Volta ao Mundo. 25 anos, 25 entrevistas

Há um momento que ficou gravado para sempre na memória. Há um lugar transformado em postal de viagem. Há uma frase que permanece de uma conversa com alguém que não voltaremos a ver. Nos 25 anos da revista Volta ao Mundo, 25 entrevistas sobre muitos quilómetros percorridos por gente conhecida das mais diversas áreas.
Às terças-feiras, às 17h40. Uma parceria TSF/Volta ao Mundo, com o apoio do El Corte Inglês

Cândida Pinto: "Tenho uma curiosidade enorme pelo mundo e pelo desconhecido"

Já viu um pouco de tudo nas viagens que fez em trabalho, nomeadamente em cenários de guerra. Em lazer, a Rota da Seda foi uma das viagens que a jornalista Cândida Pinto mais gostou até hoje e sonha um dia conhecer o Japão. Ao longo dos próximos meses, a TSF e a Volta ao Mundo vão conhecer o passaporte de 25 personalidades das mais diversas áreas, para assinalar os 25 anos da revista de viagens.

Começou na rádio - e até passou pela TSF - mas foi a televisão que lhe trouxe a notoriedade. Seja em reportagem, quando vai para o terreno, ou em estúdio, quando nos ajuda a perceber as voltas e reviravoltas do mundo. Cândida Pinto fez reportagens de guerra em Angola, na Guiné, no Kosovo, em Timor, no Afeganistão ou na Líbia. Cobriu eleições e movimentos independentistas, catástrofes naturais, revoluções. Recebeu vários prémios de jornalismo ao longo de uma carreira que já leva mais de trinta anos. E tanto entrevista líderes mundiais que jogam as peças do xadrez geopolítico como fala com as vítimas desses jogos de poder. No ano passado mudou-se da SIC, onde foi repórter, editora de internacional e diretora da SIC Notícias, para a RTP, onde é agora subdiretora de informação. Em julho regressou por uns momentos à TSF (e passou pela Volta ao Mundo) para esta entrevista. Veja aqui o vídeo na revista Volta ao Mundo.

Quanto tempo consegue estar em Portugal sem se meter num avião e partir para reportagem?

Isso é muito ilusório. Eu passo mais tempo aqui do que fora daqui. Mas as viagens são a minha grande paixão, claramente, seja em trabalho ou não. Eu tenho uma curiosidade enorme pelo mundo e pelo desconhecido, portanto é-me relativamente fácil sair da minha zona de conforto porque fascina-me totalmente conhecer comportamentos diferentes, culturas diferentes, formas de estar na vida diferentes. Nós, seres humanos, somos todos exatamente iguais, moldados depois de formas diferentes consoante o local onde nascemos e onde vivemos.

E quando viaja, consegue abstrair-se do seu lado repórter?

Isso é difícil, obviamente. Mas às vezes consigo. Sobretudo se estou muito cansada e preciso mesmo de descansar, consigo abstrair-me dessa parte. E, sobretudo, viajar quando não estou em trabalho é muito mais descansado. Não tenho obrigações e, portanto, essa parte é mais confortável. Mas, por outro lado, a curiosidade que me puxa para conhecer os sítios, os lugares, as pessoas e os comportamentos, isso está lá. É trabalhado ou não se estou a trabalhar ou não.

Traz muitas ideias de reportagem das férias que faz no estrangeiro?

É inevitável. Há sempre coisas que se atravessam no nosso caminho e às quais temos acesso. Ou coisas que se cruzam connosco e fica sempre aquela ideia a pairar. Isso já me aconteceu muitas vezes, é verdade.

Costuma andar com um bloco de notas cheio de apontamentos e ideias?

Tenho sempre. Bom, eu tenho sempre trinta mil projetos na cabeça - consigo concretizar um ou dois -, mas isso também é uma grande motivação para mim, porque eu acho sempre que há coisas que estão por fazer e que eu gostava de fazer ou dar condições a outras pessoas para fazerem, porque considero que é importante. Eu sempre tive um bocadinho esta postura de achar que este país precisa de janelas mais abertas, precisa de mais informação sobre o que se passa fora daqui, porque apesar de sermos um país europeu, estamos muito entalados entre Espanha e o Atlântico. É sempre importante abrir janelas e mostrar outras coisas.

Costuma regressar a sítios onde esteve primeiro como jornalista?

Já me aconteceu várias vezes em trabalho. Voltar aos mesmos locais por necessidades da atualidade, ou para continuar o trabalho que estava a fazer, ou para acompanhamento das circunstâncias da vida de um determinado país. Em férias também já fiz isso - fui passar férias ao Líbano, por exemplo, onde tinha estado em trabalho. Mas normalmente não acontece muito. Eu tento diversificar os meus destinos porque o mundo é muito vasto.

Quando vai de férias a países onde já esteve em trabalho, presumo que inevitavelmente faça também essa atualização - ou mesmo comparações entre condições que tinha antes e que tem agora -, ainda que não seja por motivos profissionais.

Sim, é inevitável. Mas também tento alargar as zonas que conhecia. Há sítios que se revisitam e depois alarga-se um pouco o perímetro para tentar perceber melhor como é aquele país. O Egipto, por exemplo: já lá estive em trabalho e já lá fui de férias depois e fui a sítios onde não tinha estado. Eu tinha atravessado o Egipto de carro para entrar na Líbia, do Cairo para Sul, e quando fui de férias fui para o norte, para Alexandria. Enfim, tento perceber outros locais e conhecer outras coisas.

Entre todas as viagens que já fez, de trabalho ou lazer, há uma que foi particularmente importante para si: a Rota da Seda. Porquê?

A Ásia é claramente a zona do mundo que eu conheço pior e é a que mais me atrai atualmente. E eu, de vez em quando, crio cenários quase míticos na minha cabeça. Há uns anos comecei-me a interessar pela Rota da Seda. Não só pela sua parte histórica, de há milhares de anos, que é fascinante, mas também pela parte da atualidade e do projeto da nova Rota da Seda, do governo chinês do Presidente Xi Jinping. No ano passado tive a oportunidade de fazer essa viagem, que cruza duas áreas muito interessantes. Por um lado o interior da China. Não a que estamos habituados a ver, de Pequim e Xangai, essa China desenvolvida, mas o interior do país. O Trás-os-Montes da China, digamos assim, a zona perto da Mongólia, que faz a China entrar pela Ásia Central. Por outro lado, a zona que atravessa o Quirguistão e o Uzbequistão, que são países já na Ásia Central, onde há uma mistura incrível da própria fisionomia das pessoas. Nós estamos acostumados a identificar o chinês com olhos em bico, cara muito redondinha e não muito alto. Mas quando se chega a essa zona da China já de fronteira com o Quirguistão, uma área que fica já perto do Paquistão e do Tadjiquistão, a fisionomia dos chineses é totalmente diferente. É muito mais caucasiana, tem outros contornos e influências da Mongólia. A fisionomia da pessoa já é diferente e o os hábitos também. Toda esta zona da Rota da Seda está carregada de História e com sítios míticos. Para mim, Samarcanda [Uzbequistão] é daqueles sítios...É o livro do Amin Maalouf... enfim, tem uma carga enorme. E eu fui a Samarcanda e isso para mim foi uma emoção muito grande, porque faz parte da Rota da Seda, era um ponto de contacto entre a China e o Mediterrâneo. Eu gosto deste exercício de estar num oásis no meio do deserto e de imaginar que aquilo já esteve cheio de camelos e cavalos que atravessavam aquelas zonas e traziam seda da China para o Mediterrâneo e levavam vidros de Veneza para a China. E as religiões e os conflitos, os confrontos, os conhecimentos, as ciências, as doenças... tudo aquilo atravessou aquelas zonas durante muitos anos e isso para mim é fascinante. Adoro.

Uma mitologia um bocadinho diferente foi a que encontrou na Antártida. O que a levou lá?

Eu já fui ao Polo Norte e à Antártida. E isso é um grande privilégio. Em 1994 fui ao Polo Norte, que é uma placa de gelo em cima do Ártico e dez anos depois fui à Antártida, que é um é um pedaço de terra, um continente rodeado de oceanos. São duas situações completamente diferentes. O Polo Norte é completamente inóspito e a pessoa pode ter claustrofobia, porque não há nada, é só gelo. A Antártida é lindíssima. Eu ficava num navio canadiano e andávamos muito pelos fiordes. As construções da natureza, no que diz respeito ao gelo, as cores, o sol a entrar no gelo, umas colunas geladas que faziam lembrar as colunas gregas da Antiguidade, é tudo fascinante. E os pinguins e as baleias. E depois era aquela coisa de pensar: «isto está a perder-se, isto está a derreter». E isso é aflitivo. Perceber que estamos a perder estes pedaços de natureza e de planeta absolutamente extraordinários. E quer a Antártida quer o Polo Norte são daquelas zonas do mundo em que nos sentimos do tamanho de um grão de gelo. E tudo é relativo. A relatividade da nossa vida fica exposta numa dimensão absoluta. Nós somos muito vulneráveis e somos muito pequeninos no meio de tudo isto que é o planeta e o universo. E esses locais dão-te muito essa carga.

Foram viagens que fez que uma certa «urgência», por saber que aquilo pode desaparecer realmente?

Não. Eu fiz a primeira viagem em 1994 e a segunda em 2005. Na segunda já havia um pouco esta consciência, mas em 94 ainda não havia bem a noção disso. Havia um bocadinho mas não com a carga que existe atualmente. Atualmente essa carga é muito mais forte e é muito mais urgentes olhamos para estas zonas do mundo e perceber por que é que eles são importantes. Todos os dias temos notícias de mais um mar que subiu, mais um glaciar que caiu. E quando se olha para estas zonas e se percebe por que é que elas fazem sentido no planeta, é muito angustiante perceber que podem desaparecer.

E essa é uma dimensão de destruição - dos elementos naturais - que já viu e a que vamos assistindo. Outra dimensão da destruição é aquela com que, por força da sua profissão, tem contrato: catástrofes naturais, cenários de guerra, etc. Já viu muito. Quando regressa consegue desligar e ao fim de uns dias apagar todo aquele rasto de morte e destruição que os seus olhos veem e que nos traz?

Nunca se apaga as coisas fortes com que somos confrontados. Quando se volta há ali uma fase em que é preciso arrumar o nosso interior. Arrumarmos aquilo que vimos. Identificarmos, entendermos, interpretarmos. E pacificarmo-nos a nós próprios com aquilo com que fomos confrontados. Ninguém passa por algumas dessas situações incólume, obviamente. Por muito que a nossa profissão nos dê uma espécie de autodefesa perante estas circunstâncias. A profissão de jornalista leva-nos a sermos sempre impelidos a avançar e embora, no momento, exista um impacto grande, nós não podemos ser tomados por isso e deixar de fazer o que estamos a fazer. Isso é uma defesa. Agora, quando voltamos, as defesas caem. E essas emoções e essas situações maiores sobrepõem-se. Portanto, é preciso digeri-las e é preciso arrumá-las e é preciso perceber como é que vamos viver com isso, porque vai acompanhar-nos a vida toda. Eu relativizo muita coisa. As nossas grandes dificuldades do dia a dia ficam um bocadinho menores. Mas há coisas que jamais deixarão de estar dentro de mim, porque são situações por que passo e são demasiado fortes. Mas eu também não faço disso um drama nem as carrego com um peso. Eu passei por lá e isso está imprimido na minha pele, mas o meu caminho continua.

E esses caminhos, por onde é que a levam agora? Que viagem é que sonha ainda fazer e ainda não conseguiu?

Eu nunca fui ao Japão e é uma prioridade atualmente. É uma cultura muito diferente da nossa e muito diferente do resto da China. É claramente um país que eu gostava muito de descobrir e, portanto, estou à procura de uma oportunidade para lá ir.

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