também. Isto presenciei algumas vezes... o Carlos Paredes discretamente sorria e não adiantava, não desenvolvia o assunto, mas que era algo de uma consciência muito forte que Amália tinha e da sua relação com o Carlos Paredes. O que se sentia era uma profunda amizade e respeito entre os dois.

Mas não havia também uma pontinha de rivalidade?

A Amália era muito amiga do Carlos Paredes. Em determinada altura, portanto o Carlos Paredes era mais novo que ela, e alguém que convidou Amália - já não me recordo do sítio - que convidou a Amália para cantar, também convidou Carlos Paredes que era um jovem. A Amália, segundo consta, o Carlos Paredes tocou primeiro, arrumou a guitarra e foi-se embora. E a Amália, que nunca tinha ouvido uma coisa daquelas, ficou perplexa porque, dizia ela, e depois contou-me, ela dizia-me "eu andei atrás de toda a gente até descobrir o Paredes porque eu não sabia que se podia tocar assim guitarra". E dizia, "Paredes, o que eu corri e que falei com pessoas só para conseguir chegar a si!" E telefonava regularmente ao Carlos Paredes porque queria que o Carlos Paredes a acompanhasse.

Portanto, Paredes foi o guitarrista que Amália não conseguiu ter embora fossem pessoas muito diferentes?

O Carlos Paredes era tímido, o Carlos Paredes politicamente estava do outro lado da Amália Rodrigues, mas o Carlos Paredes prezava muito e respeitava muito a opinião de seu pai, Artur Paredes. E foi perguntar ao pai o que é que havia de fazer porque a Amália Rodrigues estava constantemente a convidá-lo para ele tocar com ela e ele não sabia, não a queria ofender porque era amiga mas também sentia que não era esse o caminho. E o pai deu lhe um conselho muito sábio, que eu ainda hoje me recordo de Carlos Paredes dizer: "Carlos se tu queres ser solista tu não podes acompanhar ninguém". É fantástico e o Carlos Paredes seguiu o conselho do pai. E hoje verifico que ele não seria o melhor acompanhador da Amália mas também reconheço que foi a opção certa. O que também levou a que eles se mantivessem sempre, sobretudo no caso da Amália, que mantivesse sempre aquele desejo de um dia cantar com o Carlos Paredes a tocar com ela, não para ela. Não se verificou mas, contudo, ainda estiveram os dois juntos para gravar os "Verdes Anos". Não porque o Carlos Paredes a acompanhasse, porque a Amália seria acompanhada por orquestra, mas para lhe dar as indicações todas. O Carlos Paredes levou a guitarra e foi maravilhoso, para mim e para o Álvaro Cassuto que estávamos a acompanhar aqueles dois grandes nomes da música e da cultura portuguesa... um a tocar e o outro a cantar, a contar histórias ao mesmo tempo sobre os verdes anos o que é que ia fazer, como é que ia cantar como é que não ia cantar.

Tudo isto fez outra vez em mim uma tomada de consciência de algo... primeiro em criança foi aquela disponibilidade e aqui foi o respeito, que é uma lição de vida, com que duas pessoas podem estar, que politicamente estão no oposto uma da outra mas que se respeitam e que aderem naquilo que é mais importante neste caso que é a arte deles que é a música, sem nenhum sentido de mágoa, sem nenhum sentido de uma amargura ou de azedume.

O que é que Amália Rodrigues significou para a carreira de Carlos Paredes?

A Amália influenciou e ajudou o Carlos Paredes, até certo ponto. A Amália quando esteve no Olympia, uma das pessoas que ela quis que estivesse presente no espetáculo do Olympia era o Carlos Paredes. E o Carlos Paredes, com a maior das simplicidades, em conversa com Amália, dizia-me assim: "sabes, a grande estrela era a Amália e portanto todos nós que lá estávamos, estávamos a aquecer o público para o grande momento que era Amália". E ele dizia isto com a maior das simplicidades e naturalidades. A Amália, inclusive, fez um jantar para que o Carlos Paredes conhecesse o [Bruno] Coquatrix, que era o diretor do Olympia. E ela recordava isto mas sem ser aquele sentido de "eu fiz, agora agradece". Era porque ela sabia que ele era muito bom! De certa forma, ela tentou puxar pelo Carlos Paredes, como ela achava que devia ser, mas também por razões políticas o Carlos Paredes não se comprometia numa situação dessas. E ela respeitou. Ela só disse "Paredes você um dia tramou-me, você um dia tramou-me, fiquei muito mal vista" porque tinha feito um grande jantar em honra do Carlos Paredes, onde estavam elementos da ditadura brasileira da época. E ela queria que o Carlos Paredes tocasse para eles porque queria levar o Carlos Paredes ao Brasil. E o Carlos Paredes, acho que deve ter sido a única vez na vida, levantou-se - e ela contava isto, "olha ele deixou-me muito mal vista, muito mal vista, porque o Paredes levanta-se, fecha a guitarra e diz 'Amália, eu para esses senhores não toco'. Saiu e foi-se embora". Ela disse, "Eu fiz aquele jantar todo em honra do Paredes, para o promover e ele faz-me uma coisa destas". E o Carlos Paredes sorria e só lhe dizia, "Amiga Amália, você sabe que eu não podia, eu não podia." É bonito!

Portanto, chegamos aqui a um ponto que é: será que a Amália tinha ausência de consciência política? E eu diria assim, sim! Este é sempre um assunto muito delicado mas, no meu ver, em vez de convicções muitas vezes contemporizou com o regime do Estado Novo mas talvez em nome de uma carreira que era construída de degrau a degrau. E para ela o grande amor da vida era a música. Portanto, a ditadura serviu-se da Amália mas ela, de certa forma, também se serviu da ditadura porque ela precisava de cantar, era o que lhe dava sentido à vida. E ainda bem que tudo foi ultrapassado porque temos hoje e podemos dizer que Amália Amália viveu e respirou tudo que era possível.

E como é que foi a relação entre ambos depois da revolução?

Nos seus desabafos ao Carlos Paredes, já depois do 25 de Abril, ela dizia "Carlos Paredes, você sabe que a esquerda toda, fui muito perseguida, foi assim, foi assado". E o Carlos Paredes, com muita calma, costumava responder-lhe: "Oh amiga Amália, você não ligue, as coisas hão de voltar à normalidade. O seu génio, o seu talento e o seu prestígio serão para sempre". E assim é, não é?

O que é que Amália nos deixa Luísa Amaro?

O Fado jamais será o mesmo, pois na voz de Amália tudo deixou de ser uma canção fatalista, e desgraçada, para ser uma voz de uma lírica portuguesa. Há o trágico, há a solidão mas também a alegria de viver, a alegria das coisas simples, a pureza da criança, o melhor de nós. Eu isso vi, presenciei e testemunhei. Ela ao pé de Carlos Paredes era aquela Amália sem filtros, porque sabia que podia confiar no amigo que ali estava. Com um imenso sentido de humor, ela estava tão feliz que quando nós saímos de casa dela, a Amália veio cá abaixo e estava a cantar ao pé do Carlos Paredes, enquanto o táxi não chegava. A Amália ia cantando e dizia "oh Paredes você lembra-se disto?" e cantava... e para mim, que era uma jovem. Eu estava abismada por ver Amália, depois da meia-noite, no meio da rua de São Bento, a cantar para o Carlos Paredes (risos)... mas com uma alegria que na verdade se contrapõe. As pessoas têm que viver quase esta dualidade entre aquela tristeza tremenda de solidão, de despojamento, de coisas de vida muito muito desagradáveis, mas mantendo sempre este lado mais inocente. E eu acredito que Amália o tivesse sempre mantido.

Fica-me sempre na memória as visitas que ela fazia ao Carlos Paredes. É algo que muita gente não sabe mas a Amália Rodrigues, até o final da vida de Carlos Paredes, foi sempre acompanhá-lo e foi sempre vê-lo. Para aqueles mais céticos, que dizem que Amália era tremenda era terrível... eu não sei! Eu sei que a Amália em relação ao Carlos Paredes era de uma generosidade enorme, e havia pessoas amigas do Carlos Paredes que diziam "olha que ela só faz isto ao Paredes!". E na verdade a Amália ia visitar o Carlos Paredes. Ia de fato de treino, de ténis porque ia, parece-me que era a Monsanto apanhar flores com a Lili (Leonilde Henriques, a secretária), e então levava as flores ao Carlos Paredes. Era sempre um encontro muito emocionante primeiro porque as pessoas todas do lar, quando viam que era Amália Rodrigues, ficavam todos muito emocionados, desatava toda a gente a bater palmas quando a via entrar; ela ali já tinha uma entrada emocionante e com uma carga muito pesada. E depois estava ao pé do Carlos Paredes, fazia-o rir, ele já estava muito debilitado mas fazia-lhe companhia, fazia-o rir, brincava com ele, cantava-lhe coisas, lembrava-lhe a altura que eles tinham estado no Japão e tudo isso. Mas Amália saia sempre a chorar e dizia-me sempre assim: "Oh minha filha, eu nunca mais cá volto que eu não aguento isto" de dor, de peso emocional. Mas voltava sempre!

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