"Pandemia pode deixar trauma coletivo." Um neurocientista português na linha da frente nos EUA
Entrevista TSF

"Pandemia pode deixar trauma coletivo." Um neurocientista português na linha da frente nos EUA

Rui Costa lidera o Instituto do Cérebro da Universidade de Columbia. Há várias semanas em confinamento, é a partir de casa, em Nova Iorque, que o neurocientista português coordena os esforços de várias equipas na investigação contra a Covid-19. E foi também a partir de casa que falou com a TSF.

O trabalho destas equipas vai desde o desenvolvimento de equipamentos de proteção individual até à pesquisa com anticorpos que pode levar à descoberta de um tratamento ou, no limite, de uma vacina. Mas Rui Costa alerta que a vacina pode nunca chegar e, por isso, as terapias com anticorpos são uma alternativa. "Há que trabalhar em todas as frentes", diz.

Rui Costa garante que se mantém a par do que vai acontecendo em Portugal e sublinha que o elevado número de testes feitos no país é motivo de orgulho científico, mas avisa que sem testes virológicos e serológicos vai ser difícil controlar o problema.

O neurocientista deixa ainda o alerta para as marcas que os dias que vivemos podem deixar no nosso cérebro e para a forma como podem afetar os nossos comportamentos no futuro. Rui Costa salienta, no entanto, a capacidade de adaptação do cérebro humano e espera "que isto leve a uma sociedade ainda melhor".

Como e que está a situação em Nova Iorque?

As coisas estão relativamente bem. Têm estado num plateau. Muita testagem está a passar-se para a fase a seguir, que é tentar que a testagem serológica e virológica seja ainda maior e haver softwares de contact tracing, e como conseguir que as pessoas trabalhem com pouco risco, que alguns serviços, principalmente da investigação, voltem a funcionar.

Continua a ser feita ciência, mesmo em tempo de confinamento?

Sim. À distância, mas todos os dias continuamos. Eu estou num papel mais de coordenador, porque sou diretor do Instituto Zuckerman, que se dedica maioritariamente ao estudo do cérebro, mas também tenho estado a coordenar coisas na universidade. Temos dedicado alguns esforços a tentar combater a Covid-19 e também investigar novas terapias e como é que funcionam.

Em que ponto estão com a investigação?

Os primeiros passos foram de muita urgência, muito imediatos. O que é que era preciso? Era preciso proteção para os cuidadores de saúde. Uma das primeiras coisas foi desenhar um novo tipo de máscaras e viseiras que se podem produzir aos milhões e desenhar caixas de intubação para as Unidades de Cuidados Intensivos para que os médicos pudessem fazer a intubação em segurança. Porque muitos começaram logo a ficar contaminados, era o sítio onde havia mais contaminação. Essa foi a fase mais aguda. Nas primeiras duas ou três semanas, o nosso trabalho desenvolveu-se muito à volta disso.

Depois, quase em paralelo, passou-se a uma fase mais lenta.: caracterizar os anticorpos. Nós estamos a fazer a caracterização da estrutura molecular dos anticorpos para perceber qual é a estrutura dos anticorpos neutralizantes, aqueles que dão imunidade, e, assim, tentar contribuir para a investigação de vacinas, e não só.

Tentamos perceber quais os epítopos, quais as partes do agente do vírus, que proteínas é que podem produzir uma imunidade efetiva e terapias de anticorpos. Porque há várias empresas - por exemplo, a ReGenera - que estão a fazer cocktails de anticorpos para tratar a doença.

Ainda estamos longe da vacina?

A vacina ainda está longe. Quer dizer, está longe para a nossa urgência. Doze a dezoito meses, se funcionar. Claro que vamos ter resultados antes e veremos se funciona ou não. Também não vai ser produzida massivamente para toda a gente, mas esperemos que, antes disso, já possamos saber se há indicações de que vai ser efetiva ou não.

Mas é preciso avisar que muitas vezes se demorou anos para ter uma vacina e outras em que não temos vacina, mas temos terapias. Neste momento, é preciso trabalhar em todas as direções.

Tem acompanhado a situação em Portugal?

Sim, quase todos os dias. Sou colaborador da Fundação Champalimaud e tenho estado a falar com os meus colegas, a trocar ideias. Em Portugal, a testagem per capita é a mais alta da Europa, tirando a Islândia, que é a maior do mundo. Gostava que fosse mais, mas estou muito satisfeito. Do ponto de vista científico, acho que devemos estar relativamente contentes comparando Portugal com outros países da Europa.

Se considerarmos só Nova Iorque, Nova Iorque testou mais que Portugal. Mas é um estado e foi o epicentro. Se considerarmos os outros países europeus e mesmo os Estados Unidos, o número de testes por habitante em Portugal é claramente boa notícia.

Os testes serológicos são fundamentais para pensarmos em voltar às nossas rotinas?

Serológicos e virológicos, por enquanto, também. Porque os serológicos dizem-nos quem já teve [a infeção]. Ainda não sabemos se têm imunidade ou não, mas eu acho que é provável que as pessoas que já foram infetadas tenham alguma imunidade.

Os testes têm sido in vitro, mas, nesta altura, é importante saber quem já teve o vírus. A sorologia só nos diz o que é que aconteceu há duas semanas ou três. Se alguém é negativo no sorológico pode ter o vírus ativo ou estar assintomático neste momento e a transmitir. Por isso é que nós defendemos ambos os testes.

Um teste de virologia, de diagnóstico frequente, e o teste serológico. Considero que vão ser essenciais. Tenho estado muito ocupado com estes planeamentos.

A neurociência já sabe alguma coisa dos impactos biológicos que o "vírus" pode ter no cérebro?

Tem havido muito debate sobre isso porque um dos sintomas que acontece mais cedo é perda de cheiro e de sabor muito aguda. Pensou-se que pudesse entrar pelos neurónios do nosso nariz. Só que esses neurónios não expressam o recetor do vírus. Tem havido alguns debates: uma [hipótese] é que [o vírus] pode entrar pelo epitélio do nariz e, depois, contaminar diretamente os neurónios ou impedir a função.

Outros, baseados noutros coronavírus, dizem que pode haver infeção também dos neurónios no sistema autónomo, nos outros neurónios que enervam o nariz e que poderiam estar a ser infetados, [o vírus] iria para a zona do tronco cerebral, que é uma zona que controla muita das nossas respostas inflamatórias, imunitárias, mas também, por exemplo, a própria respiração.

Tem havido algum debate. Mas ainda não há dados suficientes porque teriam de ser obtidos em autopsia e, como pode imaginar, é complicado obter as permissões legais.

Mas quer o facto de haver anosmia - isto é, de repente a pessoa não conseguir cheirar - quer a prostração excessiva que o vírus causa - muitas vezes, a pessoa não se consegue mexer normalmente, não tem energia, motivação - têm levado à hipótese de que há infeção dos neurónios, como se provou noutros coronavírus mais antigos.

Há relatos onde pessoas descrevem dormir pior durante o confinamento. Estas alterações aos padrões do sono prejudicam a saúde mental?

Vou dizer uma coisa que eu acho que já, felizmente, passou a ser de senso comum: o sono é das coisas mais afetadas quando algo na nossa saúde não está bem, e problemas de sono são uns dos primeiros sintomas da maioria das doenças e dos problemas mentais e neurodegenerativos.

É óbvio que se há maior ansiedade, se há menos atividade física, se há stress, se há medo, as pessoas não vão dormir bem. E também é obvio que se as pessoas não dormirem bem durante muito tempo, há propensão para certos problemas mentais e outros problemas de saúde que não são mentais - problemas metabólicos e problemas neurodegenerativos vão ser maiores.

Em termos de saúde pública, por agora, estamos a lidar com as coisas agudas, mas a começar a falar às pessoas da fisiologia, do metabolismo, do bem-estar cerebral, do dormir bem, do criar rotinas, do não tentar fazer mais do que consegue... A dizer às pessoas que se sentem sobrecarregadas que é normal nesta situação. Acalmem-se e façam o que puderem e já é bom. Não é preciso mais. Basta isso, tentem só sentir-se bem.

Dentro de poucos anos, podemos assistir ao aumento das doenças neurodegenerativas? Ou ainda é cedo fazer essa avaliação?

É cedo, ainda não sabemos ao certo, mas há algumas pistas. Por causa do sono não sabemos, ainda, mas por causa da infeção, há relatos noutras doenças, por exemplo Influenza e outras coisas, de que realmente pode haver um efeito décadas mais tarde, porque a inflamação causa isso. Eu penso quem vai ser um problema a seguir. Nesta altura, eu não queria instigar medo, mas acho que devíamos olhar para isso cientificamente e tentar perceber os riscos.

Tem vindo a estudar, na última década, o comportamento humano a partir da neurociência da ação. Diante de tanto estímulo externo, que impactos esta situação que vivemos pode ter no nosso comportamento e nos nossos estados emocionais?

Há muitos aspetos. Nos estados emocionais eu acho que já se está a verificar. Há o aspeto agudo do qual vou dar apenas dois exemplos, mas claro que há muito mais. Há o aspeto do medo. O indivíduo ter medo de ser infetado ou de que alguém na família seja infetado. Como sabemos, esse medo afeta muitas das nossas ações e limita-nos.

Outro aspeto é uma ansiedade causada não pelo medo, necessariamente, mas, pela incerteza. O facto de não sabermos causa muita ansiedade. Eu não sei se isto faz sentido no senso comum, mas, imagine, não saber se isto vai melhorar em junho ou em setembro causa mais ansiedade do que se soubéssemos com certeza.

O nosso cérebro quer informação e quer sempre ter certezas e construir um modelo de como o mundo funciona. Nós temos objetivos, temos os nossos "nortes", que nos guiam, temos o nosso chão debaixo da terra. Temos aquilo em que acreditamos e tentamos construir as nossas certezas.

De repente, quando fica tudo incerto, muitas pessoas não lidam bem com isso. Do ponto de vista agudo, quer o medo quer a ansiedade, já estão a modificar o comportamento.

Para tornar as coisas ainda mais complexas, estas emoções vão variando, porque há tanta informação a chegar e nós tentamos, realmente, controlar os estados emocionais. É normal que, às vezes, uma pessoa se sinta muito bem e controlado de manhã e à tarde esteja muito ansioso e desesperado e, depois, controla outra vez, ou que tenha fases de esperança, fases de desespero e já está tudo a ser modificado.

Mas há aqui um outro aspeto crónico que eu queria chamar à atenção, que eu acho que ainda não tem sido tão explorado: isto vai causar trauma. Eu não estou a dizer trauma só das pessoas que estiveram doentes e recuperaram, ou daqueles que tiveram alguém próximo doente, ou que faleceu. Há um trauma coletivo.

Imagine, as crianças estão todas em casa durante meses, numa fase crítica, e têm medo de uma coisa que não percebem completamente e veem ansiedade nos adultos. Tal como as guerras causam trauma, ou como os refugiados sempre têm trauma. Pessoas que vivem em condições desfavoráveis, de pobreza maior, casos em que as pessoas não conseguem que o salário chegue ao fim do mês e muitas vezes não têm sequer a certeza de sobreviver.

Isto vai causar um trauma coletivo que é subtil. Mas é provável que haja marcas na nossa memória emocional que fiquem durante muitos anos. Mesmo para crianças que são muito pequeninas, isso é implícito. A pessoa pode, às vezes, nem saber explicar certas coisas, mas, isto, biologicamente e emocionalmente, vai deixar marcas que vão durar muitos anos.

O excesso de informação pode levar a uma generalização do medo?

É verdade, o excesso de informação pode fazer crescer o medo. Mas, por outro lado, o não haver informação pode causar aquela ansiedade da incerteza de que falei. É muito complexo percebermos onde é que nos devemos situar. Muitos cientistas portugueses com que falei e alguns aqui, quase que fizemos um pacto de falar, mas não falar demasiado. Se um diz uma coisa, não vai outro dizer outra. A não ser que haja um grande perigo para a saúde pública. Vamos deixar os experts falar, vamos deixar os encarregados da saúde pública falar e, se houver ajustamentos, vamos dando um toque e, de vez em quando, falar para informar a população, mas tentar não estar sempre a bombardear, ou a pôr dúvidas em todas as medidas pequeninas, porque é mais importante ter um comportamento coletivo,

Por exemplo, em Portugal tem sido exemplar, uniforme. É mais importante, como população, comportarmo-nos quase como um organismo, onde cada pessoa seria uma célula, do que tentarmos ser heróis.

Temos estado nesse balanço entre dar informação suficiente para que as pessoas percebam o que é que se sabe e não sabe. Às vezes, dizer "não sabemos isto" é muito importante, porque a pessoa sabe onde é que está a fronteira do conhecimento.

O cérebro serve-se da memória para construir as aprendizagens e criar rotinas que lhe facilitam o quotidiano. Se não temos memória, pessoal e coletiva, de uma situação semelhante, como é que vamos aprender lidar com os novos comportamentos?

O ser humano e o cérebro humano são muito interessantes. Nós falamos muito na aprendizagem por tentativa e erro. E nós vemos, por exemplo, agora nestas manifestações dos Estados Unidos, dizer-se "vamos abrir e começar a ir" - é isso, é tentativa e erro. Vamos tentar e, depois, se não funcionar, voltamos atrás, que é o que nós fazemos normalmente quando aprendemos individualmente.

O cérebro humano consegue aprender coisas que nunca viveu, mas que outros viveram. Como é que eu explico isto? Por exemplo, pelo facto de nós vermos o que acontece em Itália, podemos aprender, fazer um modelo de qual é o comportamento ideal e aprender sem nunca ter experimentado

Nós temos História e surgiram muitos relatos, por exemplo, da febre pneumónica, da febre espanhola. O que é que é isso? Isso é uma memória coletiva que temos, que não experimentámos, mas que está na História. Nós conseguimos fazer uma generalização, uma transposição de outras experiências para esta.

Se nós fossemos uma espécie animal que não tivesse esta capacidade de generalizar e fazer modelos baseados na experiência de outros... Imagine os animais a lidarem com esta situação. Eles poderiam, vendo outro animal com medo ou a morrer, evitar uma certa zona, mas, não iam perceber que há um século houve uma situação parecida, quais foram os comportamentos que funcionaram e quais não resultaram, tentando replicar esses comportamentos.

É verdade que construir rotinas e hábitos é um processo muito demorado. Por exemplo, nós todos, agora, dizemos: "Usa máscara, lava logo as mãos, quando tosses cobre com o cotovelo, não cumprimentes, não abraces...". E nós apreendemos isso do ponto de vista explícito, em tom declarativo. Mas ainda não é um hábito.

Do ponto de vista do cérebro, um hábito demora muito tempo a entrar na rotina e é um processo cognitivo. Eu não sei se lhe acontece a si, mas, muitas vezes fazemos algo e depois pensamos: "Eh pá, não devia ter feito isto!". Cognitivamente, lavamos as mãos, mas são coisas que nós já aprendemos, como rotina, quando éramos crianças. Nós já nem pensamos. Fazemos sempre aquilo.

Parece-me que estamos a conseguir adaptar-nos usando essa capacidade que o nosso cérebro tem de, de uma forma explícita declarativa, adquirir a informação baseado no que outros estão a viver e no que a nossa espécie e outras espécies viveram no passado e ter a resposta correta. Mas isso não é automático, não é uma rotina, a pessoa tem de pensar, tem de fazer aquilo, digamos, explicitamente. Esta e uma nova fase e só ao fim de muito tempo é que teremos estas rotinas. Eu queria dar aqui o exemplo do que aconteceu no mundo inteiro com a SIDA.

No início, a SIDA era terrível e criou pânico em muitas das sociedades, das cidades, dos bairros, onde a incidência foi muito alta. Não se sabia bem que vírus era, não havia cura, não há vacina, não se conseguia vacina. Ano após ano, falava-se: "Vamos testar massivamente, toda a gente". Mas depois isso não se conseguiu fazer. E, de repente, houve uma mudança de comportamento grande.

Imagine que, no início dos anos 80, sem ter havido SIDA, alguém teria dito: "Haverá preservativos em todas as casas de banho de aeroportos, à venda em todos os supermercados, bombas de gasolina, nas estações de comboio e haverá máquinas de vender ou dispensar preservativos e vamos fazer uma campanha mundial em que toda a gente sabe que tem de usar preservativos". Isto, talvez, fosse muito difícil de acreditar. Se escrevêssemos isso, imagine como iria reagir a mente pré-epidemia da SIDA. Agora, é normal. Agora as pessoas usam o preservativo, não só porque pensam que podem ter SIDA, mas porque sabem que há que proteger-se de doenças sexualmente transmissíveis. Também aconteceu quando percebemos os perigos do tabaco com o pulmão.

Vão existir mudanças crónicas que acabarão por ficar, que não têm que ver diretamente com este vírus. Nós tivemos o SARS, tivemos o MERS, tivemos muitos deste tipo de vírus transmitidos por via respiratória. Repare na diferença cultural no uso de máscaras na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos. Na Ásia, nos últimos dez anos, as pessoas já começam a usar preventivamente. E ninguém anda a apertar mãos na altura da gripe. Automaticamente, passou a ser uma rotina da sociedade. Eu acho que isso vai acontecer com esta situação.

Podemos pensar esperar que se crie "inteligência coletiva" que permita uma resposta sincronizada?

Sim, acho que sim. É difícil, mas há estudos noutras áreas que dizem que sim, estudos experimentais da psicologia e da ciência cognitiva. Em relação, especificamente, ao coronavírus, ainda não há esses estudos. Mas imagine, quando toda a gente sai às varandas em Itália para fazer aqueles concertos ou quando todos vamos aplaudir de agradecimento - há um movimento de agradecimento aos cuidadores de saúde e isso já é inteligência coletiva.

Depois, há um certo conforto emocional no facto de percebermos que os outros estão na mesma situação. "Eu não estou nisto sozinho. Os outros, das outras varandas, também estão, não é?" Portanto, essa inteligência coletiva, estado emocional coletivo, pode ter aspetos muito bons. Mas também pode ter aspetos de pânico. Por exemplo, o desespero no caso da cloroquina, que muitas pessoas começaram a tomar, sem saberem o que é, sem haver prescrição médica, sem estar num hospital. Isso é complexo. Nem tudo é bom na inteligência coletiva. Pode haver um estado de pânico coletivo que, mesmo depois de já não haver motivo aparente, se mantenha. Imagine que chegávamos a uma situação em que se dizia: "É seguro sair. Fizemos testes e, cientificamente, o risco é baixo." Vai haver muita gente que ainda não vai acreditar nisso.

Essa mudança está associada à quebra de rotinas e à perda de estímulos externos durante o confinamento?

Sim, está, com certeza. Nós dependermos muito de estados motivacionais e de estímulos. O nosso cérebro está constantemente a processar o mundo. Quando somos postos em câmaras de privação sensorial, nós alucinamos. O nosso cérebro cria novos estímulos e há um certo perigo. Nesta altura, talvez seja um bocadinho diferente do que poderia ter sido noutras alturas. Hoje há internet, televisão e telefones. Em termos de estímulos, é um confinamento muito diferente do que seria antes de haver isto, porque aí a nossa realidade seria muito mais privada.

Mas há um outro aspeto que nós, se calhar, falamos menos vezes, que é o aspeto das nossas ações. Nós precisamos de nos mexer, de criar, de andar, de causar diferença no mundo, não é? E o nosso movimento, o facto de nós sermos agentes, é muito importante. Nós dizemos, por exemplo, que nas crianças é muito importante brincar, ter objetos, interagir. Mas mesmo para nós, adultos, é importante ter agência. Eu mexo os meus pés e mudo de lugar. Eu posso ir comprar um café e beber um café. Eu posso decidir, eu posso mudar o mundo, eu tenho a sensação de que sou um agente, que mexo constantemente. Parte do nosso enriquecimento não é só sensorial, mas é o facto de nós podermos fazer coisas motoras. Isso preocupa-me muito, porque há um sedentarismo muito grande e ainda não temos formas muito interessantes de fazer isso de uma forma virtual. Do ponto de vista sensorial também ainda não é ideal. E isso preocupa-me. Acho que se esta situação continuasse por muito tempo, poderia ainda ser mais problemático.

Mas, ainda assim, o isolamento pode ter consequências na nossa saúde mental?

Sim, já começamos a ver isso. Pode haver alturas de depressão, de frustração, de raiva. Pode haver problemas de interação social entre as pessoas que estão confinadas. Pode haver pessoas que têm mais tendência para ter manias, pode haver isto que já falamos de privação de sono e levar a outros problemas metabólicos. Mas o cérebro e o ser humano são muito, muito adaptáveis. Por exemplo, seria descabido pensar, há muitos anos, que podíamos mandar uma pessoa para o espaço um ano, em isolamento. Mas a verdade é que as pessoas conseguiram. Claro que há efeitos disso, tanto a médio prazo como mesmo a longo prazo, mesmo décadas depois. Os efeitos agudos, penso que todos conhecemos. Há muita gente que está ansiosa, que está a precisar de falar, e acho que vamos ter de fazer muito apoio e aconselhamento emocional em todo o mundo.

As alterações ao comportamento vão variar de acordo com a cultura em que aconteçam?

Sim, é muito diferente. Por exemplo - e sem querer caricaturar -, eu vivi na Suécia e vivi em Portugal, vivi em Espanha, vivi nos Estados Unidos. A resposta da Suécia foi muito diferente. Eles não fizeram uma quarentena como Portugal, indicam que deve haver distanciamento, e têm tido uma maior progressão da doença, e alguma maior mortalidade, mas têm gerido isso na esperança da imunidade de grupo.

Do ponto de vista cultural, os suecos já se isolam muito mais do que os outros países. Até houve uma explicação do Governo com essa justificação. Já há um distanciamento, já não é normal as pessoas abraçarem-se e beijarem-se. Quando se sentam, procuram uma mesa que esteja afastada de outros. A nível social, já há distanciamento. Se conseguíssemos medir o número de contactos entre pessoas, a Suécia estaria muito abaixo de outros países. Já quanto à distância média, é seguramente muito maior do que em Portugal, Espanha ou Itália.

Claro, que poderíamos utilizar a situação noutros países onde a densidade é ainda maior. Como por exemplo, na Ásia, onde a utilização de transportes públicos e a densidade são muito grandes. Aí as medidas tiveram de ser ainda mais drásticas. Há sempre uma componente da nossa cultura, das nossas rotinas, da nossa memória individual e coletiva que tem de se adaptar diferentemente e que vê diferentemente as novas medidas.

Há sociedades que, pela sua estrutura geral, estão melhor preparadas para a adaptação à nova situação?

Melhor e pior. Por exemplo, pode ser melhor apetrechado do ponto de vista do distanciamento, mas do ponto de vista de seguir as indicações coletivas... Portugal é relativamente bom. Outros países, se calhar, não são tão bons a fazer isso. Haverá países em que as pessoas não vão acreditar no que as autoridades dizem ou no que os outros estão a fazer. "Eu faço o que quero", dirão alguns. Mas eu penso que não se trata de uma sociedade estar melhor adaptada. Penso que nenhuma sociedade tem todos os aspetos comuns. Um dos grandes problemas agora é sentirmo-nos apoiados emocionalmente, estando longe da família e dos amigos. Se calhar, certas culturas têm muito mais preocupação de telefonar ou de fazer um Zoom ou Whatsapp do que outras culturas, e isso também é mais adaptado. É muito difícil perceber. A longo prazo, até pode ser que culturas onde houve mais contacto cheguem à imunidade de grupo antes... Mas as incertezas são tão grandes... É verdade que certos aspetos de certas sociedades são mais adaptativos, mas não há nenhuma sociedade que esteja mais adaptada para isto.

Parece que vamos ter de viver e trabalhar sob novas formas, pelo menos durante um período longo. Uma vez que não estamos treinados para isso, o que é expectável que possa vir a acontecer? A produtividade vai baixar?

Sim, é expectável que momentaneamente baixe. Mas, no trabalho, é interessante para a nossa geração. Nós começámos a pensar que o 1984 vinha aí, e depois passou. Depois era o 2001: Odisseia no Espaço, e também não foi como esperávamos, e, de repente, num período de duas semanas, passamos a viver tudo isto.

Eu nasci em 1972, e, de repente, passei para o 2050, Odisseia no Espaço, tudo virtual. Estamos numa adaptação massiva e eu acho que, mesmo depois de passar este coronavírus, muita coisa vai mudar. Vamos trabalhar muito mais remotamente. Pode haver coisas interessantes e benéficas no meio disto tudo. Todos poderemos ter muito mais tempo individual ao mesmo tempo que trabalhamos e poder gerir o nosso tempo. Estamos a aprender como sociedade a fazer isso. As crises nem todas são más. É como o crescimento individual: às vezes temos de nos aperceber que não estávamos bem adaptados para haver uma mudança. Eu sou sempre positivo e espero que isto leve a uma sociedade ainda melhor.

A ciência tem ganho muito espaço e relevância no discurso público. Mas, simultaneamente, vemos um Presidente a sugerir que pessoas injetem desinfetante para curar a doença. Como é que vê este paradoxo?

Sim, isto tem sido muito interessante. Pelo menos que eu me lembre, historicamente, nunca houve uma altura em que a opinião pública procurasse tanto e apoiasse tanto o conhecimento científico. Isso traz coisas positivas. Por exemplo, o Instituto Nacional de Saúde Americana decidiu aumentar muito o financiamento destinado à ciência. Os cientistas são sempre convidados a participar em todos os debates e as pessoas querem saber a nossa opinião. Eu acho que isso é um sinal muito positivo. Nunca houve tanta perceção de que a ciência é uma parte importante da nossa sociedade e que não sabemos de onde é que vem a nova ameaça. Mesmo em relaçao a todas as pessoas que estudavam os coronavírus antes de isto acontecer, se calhar, muitos pensavam: "Epá, estes tipos estudam uns vírus que nem são muito perigosos, nem muito interessantes", e de repente passam para a frente do debate.

Depois, vemos aqui coisas interessantes a nível de decisão política, por exemplo, nos Estados Unidos. O governador do estado de Nova Iorque, o Cuomo, que é muito analítico e apoia muito as suas decisões nos cientistas e médicos que tem à sua volta. Temos a Casa Branca, dentro da própria task force de resposta ao coronavírus. Temos o Presidente Trump a dizer umas coisas e os especialistas a dizerem outras coisas. O que é interessante é a opinião pública. Se virmos, por exemplo, qual é a opinião sobre o Trump ou sobre o Tony Fauci, que é um especialista, vemos que o Presidente só teve ali uma melhoria de 2% a 3% de aprovação, no início, mas logo depois baixou. Nas sondagens, a maioria das pessoas não pensa que a Casa Branca está a responder de uma forma positiva a esta pandemia. Mas muitos acham que o governador Cuomo e o Tony Fauci estão.

O debate já existia, mas agora é visível, pode-se assistir, e todos estamos a ver. Eu prefiro assim. Prefiro que seja às claras e que possamos debater o que é que devíamos fazer, se devíamos usar o conhecimento analítico ou não para fazer isto. É quase um reality show, mas eu acho que é muito importante haver este debate nesta altura.

O século XXI emergiu como o "século do cérebro", no entanto, a neurociência parece afastada dos centros de decisão na resolução desta crise, pelo menos no espaço mediático. Isto é verdade?

Não, não é assim. Eu acho que no espaço mediático está. Naturalmente, sendo diretor do Brain Institute, estou a liderar o comité que está a pensar no futuro da ciência na universidade, e em contacto com as autoridades locais, com outros países, com outras universidades.

Por exemplo, eu faço uns vídeos para o instituto, semanalmente, a explicar a situação, e dei o exemplo de dois cientistas que descobriram como é que funciona a atividade dos neurónios e os seus potenciais de ação. [Estes cientistas] fizeram a primeira observação um mês antes de Hitler invadir a Polónia. Fizeram aquela observação, já sabiam que tinham uma descoberta fantástica, e depois estiveram sete anos a trabalhar em coisas diferentes na guerra. Depois voltaram e concluíram as descobertas fantásticas. É normal que agora, do ponto de vista mediático, toda a gente se esteja a focar no coronavírus. Mas não nos podemos esquecer de que há um bilião de pessoas afetadas por doenças do cérebro, mentais e neurodegenerativas. Um bilião. Um em cada sete, na nossa vida. Portanto estamos a falar de problemas, públicos da maior importância. E isto pode ser um sintoma disso: a saúde da terra, as alterações climáticas e os problemas do cérebro e o envelhecimento.

É claro que, havendo um vírus ativo, como é agora o caso, todos estamos dedicados a isto, mas, infelizmente, os outros aspetos não vão desaparecer. As doenças do cérebro estão com uma incidência muito grande e os custos anuais para os Governos são colossais. Só para ter uma ideia, os prejuízos para o Governo americano são superiores a 1,5 mil triliões de dólares anuais - 10% do produto interno bruto. É uma coisa brutal que ninguém percebe. Eu costumava dizer que a incidência das doenças mentais e neurodegenerativas é tão alta que, se isto fosse um vírus, estávamos todos em pânico. E, infelizmente, aconteceu.

Mas temos de continuar a trabalhar nisso. Há muita gente a sofrer de Alzheimer, de Parkinson, depressão e temos de voltar a isso, mas, claro, agora temos de nos dedicar aos aspetos agudos desta crise.

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