Nunca pensou ser voluntário até um cancro lhe trocar as voltas

Fernando Lomba foi dirigente na administração tributária e nunca imaginou fazer voluntariado mas hoje dá aulas de música a idosos no Centro Comunitário de Telheiras.

Fernando Lomba, 73 anos, faz voluntariado no Centro Comunitário de Telheiras em Lisboa desde julho do ano passado. Todas as quintas-feiras dá aulas de música e ensina cantigas, daquelas "que toda a gente conhece".

Nem sempre foi claro que seria a música a fazer ponte para o voluntariado porque sentia que não tinha jeito para abordar pessoas. "Eu não tenho soluções para as pessoas", explica.

Juntamente com a diretora do centro, chegaram à conclusão que a experiência que Fernando teve numa banda quando ainda andava a estudar seria uma boa forma de envolver os utentes. "Como sei música então posso ser útil."

Mas rapidamente percebeu que ser voluntário passa por "um estado de espírito, com diversas valências, mas há duas janelas de oportunidade que são fundamentais: um estado de espírito de apoiar e de receber".

Hoje, Fernando Lomba não se imagina sem as quintas-feiras de visita ao centro mas confessa que nunca pensou ser voluntário como resultado do percurso profissional que teve. "Qualquer prestação de serviço que eu fazia, eu era remunerado. Foi assim no Ministério das Finanças, onde fui dirigente, e depois em 12 anos de consultoria internacional até que um dia tenho um problema de saúde e, a partir daí, foi uma revolução."

Fernando parou de trabalhar devido a um cancro e depois de dois anos de luta contra a doença, surgiu a possibilidade de ser voluntário da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. "Eu acho que o universo costuma pôr as coisas no lugar e a mim pôs-me no lugar. Julgas que duras eternamente? Então vá, levas um cancro. Fez-me aprender que eu tenho de dar aos outros um bocado do que recebi."

Cantar para contrariar o envelhecimento

Começou a olhar para o voluntariado de forma diferente e agora ensina cantigas. "Tenho aqui pessoas entre os 59 até aos 95 anos. Umas sentadas, outras de pé, outras de cadeiras de rodas. Cada uma é uma entidade própria."

Mais do que cantar para entreter, Fernando Lomba quer permitir que os utentes do Centro Comunitário de Telheiras possam envelhecer de uma forma ativa e contrariar alguns obstáculos da idade, através de exercício físico com coreografias para as cantigas e exercitando a memória, decorando as letras. "Isto parecem coisas muito simples, mas não são."

Fernando Lomba faz parte de uma equipa de 14 pessoas que fazem voluntariado no Centro Comunitário de Telheiras que conta com 75 utentes.

A diretora, Teresa Pinho, considera que o trabalho que fazem é essencial. "Nós não poderíamos dar a resposta que damos se não tivéssemos voluntários."

A diretora do centro explica que os voluntários permitem uma diversidade de aulas que os técnicos que lá trabalham não poderiam proporcionar. "Ioga, meditação, chi kung, expressão plástica, iniciação à informática, iniciação ao inglês", enuncia Teresa Pinho.

Além de não serem apenas "atividades para entreter", Teresa Pinho sublinha que permite a entrada no centro de "outro tipo de pessoas" que ajudam a que o centro seja um espaço aberto, dinâmico e disponível para a comunidade. "Quando nós queremos um espaço assim, as respostas que os voluntários nos permitem dar, ajudam-nos imenso".

Além destes voluntários mais especializados, a equipa do centro conta também com voluntários mais generalistas. "A função deles é mais conversar com as pessoas, passear, acompanhá-las a eventos, acompanhá-los a médicos, ajudá-las em determinadas diligências e estes têm uma relação mais individualizada e mais privilegiada e têm uma disponibilidade que nós, como equipa, não temos", explica Teresa Pinho.

"Essas pessoas são sábias"

Fernando Lomba, que vive em Telheiras, não teve dúvidas em escolher o centro comunitário para fazer voluntariado. Confessa que tem "uma admiração especial" pelos técnicos do centro. "É preciso ter um perfil muito especial para trabalhar nesta área, na área social. Eu não tinha. A minha área é muito fácil. É fácil brincar. Agora estar aqui todos os dias, arranjar passatempos inteligentes é difícil."

Vai aprendendo e não só com os funcionários, também com os utentes. "Este entendimento do que é a velhice, dos valores que a velhice tem e da minha postura perante pessoas nesta idade mudou completamente. Pensava que estas pessoas estavam completamente ultrapassadas, estavam velhas em pensar e em fazer. Hoje tenho mais a perceção que essas pessoas são sábias."

Fernando Lomba não falta a um dia de voluntariado e, desde que aprendeu que é preciso retribuir as batalhas ganhas ao longo da vida, nunca mais deixou de agradecer.

"Perante o meu sucesso pessoal, profissional, quer em termos de dirigente tributário, quer em termos de consultoria, eu tenho a obrigação de retribuir alguma coisa aos outros".

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