O que significa parar o país? Consequências de uma greve que todos temem

Que não há greves indolores, já toda a gente sabe. Mas há greves piores que outras. Esta que está anunciada pelos motoristas para a próxima segunda-feira pode ter consequências gravíssimas para a economia do país, mas, sobretudo, na vida das pessoas.

Costuma-se dizer que as desculpas não se pedem, evitam-se. Não tendo sido possível evitar mais uma greve, aos motoristas de mercadorias e de matérias perigosas restou um pedido de desculpas por parte dos sindicatos que a convocaram. Percebe-se porquê: da presidência da república, ao governo, passando pela oposição, todos temem os efeitos desta paralisação.

Porque não são apenas os postos de abastecimento que podem ficar secos. A indústria alimentar, farmacêutica, os serviços de emergência e proteção civil, são inúmeros os setores que podem vir a sofrer as consequências desta greve. A 5 de agosto, o ministério tutelado por Pedro Nuno Santos lembrava mesmo que a paralisação dos motoristas, que decorrerá por tempo indeterminado, seria "gravemente prejudicial para a população", bem como para a economia.

Setor agrícola com "consequências desastrosas"

Assunção Cristas foi a primeira a alertar para as possíveis implicações da greve dos motoristas para a época de colheita. "[O abastecimento às explorações agrícolas] é um tema que me preocupa muito", disse à agência Lusa Assunção Cristas, a 6 de agosto. Assunção Cristas sublinhou, nessa altura, que há várias campanhas agrícolas que "estão a arrancar ou que já estão a meio e, obviamente, sem combustível, sem camiões ou sem camionistas para os poderem operar, haverá muita dificuldade em ter um ano agrícola minimamente normal".

Depois foi a vez da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que apontou as possíveis "consequências desastrosas" que a greve de motoristas teria para a agricultura, um setor que o Governo não teve em conta na rede de emergência.

O presidente da CAP, Eduardo Oliveira e Sousa, afirmou à agência Lusa que uma greve em pleno mês de agosto, altura da colheita de vários produtos, como por exemplo o tomate, a pera-rocha e a uva para o vinho, "pode constituir um desastre" e acrescentou que não sabe se o Governo estaria consciente da sua gravidade.

"Pretendemos que o Governo tome a devida consciência da situação, porque em pleno mês de agosto com temperaturas elevadas, com culturas perecíveis, que têm de ser colhidas em períodos de tempo muito curtos que estão programados há meses, [as culturas] não podem de maneira nenhuma ficar no terreno", disse Eduardo Oliveira e Sousa.

O que vai ser do tomate? E de quatro mil postos de trabalho?

A Associação dos Industriais de Tomate está preocupada com a greve e fala em prejuízos diários de quatro milhões de euros no setor já que a paralisação acontece exatamente durante o pico da época da apanha de tomate.

"O tomate, em Portugal, é plantado entre abril e maio [...] e apanhamos cerca de 25 milhões de quilos por dia que depois são transformados, poucas horas após a apanha. O valor dessa atividade é de cerca de quatro milhões de euros por dia", estimou, em declarações à Lusa, um representante do setor.

Como a apanha do tomate decorre entre agosto e setembro e este é um fruto de curta duração, os produtores estão "muito alarmados com a situação", acrescentou o responsável.

Nessa altura, a Associação dos Industriais de Tomate apelou a que se incluísse nos serviços mínimos a disponibilização de "gasóleo aos agricultores e aos homens que transportam o tomate", para que fosse "permitido abastecimento de fuel e gás às fábricas" que transformam o fruto.

Os produtores alertaram ainda que, sem energia, as fábricas de transformação não vão conseguir funcionar. Com esta greve, ficam assim em causa, "quatro mil postos de trabalho de cerca de oito fábricas, essencialmente, na região do Ribatejo", apontou.

Rede de emergência de postos de combustíveis não abrange zonas rurais

O dirigente da CAP considerou que a rede de emergência para abastecimento dos postos de combustíveis anunciada pelo Governo não contempla as zonas rurais.

Para a CAP, defendeu Eduardo Oliveira e Sousa, seria "necessário criar um sistema de prioridade de abastecimento dos postos onde os agricultores possam acorrer para que as colheitas não fiquem postas em causa".

"Na perspetiva de uma greve que não sabemos quanto tempo demora, é instalado um pandemónio no país e esse pandemónio no setor agrícola é a ruína, pura e simples", acrescentou, esclarecendo que os seguros agrícolas não contemplam este tipo de situações e que a perda de uma colheita, fruto do trabalho de um ano inteiro, pode levar "milhares de pessoas à falência concreta".

A CAP considerou também que, "nos distritos onde a agricultura tem um peso preponderante, está estipulado um número muito reduzido de postos de abastecimento que não serão suficientes para que os agricultores possam operar as suas máquinas, os seus tratores e as suas alfaias agrícolas, fazerem as suas colheitas ou escoarem os seus produtos."

Onde é possível, então, abastecer?

A rede de emergência de postos de abastecimento, listada a 25 de julho, inclui 374 postos, mais 64 que durante a greve dos motoristas de matérias perigosas de abril e cerca de um décimo dos 3068 postos que em dias normais estão aberto pelo país.

A lista, liderada pelo distrito de Lisboa, seguida do Porto, pode ser consultada aqui. Os postos de abastecimento onde já não será possível obter combustível podem ser encontrados aqui.

A Associação Portuguesa de Empresas Petrolíferas apelou à Entidade Nacional para o Setor Energético para um reforço dos stocks de combustível. O Governo respondeu aos apelos e decretou crise energética para o período em que decorre a greve, depois de ministro da Administração Interna ter revelado que havia "reservas de combustível acumuladas para mais de dois meses".

A 24 de julho, Pedro Nuno dos Santos apelou aos portugueses para que evitassem uma corrida às bombas de gasolina e para que não esperassem pelo início da greve para abastecerem a viatura. Entre mensagens de segurança de que o Governo teria mínimos "bastantes satisfatórios" em caso de greve e declarações de manifesta necessidade de evitar uma paralisação dos motoristas, Pedro Nuno Santos nem sempre foi claro quanto aos possíveis impactos da greve.

Leite, rações e hortofrutícolas podem faltar nos supermercados

A greve dos motoristas pode levar à falta de produtos nos supermercados e nas fábricas. O alerta partiu da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA), que chegou mesmo a pedir ao Governo que considere aplicar serviços mínimos para o setor da alimentação.

Ouvido pela TSF, Pedro Queiroz, diretor geral da FIPA, afirmou que poderia haver dois tipos de constrangimento: a dificuldade no abastecimento de matérias-primas e, por outro lado, problemas na entrega de produtos nos locais de venda.

Na prática, pode haver escassez de alimentos: "Numa primeira fase poderá haver uma escassez imediata dos produtos mais perecíveis, porque são aqueles cuja matéria-prima tem de ser abastecida diariamente às nossas fábricas. Depois, naturalmente se houvesse um prolongamento excessivo dessa suposta greve poderia afetar todos os outros produtos não perecíveis, porque muitas vezes são aqueles em que, para alguns dias, as fábricas ainda podem ter algum armazenamento de matéria-prima."

Quanto aos alimentos que podem faltar nas prateleiras dos supermercados, Pedro Queiroz refere-se a produtos como "leite, rações e hortofrutícolas".

A FIPA aconselha quem vai fazer compras a ter em conta a possibilidade da greve, mas sem alarmismo. "Eu acho que ninguém ganha com corridas desmedidas aos pontos de venda, porque isso causa naturalmente um conjunto de limitações e constrangimentos às próprias pessoas."

Laticínios em risco

A Associação dos Industriais de Laticínios mostrou-se preocupada com o impacto e as consequências da paralisação na recolha, transformação e distribuição do leite no mercado. Os industriais avisaram que não será possível escoar milhões de litros de leite, já que o setor não faz parte dos serviços mínimos, e alertaram para o impacto económico, ambiental e social.

O Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias acusou os patrões e o Governo de esconderem a dimensão da greve que está a caminho, "só se falando dos combustíveis". O impacto da greve de motoristas na distribuição alimentar é "inegável", admitiu também a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED).

Em declarações à TSF, o diretor da APED, Gonçalo Lobo Xavier referiu que, em caso de greve, a capacidade de resposta da Associação seria diminuta. "Se os serviços mínimos forem garantidos, também conseguimos garantir também um abastecimento relativamente normal, mas é imprevisível por quanto tempo. São operações com uma base quase diária que vão ser perturbadas."

No entanto, a ADEP advertiu: "Se houver uma perturbação prolongada é inegável que o abastecimento vai sofrer."

Setor de transportes e Autoeuropa com atividade comprometida

"Esta greve vai afetar todas as tipologias de transporte de todos os âmbitos e para além dos combustíveis vai afetar o abastecimento das grandes superfícies, a indústria e serviços", garantiu o sindicato.

"Vão faltar alimentos e outros bens nos supermercados, a indústria vai sofrer graves perdas e grandes exportadoras como a Autoeuropa correm o risco de parar a laboração."

Esta greve ameaça parar o país em pleno mês de agosto, uma vez que vai afetar todas as tipologias de transporte de todos os âmbitos e não apenas o transporte de matérias perigosas. O abastecimento às grandes superfícies, à indústria e serviços deve ser afetado.

Também se associou à paralisação o Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos do Norte (STRUN).

Medicamentos podem faltar nas prateleiras das farmácias

A 31 de julho, a indústria farmacêutica solicitou ao Governo que incluísse a distribuição de medicamentos nos hospitais e farmácias e a assistência técnica a equipamentos de análises clínica nos serviços mínimos decretados para a greve dos transportes de matérias perigosas.

"Esta medida torna-se premente, sob pena de ser criada uma grave situação de saúde pública, durante o anunciado período de greve dos motoristas de camiões de combustíveis, motivada pela falta de medicamentos nos hospitais e farmácias e pelo risco de comprometer a deslocação de técnicos que garantem a assistência a equipamentos de análises clínicas, em caso de avaria", advertia a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) em comunicado.

Também a Deco se mostrou preocupada com a falta de produtos farmacêuticos, e, no seu manual de sobrevivência à greve , aconselhou os consumidores a obter uma embalagem extra dos medicamentos que estejam próximos do fim do seu prazo de validade.

Turismo no Algarve pode ficar a meio gás

Os hotéis e empreendimentos turísticos do Algarve podem ficar sem gás por causa da greve dos motoristas.

Este mesmo receio foi apresentado numa carta enviada à Região de Turismo do Algarve pela Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), com um pedido para a região durante a paralisação. Elidérico Viegas, o presidente da associação, defendeu, em declarações à TSF, que o plano de serviços mínimos que está a ser definido tem de ter em conta que em agosto a população do Algarve triplica.

"Com 1,3 milhões de pessoas nesta altura somos a segunda região com mais pessoas no país pelo que precisamos de uma atenção especial, como é óbvio, e não apenas medidas que só respondam às necessidades dos 450 mil residentes oficiais, para evitar situações de rutura" que, segundo os empresários, quase se verificaram na última greve em abril.

A associação algarvia teme pelos abastecimentos dos carros que trazem e levam os turistas para casa não apenas pelas estradas que saem do Algarve como dos transportes para saírem da região através do aeroporto.

Quanto ao gás, usado para cozinhas e tomar banho nos hotéis e empreendimentos turísticos, Elidérico Viegas​​​​​​ lembrou que, nesta época, o consumo estará ao máximo e por muito que as empresas se "acautelem" ao fim sete ou dez dias será preciso que existam reabastecimentos para termos a "continuação da prestação do serviço".

"Caso contrário podemos ter situações de rutura graves numa situação de calamidade, nomeadamente se as pessoas não tiverem acesso a bens alimentares, etc.", afirma o representante dos empresários do setor.

Numa entrevista à TSF e ao Dinheiro Vivo, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, garantiu que estão a ser criadas condições para que o gás natural chegue ao Algarve (onde o gás natural não chega por gasoduto) mesmo com a greve dos motoristas, com previsão de locais de abastecimento prioritários.

"Prejuízo desproporcionado a terceiros e ao país"

Parar o país é, para o advogado das cinco empresas que interpuseram uma providência cautelar contra os grevistas, Carlos Barroso, uma greve desproporcional. "A partir momento em que a associação sindical tem asseguradas condições para os seus trabalhadores em 2020, 2021 e 2022 e vem convocar a greve, causa um prejuízo desproporcionado a terceiros e ao país."

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