Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Ouriços enchouriçados

Cruzam-se, manhã cedo, à porta do café. Dois ouriços dobrados ao aconchego das samarras e dos cachecóis de lã. Aquele que está de chegada vocifera contra os rigores da meteorologia. "Viva o frio", proclama, esfregando as mãos, as palavras saindo em formidável nuvem de vapor. "Hoje não está muito frio", reage o que vem de dentro. "Ah, pois não", contraria o primeiro. "Isso diz você, que vem aí todo enchouriçado."

Eis como, sendo a conversa defumada numa cortesia de máscaras, em absoluto descuido poético, um ouriço se transforma em chouriço. O descuido poético pode ser para aqui chamado, depois de passadas as mãos por gel. Como lembrou Derrida, numa conferência agitada por outras correntes de ar, o último reduto da poesia é uma espécie de ouriço que guarda o segredo da palavra poética envolvendo-se sobre si mesmo. Não devemos iludir-nos com esse novelo. Pode ferir-nos com os seus espinhos. Do mesmo modo, não é possível amestrar a palavra poética, sequer afagá-la.

Numa duríssima polémica entre António Enes e Eça, aquele sugeriu que "debaixo da pele macilenta" do autor d" "Os Mistérios da Estrada de Sintra" andava "encoberto, enchouriçado, defumado, um D. Sebastião literário".

Nada sugere tal crispação entre os dois patuscos, ali à porta do café, nem entrando nem saindo. Deixaram-se, simplesmente, ficar entretidos em salamaleques meteorológicos, enquanto esfregam os sapatos num tapete puído e desinfectam as mãos com o gel da praxe.

As conversas de café saltam de tema sem a cautela política que leva a OMS a saltar duas letras do alfabeto grego nas suas variações sobre variantes. As guinadas temáticas são provocadas por um invisível interruptor que estabelece ligações imponderáveis. Na verdade, são as palavras, mais ou menos enchouriçadas, mais ou menos ouriçadas, que aquecem e arrefecem. É o que se passa com os ouriços: uns ouriçam, outros enchouriçam.

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