"Neste momento, há reprodução todo o ano. A vespa asiática é um problema de saúde pública"

Vespa velutina lhe chamam, mas ela não vem com pés de veludo. Manuel Gonçalves, presidente da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal, entrevistado por Fernando Alves, na Manhã TSF, garante que a proliferação desta espécie é já um problema de saúde pública, e pede apoios compensatórios, bem como um programa de efetivo combate à invasora.

Quando apareceu em Portugal, em 2011, a vespa asiática andava a pairar na zona de Viana do Castelo, na orla marítima. Manuel Gonçalves, presidente da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP), lamenta que nada tenha sido feito. "Os apicultores precisavam de alguém que tomasse uma decisão. Eu sei que é difícil... Uma espécie invasora é muito difícil de controlar. Nós achamos que, quando ela apareceu, em 2011, deveria ter sido de imediato... Havia falta de legislação, a Comissão Europeia não tinha decretado essa espécie como espécie invasora."

Passaram 11 anos, e a situação não apresenta melhorias, pelo contrário. Numa entrevista na Manhã TSF, conduzida por Fernando Alves, o responsável da FNAP reivindica mais esforços para evitar burocracias e para combater os avanços sucessivos da espécie. "Nós temos de entender que a vespa é um problema de saúde pública. O apicultor é o prejudicado, tem uma perda anual na ordem dos 15%, porque tem de manter os seus efetivos. As vespas caem em cima das colmeias, e ele tem de alimentar, para ter sempre reprodução, para ter sempre animais."

A FNAP, constituída por 45 associações, cooperativas e agrupamentos de produtores de todas as regiões do país, representa 7552 apicultores, cujas explorações detêm 610.943 colmeias, ou seja, 68% das explorações e 85% das 719.718 colmeias assinaladas no mapa do país. De acordo com Manuel Gonçalves, "os apicultores vêm transmitindo que cada vez mais, de ano para ano, e conforme os invernos vêm com menos frio, mais quentes, a reprodução é muito maior".

No início, à chegada a Portugal, havia uma "paragem durante dois, três meses de inverno" que permitia um impacto menor nas estações seguintes. "Neste momento, há todo o ano a reprodução. É muito preocupante."

A Comissão Nacional de Acompanhamento, que inclui o ICNF, todas as autoridades locais e a Proteção Civil, conseguiu que um guia fosse aprovado por todos, para que cada um soubesse o que fazer, mas foi infrutífero, conta o presidente da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal, que salienta que cada vez menos o apicultor pode recolher o néctar e ter o fruto disso.

"Neste momento, há programas de candidatura. Achamos que há um excessivo controlo, uma monitorização excessiva. Uma pessoa quando está desesperada tenta fazer tudo. Não o apicultor, o apicultor apenas recebe culpas de tudo." Na perspetiva de Manuel Gonçalves, o maior problema não é a falta de dinheiro, mas o desrespeito pelas medidas já aprovadas e compiladas num guia a que as autoridades têm acesso. "Temos reivindicado que o apicultor deve ser ajudado. Como resposta, recebemos a capacidade de um programa que é pequenino, que é um programa setorial para a apicultura. Recebemos como ajuda a compra de armadilhas caríssimas, e com comparticipação da nossa parte, para, mais uma vez, fazer a monitorização."

"Em nome dos apicultores, temos reclamado apoios compensatórios, só que a morosidade é grande, porque também temos de entender: neste momento, há um projeto, um programa operacional que tem três anos. É óbvio que a pandemia atrasou isto, mas, se houvesse resultado - porque é um programa nacional que saiu fora do centro de competências da apicultura e biodiversidade." O responsável da FNAP esclarece que, conforme ditam as normas, os estudos devem ser trabalhados no âmbito desse centro de competências.

A FNAP e as organizações de apicultores suas associadas têm verificado, nos últimos cinco anos, uma redução da produtividade das explorações situadas nas regiões invadidas, com particular incidência no Litoral, acima do Tejo. No Porto é onde existem mais ninhos destruídos, "porque a dinâmica da Área Metropolitana provoca isso", destaca Manuel Gonçalves. Viana do Castelo e Braga são as zonas do país em que a "pressão é maior", mas Aveiro surge em seguida. "O interior, em distritos como Bragança, pelas condições climatéricas, não tem tanta pressão. Como no Sul, talvez pelo excessivo calor, ela também não se dá, não se consegue adaptar tão bem."

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