"As pessoas que hoje estão no Benfica não acreditam que podemos ser campeões europeus"

O candidato à presidência do Benfica Rui Gomes da Silva é entrevistado na TSF e explica as razões que o levam avançar com a candidatura.

Rui Gomes da Silva quer ser presidente do Benfica. Sócio desde que nasceu, com o número 1812. Já foi vice-presidente nos mandatos de Luís Filipe Vieira, mas saiu em desacordo com o atual líder das águias, criticando a falta de ambição europeia que reina no clube. Nesta entrevista na TSF, Rui Gomes da Silva explica as razões que o levam avançar com a candidatura no próximo dia 30 de outubro.

A relação com Luís Filipe Vieira era boa quando estava no Benfica?

Sim era boa, durante algum tempo. Eu tenho por norma não ser defensor de convicções alheias. Por isso, quando digo e defendo o que acredito é porque acredito. E sempre num processo de construção de verdade, que é muito a minha maneira de ser. O que não quer dizer que, estando num órgão coletivo eu não discorde de alguns assuntos. Recordo que discordei quando era vice-presidente do Benfica, com a renovação dos direitos desportivos com a Olivedesportos. Para mim era uma questão essencial. E disse isso ao presidente. E na altura Vieira disse-me que se eu acreditava nessa posição, devia seguir o meu caminho. Mas também critiquei o aburguesamento da estrutura do Benfica no ano de Rui Vitória, como discordei da parceria estratégica com Jorge Mendes. Aquele não era o meu caminho.

Assumiu a candidatura à presidência do Benfica há muito tempo. Está a chegar o dia das eleições.

A decisão de ser candidato não pode ser do momento. Outros candidatos dizem que foi uma decisão do momento, isso não pode acontecer. O Benfica é uma instituição muito grande, e ser candidato às eleições do Benfica é de uma responsabilidade muito grande. Por isso, não faz sentido e não é credível, que alguém tenha decidido ser candidato e avance com 100 mil, 200, 500 ou 1 milhão de euros do seu bolso numa campanha. E diga, que depois no dia 31 de outubro, sai desta campanha se não vencer, porque não tem mais nada a fazer.

E qual é sua diferença?

Eu tenho um trajeto. Um trajeto feito de coerência. O primeiro texto que tenho sobre esta matéria é de 1991. Tinha perdido umas eleições com Fernando Martins, e cerca de um ano e meio depois, escrevi um artigo no jornal O Benfica - bom tempo quando na altura os órgãos comunicacionais do Benfica serviam para aqueles que tinham sido oposição escreverem o que pensavam - e nesse texto defendi que o Benfica tinha que ser construído através da formação, ser eclético e ter como objetivo o título de Campeão Europeu, ou seja, mantendo a hegemonia nacional. Repeti essa ideia em 1997 ao lado de Luís Tadeu, que podia ter sido um grande presidente, mas os sócios "enganaram-se" na altura e elegeram Vale e Azevedo, com o clube a entrar numa espiral negativa de três anos, e que demorou muito tempo para recuperar. Depois repeti essas mesmas ideias em 2000, num artigo do jornal Record, acrescentando que não queria um Benfica envolto em processos judiciais e não queria funcionários no clube adeptos do Sporting e FC Porto. Veja como isto está atual.

Foi por isso que saiu dos órgãos sociais do Benfica?

O Benfica para mim é uma forma de pensar. Eu acordo todos os dias a pensar como pode chegar a campeão europeu, como pode não cometer os erros que está a cometer e evitar este descalabro desportivo de abandono das ambições europeias que o têm vulgarizado na Europa. Depois vamos olhar para trás, e vamos perceber o erro que estamos a cometer ao apoiar esta política. Eu não quis fazer isso, daí ter saído em divergência com o atual presidente. Mas não estou arrependido, porque estes anos deram-me bagagem para perceber o que é o Benfica.

Como é que o Benfica pode chegar a campeão europeu de futebol, enfrentando os outros grandes clubes da Europa?

Desde logo criar uma cultura de vitória. O Benfica perdeu a pré-eliminatória com o PAOK, e tivemos um presidente que se escondeu em parte incerta e não veio comentar nada. Os outros dois candidatos, que acabaram por se juntar, vieram logo a público dizer aquilo que é pior para a construção dessa cultura de vitória; que o importante agora era vencer o próximo jogo. Isso não pode acontecer. Eu acho que interessa o próximo jogo quando se ganha. Recordo um texto de um livro de Jorge Valdano, que revela na época em que jogou no Real Madrid, estava a festejar no balneário a conquista de um título, e logo uma antiga estrela do clube o avisou que os festejos apenas se faziam no relvado, porque agora, o que interessava era pensar na conquista do próximo título. Ou seja, perdemos a possibilidade de jogar na Liga dos Campeões e vamos jogar uma fase de grupos da Liga europa, algo que já não acontecia há 11 anos. E parece que não se passa nada.

O que é preciso mudar?

Através de uma política desportiva que mude esse paradigma. Nos sete anos em que estive no Benfica, sempre defendi que devíamos ser candidatos a campeões europeus, e as pessoas lá dentro, sempre me diziam que isso era para os outros clubes mais fortes e que tinham muito dinheiro. Não concordo. Eu disse recentemente numa entrevista que conseguia colocar o Benfica nesse caminho em 4 anos. O que é o presidente do Benfica disse? Antes era com a formação, depois era sem a formação e agora também diz exatamente o que eu digo. Folgo imenso que me copiem.

Mas Luís Filipe Vieira destaca querer ganhar um título europeu, porque há uma diferença entre vencer a Liga Europa e a Liga dos Campeões.

Porque são pessoas de fraca ambição e consideram ser impossível ganhar a Liga do Campeões, e por isso só valorizam o outro título europeu. As pessoas que estão lá dentro não acreditam, porque fazem tudo em sentido contrário. Um Benfica com 109 jogadores não vai ser Campeão Europeu. Um Benfica com jogadores de nível europeu e com ordenados de 200 mil a 300 mil euros não vai ser campeão europeu. Esses jogadores vão querer sair, porque não estão a ganhar dinheiro que podiam ganhar noutros clubes europeus. Depois a outra razão, prende-se com a falta de compromisso por parte da direção, e eles vão quer sair para tentar conquistar títulos noutros clubes.

E o que se pode mudar?

É preciso uma política desportiva que consiga construir uma equipa num ano e fazer correções nos dois anos seguintes. Depois nas temporadas seguintes pode surgir um Benfica muito ambicioso. E a partir daí todos os anos o Benfica tem que ser candidato a conquistar o título de Campeão Europeu. É difícil? Sim, é muito difícil. Mas há clubes com muito mais dinheiro, mas que não têm aquilo que o Benfica tem, que é a cultura desportiva, bem como a base de apoio de milhões de adeptos. O Benfica só vai ser revelante na Europa quando for outra vez campeão europeu. Temos o exemplo do Sevilha que ganhou várias Ligas Europa, e alguém reconhece que são um colosso europeu? Não.

Mas não concorda que esta época houve um plano de dotar o plantel para fazer uma boa campanha da Liga dos Campeões?

Mas que política desportiva é esta que na primeira contrariedade vende aquele que seria o mais emblemático dos jogadores, e que seria o capitão, dito pelo presidente, do projeto europeu do clube?

Está a falar de Rúben Dias?

Sim estou a falar de Rúben Dias. E que mensagem se passa ao plantel quando na primeira oportunidade se vende esse jogador?

Mas não foi um bom negócio?

No Benfica são sempre bons negócios. Mas depois da venda de João Félix? Ainda não encontrei um substituto à altura. O problema aqui é que estamos sempre a construir histórias assentes em factos que não são verdadeiros. Dois exemplos ; Gedson e Florentino Luís. Durante mais de um ano fui inundado de artigos e opiniões de que Florentino ia ser o novo Pogba da Europa. Passado um ano ele não joga e foi emprestado. Por isso, ou me estão a enganar que o Florentino seria o melhor médio da Europa, ou me estão a enganar agora, porque não o colocam a jogar. As duas coisas não podem ser verdade. O mesmo acontece com o Gedson, que foi para o Tottenham e nem "calçou", com se diz na gíria do futebol. O problema, é que nos andam a enganar e a construir uma verdade que não é a realidade do futebol europeu.

Jorge Jesus é o seu treinador?

Se eu fosse o presidente do Benfica ele não seria a minha escolha. A partir do momento em que é o treinador do Benfica, e quando assumir a presidência do clube, eu acredito que é preciso respeitar as decisões dos anteriores dirigentes. Por isso vou respeitar essa escolha.

Mas isso não correu muito bem quando Manuel Vilarinho venceu as eleições, e o treinador era José Mourinho. Porque Vilarinho tinha no plano eleitoral a possível contratação de Toni.

É por isso que não vou anunciar qualquer outra solução, nem para diretor desportivo. Acredito que isso só ia criar perturbação na minha entrada em funções. Temos que entender o Benfica como uma instituição credível e que os dirigentes atuaram num quadro de legalidade. E por isso vou ter que respeitar. Acrescentando a cultura de vitória para ganhar troféus e não para vender jogadores. Nunca investindo consoante os interesses do presidente, e ainda por cima, num ano difícil que não deveria ter sido feito.

Está a falar da crise da pandemia da Covid-19?

Sim, a questão da pandemia. A mim os únicos interesses são os do Benfica. E hoje sou muito criticado por ter dado a cara e ter sido conflituoso pelos interesses do Benfica. Estranho tempo este, agora com estas máquinas de propaganda. Ou seja, hoje o que parece ser bom é ter passado os últimos 20 anos sem ter dito nada sobre o Benfica, com inexistência pura.

Está a falar de João Noronha Lopes?

Sim, exatamente. Nunca ninguém lhe ouviu nada. Eu pergunto aos sócios do Benfica se é isto que querem. Uma pessoa sem experiência nenhuma. Porque o futebol é rigorosamente igual a todas as outras empresas, exceto em tudo o que é diferente. O futebol tem realidades diferentes. Por isso, acharque introduzir aspetos tecnocráticos na gestão do futebol, e pensar que isso vai fazer a diferença... para depois construir uma imagem a partir do zero. Volto a perguntar; é isso que os sócios querem? Alguém que nunca falou do Benfica e que não é conhecido por ninguém?

Mas o seu objetivo é ser presidente do Benfica, ou, ficar à frente de João Noronha Lopes?

O meu objetivo é ser presidente do Benfica, não é ficar à frente de Noronha Lopes. Porque há muito tempo que já anunciei ter um plano para o clube. Ser presidente do Benfica é uma coisa de muita responsabilidade. Não é um emprego.

Foi sondado para desistir a favor de João Noronha Lopes?

Estive numa reunião privada. Onde percebi que não havia vontade de discutir projetos, antes pelo contrário. Ficaram muito incomodados quando lhes disse que aquelas ideias só interessavam aos velhos inimigos históricos do Benfica. Estou a falar da Olivedesportos. As pessoas dizem sempre que o Benfica nos últimos sete anos ganhou cinco campeonatos, e nesses sete anos o Benfica, não esteve ligado à Olivedesportos. E acho que se eu não ganhar as eleições, o Benfica vai voltar a ter os jogos fora da BTV, e vai estar dependente da política de outras empresas. O problema é com essa imagem que se cria. Uma imagem abstrata de redes sociais, que dá a ideia de que as pessoas, que não têm um projeto, têm muitas ideias. Até porque, Luís Filipe Vieira e João Noronha Lopes são a face da mesma moeda. Estão lá todos, desde a Gestifute até à Olivedesportos. E eu não me vou calar sobre estes assuntos. Não é estranho que um possível candidato, cinco dias antes de apresentar uma candidatura vai almoçar no Estádio da Luz com o atual presidente. Tem que haver uma explicação para isto.

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