Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

"Estamos todos a ser postos à prova"

Mário Laginha, compositor e pianista, confessa que ainda não teve tempo para sentir que o tempo lhe sobra. Por estes dias, as mãos que nos habituámos a ver ao piano também mexem na terra.

Lá no cocuruto da aldeia do Penedo, o pianista compõe ervas de cheiro, no terreno que circunda a casa, com vista para a serra e para o mar. Ganha ânimo para cavar a terra, no intervalo do tempo que a quarentena lhe deu. Na aldeia, pouco mudou, mas as imagens do mundo que lhe entram pela casa são "desconcertantes e assustadoras".

Mário Laginha fala de uma sensação paradoxal. Na aldeia, que é uma das mais tradicionais de Sintra, tudo parece estar igual, "uma estranha calma, já não se via gente, e agora continua a não se ver gente". Mas a comparação com as imagens que chegam de Lisboa, de Roma e de outras cidades, trazem desconcerto e receio, assustam.

Também ele procura adaptar-se ao compasso de espera. A viver em estado de emergência, embora diga que ainda não sentiu tempo folgado, "mas sou eu que estou a adaptar-me", observa, como que acrescentando uma e outra nota à partitura desta quarentena.

Fala dos mails que chegam, dos contactos para saber dos amigos, "até ligamos para alguns menos próximos, ligamos para saber, estão todos bem aí em casa?", e sossegamos. "Está tudo bem, ok".

Habituado a estar em casa, na sala de vista desafogada sobre o mar e a serra, Mário Laginha não estranha a solidão do compositor, até gosta, mas depois falta o que dá sentido, "subir a um palco e alguém gostar", isso faz bater as saudades, "porque sabemos que não vai acontecer nos temos mais próximos". Fica pré-anunciado um concerto nas redes, com o fadista Camané, "já falámos disso, estamos a ver como, mas vai acontecer". Este ano tinham uma agenda cheia até ao verão. "Que ano incrível, todos os fins de semana, havia concertos". Uns adiados, outros já cancelados, é o lado duro da vida dos artistas, infetado pelo vírus que traz angústia e incerteza.

Pergunto-lhe se um músico de jazz tem outra escala para lidar com o improviso? Responde que aprender a improvisar num universo não é garantia que o consigamos fazer noutro, "e que este é o momento de nos darmos ao outro". Ao piano, ou com uma enxada nas mãos dedicando-se a podar e a cavar e a cuidar das ervas de cheiro, "temos de ser inventivos, para criar uma normalidade, mesmo que ela não exista". Também apela à tolerância, para os erros de toda a gente, mesmo com os políticos, "estamos todos a ser postos à prova, eu acho".

Está sentado ao piano, ou perto dele, a meu pedido, e as primeiras notas... "aviso já que o piano está desafinado, mas agora não dá para mandar vir o afinador". As primeiras notas pedem a voz de Camané, é só um cheirinho da música com que os dois abriam os concertos do último álbum lançado em dezembro.

Ali está-se sossegado.

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