Orçamento suplementar: "Não sei se vou votar a favor, até posso votar contra"

O presidente do PSD tem "vontade de deixar passar" o Orçamento suplementar, mas não exclui nenhum cenário. Sobre futuras crises políticas, "depende". Se "houver razões para isso", Rui Rio não diz nunca.

Com o desassombro que lhe é conhecido, Rui Rio assume que está com "muita vontade de deixar passar" o Orçamento suplementar, mas recusa-se a passar cheques em branco ao Governo. Em entrevista à TSF, o presidente do PSD garante que ainda não sabe se vai "votar a favor", se se abstém e admite, até, poder "votar contra" se lhe aparecer um Orçamento que esteja "nos antípodas" daquilo que entende "como necessário".

No fundo, o líder social-democrata é como São Tomé: quer ver para crer, ainda que deposite toda a fé e ofereça toda a sua "elasticidade" a um Orçamento que seja capaz de dar resposta à crise provocada pela pandemia de Covid-19: "Não vou olhar para o Orçamento com uma lupa a tentar pegar no que está mal e justificar que estou contra."

PSD pode provocar crise política "se entender que há razões"

Mas até quando vai durar esta postura dócil com o Governo? Rui Rio garante que não tem uma data na cabeça, mas assegura que será muito mais exigente com o Orçamento do Estado para 2021.

Antes da pandemia, nos idos de fevereiro, o reeleito presidente do PSD assumia no Congresso do partido que esta legislatura podia não chegar ao fim. Agora que o novo coronavírus trouxe uma crise económica e social, o líder social-democrata assume que as coisas se podem ter complicado para António Costa. Garante que o PSD não está "aqui para provocar crises" políticas, mas também não as exclui: "Pode acontecer", avisa. E pode ser o PSD a dar o pontapé de saída? "Depende se há razões para a provocar", responde sem querer especificar quais são as suas linhas vermelhas.

"Portugal está, neste momento, em austeridade"

A discussão sobre a austeridade é, para o presidente do PSD, "conversa política" que interessa ao "Governo embrulhar agora". Porque, para Rui Rio, a austeridade é já hoje uma realidade. Mas pode piorar? "Pode sempre."

Rio considera "desejável que se segurem os salários ao máximo" e, desejavelmente, devem até ser "aumentados". Mas não conseguindo prever o futuro, prefere não fazer declarações muito definitivas. Do lado da receita, critica a política seguida pelo primeiro-ministro nos últimos anos e avisa que a margem para os aumentar está hoje "muito esgotada".

Prefere o investimento privado ao investimento público, mas admite que vai ser preciso "um 'mix' das duas coisas" e aponta a ferrovia como um dos setores prioritários. TGV? Não. "O TGV clássico, como existe em França ou em Espanha, sempre fomos contra", lembra, justificando com o elevado investimento que essas obras implicam. Mas Rui Rio regressa ao programa eleitoral do partido nas últimas legislativas para defender a "alta velocidade" como um "investimento muito mais reduzido e que pode melhorar substancialmente as principais ligações entre Lisboa e Porto".

Estado deve entrar no capital da TAP

É um dos problemas mais "bicudos" que o atual Executivo do PS tem para resolver. A TAP, companhia aérea de bandeira, precisa de uma injeção de liquidez urgente para poder sobreviver a esta crise e Rui Rio não discorda dessa ajuda. Mas com condições.

À TSF, o presidente do PSD avisa que a TAP só deve ser ajudada em determinadas condições: "Se tiver um plano de negócios que garanta que o dinheiro que vai ser lá metido não é para tapar um buraco conjunturalmente e daqui a seis meses não temos de lá meter mais." Caso contrário, Rui Rio avisa que a TAP não pode transformar-se numa espécie de "banco bom", como aconteceu com o BES, com os resultados que estão à vista.

O líder social-democrata defende que, se os acionistas privados não estiverem em condições de acompanhar o Estado, "esse dinheiro altera naturalmente as condições" e, em vez de 50%, o Estado deve ter "60, 65 ou 70%" do capital e, "à primeira oportunidade, fazer a privatização que já devia ter sido feita".

"É aconselhável" que Centeno não seja governador

A "intuição" de Rio diz-lhe que em julho haverá uma remodelação governamental. E que Mário Centeno estará de saída do Governo. Sobretudo, explica, depois "daquela encenação em São Bento" que foi a prova evidente de que "não está estruturalmente tudo bem".

Mais difícil para o presidente do PSD é concordar com Carlos Costa, governador do Banco de Portugal em fim de mandato, que, numa entrevista ao Expresso, defendeu que Centeno daria um ótimo governador. "É muito difícil eu concordar com o dr. Carlos Costa, seja no que for", responde Rio. O líder social-democrata não vê nenhum impedimento legal na transição de Centeno das Finanças para o banco central, mas encontra vários constrangimentos de outra natureza: "Do ponto de vista político é aconselhável que não seja" governador, responde de imediato, acrescentando que o PSD preferia "que fosse outra pessoa". E é isso que pretende dizer a António Costa, quando e se o primeiro-ministro lhe colocar a questão.

PSD apoiará Marcelo e não dará liberdade de voto

Não esconde que muitos militantes do PSD "gostariam que houvesse uma maior demarcação" de Marcelo Rebelo de Sousa em relação ao Governo. Mas não se arrisca a assinar por baixo tamanho sentimento e nem sequer consegue escolher o pior momento do Presidente da República. Rio limita-se a dizer que "nem sempre concordou" com o atual chefe de Estado, mas lembra que, "enquanto partido", o PSD não pode "exigir ao Presidente da República aquilo que dá mais jeito".

Estes ecos de insatisfação com Marcelo chegam também da Madeira, onde Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional, pondera, neste momento, uma candidatura. Rui Rio arruma praticamente o assunto: "Numa eleição tão importante, um partido tão importante como o PSD não ter posição e dar liberdade de voto é muito difícil de acontecer", esclarece.

O que significa que Rio vai ter de tomar uma decisão e, entre Miguel Albuquerque e Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente do PSD não tem dúvidas: "o mais provável" é apoiar Marcelo, "não vale a pena estar com coisas". Quando? "No dia a seguir a ele apresentar a candidatura, o PSD terá que apresentar uma posição pública sobre essa candidatura."

"Não há" coligações com o Chega nas autárquicas

Já tem nomes na cabeça para Lisboa e Porto, são "tendencialmente militantes" do partido, mas também não o choca se forem independentes. Rui Rio quer ter a última palavra na escolha dos candidatos aos dois municípios mais importantes do país, "ouvindo as estruturas locais", naturalmente.

Avisa que os candidatos às autárquicas de 2021 não se devem apresentar demasiado cedo e sobre coligações considera que "não haverá espaço" para casamentos com o Chega. Mais do que uma orientação nacional, o presidente do PSD refere que o partido liderado por André Ventura não tem "implantação local" que justifique pensar no assunto. Mas se tiver de dar uma "ordem" nacional, "não há" coligações com este partido político.

Rui Rio não tem a certeza se André Ventura é racista ou se "o que ele diz é mais por tática política do que por estar convencido do que está a dizer". O líder do PSD encontra muito "exagero" e "marketing político" no discurso do presidente do Chega "para conquistar um nicho de mercado".

Sobre a sondagem da TSF e do JN que coloca este partido como o terceiro com mais intenções de voto, Rio desconfia e diz que não acredita. Admite que o Chega esteja a roubar algum eleitorado "ao CDS e ao PSD", mas considera que é na abstenção que poderá ir buscar mais votos.

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