"Já perdi a esperança." Dois anos após o incêndio em Monchique, casas continuam em cinzas

Gabinete do Ministro das Infraestruturas e da Habitação responde que há processos que "aguardam elementos".

Passaram dois anos e José António Franco mostra o estado em que se encontra a sua casa. "Está igual ou pior", diz desalentado. Este homem de 59 anos ficou com a casa em ruínas num incêndio. Passados nove meses do fogo, a TSF visitou a sua habitação, em reportagem. Hoje, dois anos depois do incêndio que durante sete dias assolou a serra de Monchique, no Algarve, a maioria das casas está ainda em cinzas.

José António, de corpo magro, faz biscates como servente de pedreiro. Não tem outros rendimentos nem bens, a não ser "umas cabras e um porquinho", que engorda para mais tarde vender. Faz questão de percorrer o que resta da casa que herdou dos seus pais e que estes já tinham tido como legado dos avós. Era a sua única habitação.

"Aqui era o quarto dos meus pais, dos meus velhotes, ali estava a televisãozinha, ardeu tudo à vontade", conta. Por todo o lado só há destroços e neste homem já não reside qualquer esperança. "Então em dois anos não puderam começar a fazer nada? Está tudo calado", diz revoltado. "Eles são muito lentinhos", critica. E quem são eles? Perguntamos. "Os das câmaras, os dos governos, é tudo a mesma canalha." E continua as criticas: "Quando é para nós os apoiarmos, andam aí pedindo uma esmola de porta em porta", lembra. Mas agora, diz este habitante do sítio dos Pardieiros, "quando precisamos da ajuda deles, não aparecem", lamenta.

Desde que lhe ardeu a casa, vive em condições precárias, num anexo da habitação, onde antes guardava os animais, num estábulo. Tem luz, mas não há água canalizada.

José Franco é apenas um dos nomes das muitas pessoas que viram as suas casas destruídas pelo fogo há dois anos e que aguardam ainda ajuda do Estado. A lista é longa: Carmina, Diamantino, António Duarte, António Reis. Na volta que a reportagem da TSF deu pela serra de Monchique, só avistou uma casa em que foi reposto o telhado.

José faz questão de mostrar as outras habitações ardidas, lá ao longe nos montes. "Aqui está aquela e logo ali, por baixa daquela branca com chaminés, está outra", aponta.

Conta que há uns meses apareceu alguém a fazer medições à casa, e foi a única coisa que aconteceu até agora. "Veio há tantos meses um topógrafo medir isto e não me disse mais nada." Lembra que lhe pediram papéis e mais papéis sobre o terreno e a casa e que entregou tudo na câmara municipal.

José Franco lamenta chegar aos 59 anos e nem ter uma casa para morar. É a segunda vez que é vítima de incêndios em Monchique. No grande incêndio de 2003, também lhe ardeu o anexo onde tinha todos os animais, que morreram no fogo.

A resiliência das pessoas da Serra de Monchique também tem limites. Quando lhe falamos do futuro, fala com a voz embargada. "É uma tristeza. Só sabe dar o valor quem passa por isto", afirma. "Eu nem dormia, como é que eu podia dormir a pensar na vida que tive. E agora, tenho que começar uma vida de novo, com 59 anos?"

Governo responde que " há processos que aguardam elementos"

Questionado sobre a demora em reconstruir as habitações destruídas pelo incêndio de Monchique, o gabinete do ministro das Infraestruturas e da Habitação responde que a situação está sob responsabilidade do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, através do Programa Porta de Entrada.

Segundo a nota à TSF, dos 52 agregados inicialmente sinalizados, 26 foram excluídos por iniciativa da autarquia de Monchique por não terem enquadramento. As habitações sinistradas tinham seguro ou não eram residência permanente.

Embora não revele quando começará a reconstrução das casas ardidas há dois anos, o mesmo documento esclarece que existem 22 candidaturas para solução permanente, das quais "13 têm o processo concluído e outros nove aguardam elementos", como a conclusão dos projetos e orçamento dos trabalhos de reabilitação.

De acordo com o gabinete do ministro, há igualmente sete processos para alojamento temporário das famílias (arrendamento) que estão concluídos.

Notícia atualizada às 10h55

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