Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.

As corredoras

Às cinco da manhã, já as corredoras saem dos intermitentes autocarros, aceleradas pela estafa que é o seu combustível diário. Estafa é a palavra mais ajustada ao modo como elas atravessam a noite. A palavra estafa parece conter a ideia de cansaço e a de corrida. As corredoras saem em magotes do 706 e precipitam-se para a outra margem, correndo sempre, numa diagonal à Estrada da Luz, em obstinada estafeta. Passa um motociclista insano desafiando radares, gritam-lhe um impropério e estugam o passo. Não podem perder o 750, que vai de Algés ao Oriente. Hão-de passar a Azinhaga das Galhardas e o Pote de Água. Não se demoram nos mistérios da toponímia. Em nada se demoram, salvo no afã de chegar. Não saberiam trautear a Canção da Paciência do Zeca, mesmo se "a vida não presta para sonhar". O mundo delas é um fio de ruas numa cidade vasta e escura. É no mais fundo dessa escuridão que acendem os dias, correndo para não perderem o 706 e, logo a seguir, o 750, números prodigiosos da sua sina. Lá vem ele, faça um braço o sinal de stop e vá, o outro, ao peito afagando alento.

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