Tunas rurais correm sérios riscos de extinção

Grupos musicais aguentam-se à custa dos mais velhos. Associação Arquivo de Memórias, com ​​​​​​​sede em Vila Real, tenta salvar as seis que restam em aldeias das serras do Marão e do Alvão.

As tunas rurais estão em risco de extinção. As aldeias estão cada vez mais despovoadas, os jovens estão cada menos interessados nestes grupos musicais, que se aguentam à custa dos mais velhos. Para evitar o desaparecimento, a Associação Arquivo de Memórias, com sede em Vila Real, está a fazer a inventariação das tunas das serras do Marão e do Alvão.

Nesta área serrana quase contínua destacam-se as tunas da Campeã e de Bisalhães, em Vila Real; as de Soutelo e de Carvalhais, em Santa Marta de Penaguião; a de Ansiães, em Amarante; e a de Ermelo, em Mondim de Basto. Esta última atravessa, atualmente, um período de inatividade.

O passo que se segue é a inscrição na lista nacional do Património Cultural Imaterial. Salustiano Lopes é o responsável por este trabalho no Arquivo de Memórias. Ao longo de vários anos tem vindo a trabalhar para que as tunas rurais do Marão e Alvão não morram. Diz que "a situação das tunas, neste momento, não é famosa". Há "uma série de fatores" que fazem com que vão "esmorecendo" e com que algumas "tenham já acabado". O principal é que "falta interesse aos jovens para fazerem parte", pois "as tendências mudaram e não estão para este tipo de música".

É este problema que está a afetar a centenária Tuna de Ermelo, em Mondim de Basto. Das seis tunas inventariadas nas serras do Marão e Alvão, é a que corre mais riscos de desaparecer de vez. Agora tem apenas "seis elementos", o que é considerado pouco em formações que costumam ter sempre mais de uma ou duas dezenas. Mas Salustiano é persistente e tem "a impressão de que se vai conseguir dar a volta". "Já morreu três vezes e ressuscitei-a outras tantas, pelo que espero que tenha a quarta ressurreição".

A Tuna de Soutelo tem conhecido altos e baixos, mas nos últimos anos tem-se mantido ativa. Guilhermino Barria tem 83 anos e é o encarregado que dá ânimo à formação. "Enquanto eu cá estiver creio que se vai aguentar. Quando eu não puder não sei como vai ser, porque não há ninguém que se queira agarrar a isto. Se não há pessoas terá mesmo que morrer", sublinha o tocador de clarinete, que também "não sendo um profissional" dá um "jeitinho" a outros instrumentos.

Guilhermino até estaria disponível para ensinar a tocar "se houvesse interessados". Só no acordeão é que não. "Sei um pouco de todos, mas esse..." Aprendeu a tocar de ouvido, mas há meia dúzia de anos inscreveu-se numa banda filarmónica, onde aperfeiçoou o solfejo. "Cismei em integrar-me na basta e estive lá dois anos", recorda.

Ao contrário de Soutelo, em Bisalhães, no concelho de Vila Real, ainda há jovens na tuna. Mas o presidente, Miguel Fontes, que começou a tocar com sete anos (hoje tem 43), diz que vê o futuro "um bocadinho cinzento". Costuma afirmar que "enquanto os velhos andarem por cá, consegue-se aguentar". Mas, "depois de eles começarem a sair, a juventude já não estará virada para aí". Apesar de tudo, mantém as esperanças de que, tal como no passado, possa haver "um ciclo em que apareçam miúdos que queiram aprender". Se isso acontecer, ele e outros lá estarão "para que a tuna possa continuar por mais algum tempo".

Salustiano Lopes nota que "cabe a todos", nomeadamente à "Associação Arquivo de Memórias e às câmaras, o incentivo à preservação das tunas". A vereadora da Câmara de Vila Real, Mara Minhava, entende que tal "só vai ser conseguido com a inscrição na lista nacional do Património Cultural Imaterial". Salienta também a necessidade de haver "um trabalho em rede" entre "autarquias, tunas, Arquivo de Memórias e Direção Regional de Cultura do Norte".

O presidente da Câmara de Santa Marta de Penaguião, Luís Machado, está convencido que "vai ser possível atrair jovens" para as tunas e para as bandas de música. Pensa naqueles que frequentam os conservatórios de música. "É importante manter uma cultura que é nossa e que nos alegra", refere.

Para a Direção Regional de Cultura do Norte fica a tarefa de "acompanhar, incentivar e mobilizar vontades e interesses para o projeto", para além de "dar visibilidade" às tunas. Foi o que aconteceu na quinta edição do "O Toque", encontro que decorreu em Santa Marta de Penaguião, e em que participaram as tunas do concelho anfitrião e do vizinho vila-realense. A inscrição no inventário está a sob a tutela da Direção-Geral do Património Cultural.

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