Rui Pinto contratado pelo Estado? "Ideia que sobra é a de que o crime compensa"

Perito em investigação criminal contesta possível contratação de Rui Pinto para a Polícia Judiciária e alerta para uma possível mudança de estratégia de outros hackers, para quem o criador do Football Leaks é "uma referência".

O hacker Rui Pinto, criador do site Football Leaks, pode vir a ser contratado pelo Estado para integrar a Polícia Judiciária (PJ). A notícia é avançada pelo Correio da Manhã, que acrescenta que o pirata informático deve ser integrado na investigação de crimes informáticos e de corrupção sob nova identidade.

À TSF, o professor universitário, perito em investigação criminal e segurança e antigo inspetor da PJ, André Inácio, dá conta de que esta é uma notícia preocupante e que chega a dar a ideia de que "o crime compensa", podendo motivar outros hackers a tomar ações criminosas como forma de ganharem notoriedade.

"Importa recordar que Rui Pinto é um pirata informático que foi apanhado, não é um arrependido, portanto é alguém que se não tivesse sido detido teria continuado a sua atividade criminosa", assinala, algo que levanta "grandes dúvidas sobre a sua ética e validade para o sistema de justiça".

O hacker "conseguiu aceder de forma ilegítima a escritórios de advogados, clubes de futebol, sistemas de personalidade e empresas e, além disto tudo, é uma referência no mundo dos hackers".

"A ideia que sobra é a de o crime compensa"

André Inácio argumenta que, a ser verdade que "lhe vão dar uma nova identidade, vencimento, acesso ilimitado e casa, então isto vai funcionar como estímulo para outros hackers. A ideia que sobra é a de que o crime compensa. Ou seja, os hackers vão atuar e quando forem apanhados dizem: 'Estava só a chamar a atenção dos polícias para ver se era contratado'".

O professor universitário diz não ter dúvidas de que as capacidades de Rui Pinto "são importantes", mas defende que "se derem meios técnicos e possibilidade de aceder a outro tipo de informações no exterior" a quem trabalha na área do crime informático para a PJ, estas pessoas "chegarão a este nível, ou muito mais acima, tendo todo um percurso de idoneidade anterior que é muito mais sólido e garante outra correção".

Dúvidas sobre o tratamento dado a Rui Pinto

Sobre a forma como o sistema judicial está a lidar com a situação de Rui Pinto, o antigo inspetor da PJ deixa várias questões no ar.

A primeira prende-se com a "avaliação de ameaça" feita pelas autoridades, "porque pelos segredos a que [Rui Pinto] acedeu, corre perigo de vida. Se isto é verdade, também pode ser verdade outra coisa que nos leva à seguinte dúvida: ele está a ter um tratamento especial pelo nosso sistema de justiça pelas suas capacidades ou pelos segredos a que acedeu?"

André Inácio questiona também se "isto é um prémio para ficar calado ou se ele é assim tão bom que nem merece ser julgado", alertando que a última condição "vai abrir a porta a que todos os hackers se candidatem a trabalhar nas polícias".

Feitas as perguntas, o professor universitário diz que, aconteça o que acontecer, Rui Pinto tem de ir primeiro a julgamento. "É suposto ele a partir do dia 4 de setembro começar a ser julgado", sublinha André Inácio, que acrescenta nem "querer acreditar" que aconteça de outra forma.

"Não percebo é porque é que já se está a desenvolver todo este processo ao mesmo tempo que vai começar o julgamento. Esta fuga de informação não foi, seguramente, por acaso e pode condicionar o julgamento. Esperemos que não", concluiu em entrevista à TSF.

Rui Pinto já saiu das instalações da PJ, disse este domingo fonte policial à agência Lusa. O 'hacker', acusado de cerca de 90 crimes, "já não se encontra nas instalações da Polícia Judiciária", de onde saiu nas últimas horas, em coordenação com os seus advogados, referiu a mesma fonte ao início da tarde.

Por questões de segurança, o arguido fica agora inserido no programa de proteção de testemunhas, acrescentou, e obrigado a apresentações semanais à PJ.

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