Se ter sido ministro fosse incompatível com BdP "não conseguia emprego em Portugal"

Ministro das Finanças defende que currículo e experiência são "mais-valia incontestável" para ser governador do Banco de Portugal.

Mário Centeno garante que tem condições para liderar o Banco de Portugal e dar à instituição um papel de destaque. Na comissão parlamentar de Finanças, o agora ex-ministro puxou dos galões do percurso profissional e académico para justificar a nomeação.

Após lembrar a licenciatura no Instituto Superior de Economia e Gestão, o doutoramento em Harvard e os últimos anos com a pasta das Finanças, Centeno mostrou-se confiante de que o currículo que construiu "permitirá assegurar de igual modo o cumprimento das responsabilidades deste novo desafio". Trata-se, diz, de um "capital acumulado que constitui uma mais-valia incontestável para o exercício das funções de governador do Banco de Portugal".

"Esta experiência é um ativo que utilizarei para dar ao Banco de Portugal a projeção e a capacidade de influência que merece", realçou, sublinhando que é um "imperativo" colocar a experiência ao "serviço do país", com "sentido de responsabilidade".

O presidente do Eurogrupo acredita que se a experiência adquirida enquanto ministro das Finanças fosse incompatível com o cargo de governador do Banco de Portugal também seria com qualquer outro trabalho na área financeira.

"1664 dias deste trabalho dá-nos uma exposição àquilo que é a realidade financeira e económica do país que se usasse [esse] raciocínio não conseguia encontrar emprego em Portugal nas próximas décadas", reiterou.

Mário Centeno considera que "o Banco de Portugal deve voltar a ser uma instituição de referência em Portugal e na Europa", mas também tornar-se "sinónimo de ação para enfrentar inúmeros desafios do futuro próximo, mas não numa torre de marfim e sim com toda a sociedade portuguesa".

Na comissão, Mário Centeno referiu-se pela primeira vez a Carlos Costa para sublinhar que em quase dois séculos de história, o atual governador é um caso raro de alguém que transitou dos bancos para a supervisão. "Em 170 anos de história apenas dois governadores do BdP tinham relações com a banca anteriores: um que agora termina o mandato e outro temos de recuar mais de 80 anos para o encontrar", lembra.

Centeno "desertou" e não teve "coragem"

Na comissão das Finanças, Duarte Pacheco reiterou a posição "contra" do PSD sobre a nomeação de Mário Centeno para o Banco de Portugal e acusou o ex-ministro de não ter tido "coragem" para assumir as responsabilidades na "crise que aí vinha". "Desertou", apontou o social-democrata.

As decisões e não-decisões sobre o BdP

Mariana Mortágua defendeu que Mário Centeno não é a pessoa certa para o cargo, principalmente pelas decisões que tomou e não tomou sobre o regulador enquanto tinha a pasta das Finanças. "As decisões que tomou enquanto ministro das Finanças e membro do Governo e as decisões que não tomou ao não ter alterado as regras de supervisões porque tocavam em pontos sensíveis dos poderes do Banco de Portugal são as razões pelas quais o Bloco de Esquerda entende que Mário Centeno não deve ser governador do BdP", explicou.

Problema é banca portuguesa ser cada vez menos portuguesa

O PCP vai mais longe e garante que o problema não é o nome, mas sim a política que vai ser posta em prática. "A quase totalidade da banca privada a ser colocada nas mãos de capital estrangeiro, no caso de capital espanhol, o que corresponde a esse plano europeu de concentração bancária e que tornaria Portugal uma mera parte do mercado ibérico bancário", frisou Duarte Alves, questionando Centeno sobre o que vai fazer em relação ao facto de a banca em Portugal ser cada vez menos portuguesa.

"BdP não é o sítio para se ir descansar"

Cecília Meireles atacou o ex-ministro das Finanças, realçando que percebe o "desgaste" que a profissão de ministro possa ter causado, mas deixando claro que "o Banco de Portugal não é o sítio para se ir descansar".

"Conflito de interesses" marcaria mandato

André Silva insiste que nomeação de Centeno para governador do Banco de Portugal "iria fazer com que o mandato fosse marcado por constantes conflitos de interesse".

André Ventura, do Chega, lembra que o ex-ministro tomou decisões que agora teria de gerir como governador. "A questão do Novo Banco, os créditos fiscais do Montepio, o Banif e agora ir decidir como supervisor a avaliação do dossier que o próprio ministro decidiu", frisou.

Uma das coisas "mais bizarras" da política portuguesa

João Cotrim Figueiredo considera que esta audição será "das coisas mais bizarras da política portuguesa". "Das oito forças políticas aqui representadas nenhuma está de acordo com a nomeação, há uma que está e parece que a coisa vai avançar na mesma", apontou o deputado da Iniciativa Liberal.

"A pessoa certa"

Do lado do PS, Fernando Anastácio não surpreendeu na posição do partido e no apoio a Mário Centeno, reforçando que o ex-ministro "é o português e a pessoa certa no atual contexto" para assumir as funções de governador do Banco de Portugal.

Acompanhe a audição ao ex-ministro das Finanças aqui.

Notícia em atualização

Recomendadas

Patrocinado

Apoio de