Teletrabalho no Vale do Sousa. Empresas do mobiliário receiam não cumprir prazos de entregas

O calçado e o mobiliário são setores que começam a sentir os efeitos das medidas restritivas no Vale do Sousa, depois de uma recuperação que vinha a ocorrer nos últimos dois meses.

Nos municípios de Felgueiras, Lousada e Paços de Ferreira está em vigor, desde as 00h00 desta sexta-feira, o dever de permanência no domicílio e o teletrabalho é obrigatório para as funções em que tal seja possível. As medidas extraordinárias adotadas em Conselho de Ministros estão já a afetar a economia local.

Vítor Poças, presidente das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal, explica, em declarações à TSF, que a ausência de dois ou três trabalhadores tem um grande impacto na produção. "Quase todas as empresas neste momento no Vale de Sousa têm uma, duas ou três pessoas em casa, por restrições que resultam da pandemia. [Ter] uma, duas ou três pessoas em casa pode significar parar toda a linha de produção, porque basta uma pessoa faltar para que não haja continuidade na linha de produção."

O representante das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal admite assim quebra de produção e quebras de encomendas do estrangeiro, que se agudizaram nas últimas semanas. "Estamos com dificuldade em cumprir prazos de entrega das encomendas e isso pode vir a gerar conflitos com os clientes e até mesmo indemnizações por não cumprimento dos respetivos prazos", sustenta Vítor Poças.

As encomendas têm diminuído, sobretudo nas últimas semanas, em contraste com os acordos pré-pandemia, que davam garantias para vários meses de trabalho. "Neste momento, as empresas têm encomendas para dois ou três meses de produção, enquanto, antes da pandemia, teríamos sempre cinco ou seis meses, portanto estaríamos sempre mais confortáveis com a distância com que estávamos a planear a nossa produção", constata o presidente das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal, que lamenta a inversão na tendência de recuperação.

"Até agosto, o setor estava a recuperar. Até maio tínhamos caído muito. Depois, em junho, julho e agosto, recuperámos bastante. Estávamos até bastante otimistas." Depois, tudo mudou, e Vítor Poças conta que há empresas que não estão a conseguir cumprir os prazos de produção por falta de mão-de-obra.

O presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal adianta que agora a situação está a tornar-se complexa. As quebras de produção atingem os 20%, quer por falta de recursos humanos quer pela redução de encomendas.

O presidente da AIMMP recorda que este é um setor que está em crescimento há dez anos e mesmo este ano, já com a pandemia, continuava a apresentar resultados satisfatórios.

Globalmente, em maio estava com perdas de 26% nas exportações com maior ênfase na subdivisão da colchoaria e iluminação, onde perdia 30% , enquanto na industria da madeira perdia apenas 14%.

Depois de maio, a situação melhorou e, em agosto, as perdas na indústria de madeira e obras de madeira foram de 13%, enquanto na indústria de mobiliário e decoração as perdas foram de 20%.

O presidente revela ainda que as importações "estranhamente não caíram na mesma proporção das exportações". Em maio as perdas foram de 14% de perdas, enquanto em agosto foram de 13%.

Não fossem os últimos meses, que tanta apreensão geram, e Vítor Poças teria razões para estar feliz e para encher o peito com a contribuição que tem sido dada, lembrando que as exportações no setor das madeiras e do mobiliário cresceram mais de mil milhões de euros nos últimos nove anos. Este será o primeiro ano, desde 2010, em que as exportações não vão crescer.

O futuro do setor no curto prazo vai depender de quando e se vai haver vacina, lembrando Vítor Poças que o inverno está a chegar e os países para onde Portugal exporta estão também a enfrentar dificuldades. Em termos de exportações, no próximo ano, e talvez em 2022, o setor vai trabalhar em baixa, rememorando o presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal o investimento que foi feito para a internacionalização. Agora, pandemia obriga ao cancelamento ou adiamento de feiras e eventos onde uma "troca de um cartão hoje é um negócio amanhã". E o presidente da AIMMP explica que uma feira que não é feita hoje são vendas que não se realizam daqui a seis meses.

Olhando para os próximos meses, Vítor Poças afirma que tudo o que está a acontecer na sequência da pandemia ainda não bateu no fundo em termos de impactos negativos para a economia.

Calçado também sofre

Dos três concelhos do Vale do Sousa, onde estão em vigor medidas mais restritivas, é em Felgueiras que estão concentradas mais empresas de calçado. "Estou em Felgueiras, no terreno, a visitar empresas, e as coisas vão decorrendo com alguma normalidade." Paulo Gonçalves, porta-voz da associação que representa o setor, conta que a "normalidade", inserida num contexto de pandemia, ainda não foi totalmente interrompida, mas sente-se uma grande apreensão no setor por não se saber de que forma a pandemia vai evoluir.

"O setor não está a trabalhar no seu pleno, há alguns trabalhadores que estão por casa por motivos diferentes, alguns mesmo por situações cautelares, mas, para todos os efeitos, há alguma normalidade, se é que podemos considerar normal o que tem acontecido neste ano, no nosso setor e no mundo", sintetiza o representante do setor do calçado português. "Curiosamente, tínhamos a expectativa de que o ano de 2020 fosse o ano de afirmação do calçado português nos mercados externos. Infelizmente isso não vai acontecer."

Com 95% da produção nacional de calçado destinada à exportação para 163 países dos cinco continentes, tudo aponta para uma "quebra do consumo mundial do calçado superior a 22% neste ano", o que equivale a "cinco biliões de pares de sapatos que deixaram de ser comercializados no mundo todo". As contas de Paulo Gonçalves para a escala europeia assinalam que a tendência é ainda mais negativa para os Estados europeus,: "Haverá uma quebra de consumo em 27,5%."

Nos primeiros oito meses do ano, foi registada uma quebra de 16% nas exportações. "Estamos a procurar fazer o nosso trabalho de casa, procurando os clientes estejam onde estiverem, para que, quando o setor e o mundo regressarem à normalidade, o calçado português esteja na linha da frente e esteja capaz de responder às exigências dos mercados", conclui Paulo Gonçalves.

* e Catarina Maldonado Vasconcelos

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