Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

O "descarregador de tempestade"

O repórter Delfim Machado leva-nos, no JN de hoje, ao local onde o rio Selho foi poluído com "milhares de litros de esgoto provenientes de uma tampa de saneamento da empresa pública Águas do Norte", tutelada pelo Ministério do Ambiente. É, desde Setembro, a terceira vez que tal acontece neste afluente do Ave, sempre na freguesia de Aldão. Antes dessa correnteza de campos agrícolas, as águas do Selho são, como explica a reportagem, transparentes e límpidas. O caso da inusitada mistura da mancha de esgotos com as águas pluviais já justificou uma contra-ordenação da Agência Portuguesa do Ambiente e fica contado. Não choremos, em demasia, sobre o esgoto derramado. Mas a notícia traz, escondido num parágrafo, um espantoso talvegue, um córrego semântico.

Contactada pelo JN, a Águas do Norte explicou o fenómeno: o caudal excessivo fez accionar um "descarregador de tempestade".

Não fora o cheiro, poderíamos espreitar, mais de perto, tal maquinismo de transporte e o modo como ele conduz para outra dimensão a fúria dos elementos. Isso nos levaria, talvez, à Ilha de Próspero ou ao Canto VI, às tumultuosas estrofes em que as naus levam, quebrados, os mastros "pelo meio", subindo acima das nuvens, no dorso das "ondas de Neptuno furibundo".

Um "descarregador de tempestades"? Ó rodas, ó engrenagens! "Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, / engenhos, brocas, máquinas rotativas!"

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