Estamos à tua espera, Xavi!

Xavier Hernández Creus, ou simplesmente Xavi. Simples era também o seu futebol e, segundo o "pai" Cruyff, jogar futebol simples era a coisa mais difícil que havia. Filho da Catalunha e criado em La Masia, Xavi é sinónimo de Barcelona. Por 793 vezes representou não só o clube, um dos maiores do mundo, mas também toda uma região, orgulhosa e senhora de si e da sua história. Se o Barcelona é " Més Que Un Club", Xavi foi seguramente muito mais que um jogador. Líder no balneário, capitão sem braçadeira no relvado (excepto na última temporada no clube, quando passou a capitão principal após a saída de Carles Puyol), suou, honrou e prestigiou a camisola "blaugrana", tal como muitos outros grandes jogadores na grandiosa história do clube.

Xavi estreou-se na equipa principal do Barcelona aos 18 anos, em 1998. Se calhar, nessa altura, estava longe de imaginar que o Camp Nou seria a sua casa durante 17 anos e que se tornaria uma das maiores lendas da história do Barcelona FC. A sua primeira década no clube foi intermitente. Sucessor natural de Pep no terreno de jogo, Xavi foi muito criticado quando o ex-colega saiu para o Brescia, e só começou a explanar o seu futebol com a chegada de Rijkaard. A nível directivo existia muita instabilidade, no entanto o Barça ainda venceu 3 campeonatos de Espanha e 1 Liga dos Campeões durante esse período.

Na época de 2008-2009 dá-se uma mudança de paradigma. Contra todas as expectativas, a direcção "blaugrana" presidida por Joan Laporta confiou o comando técnico da equipa a Pep Guardiola, na altura com 37 anos e com apenas 1 época de experiência na equipa B. Essa decisão inesperada, essa tomada de risco de Laporta deu uma nova dimensão ao Barcelona e abriu novos mundos ao futebol. Pep chegou e resolveu dar uma vassourada no balneário. Ronaldinho e Deco saíram, Eto'o também estava na lista negra mas ficou. Incerto do que o esperava, Xavi bateu à porta do novo treinador: " Contas comigo para esta época?", ao que Pep respondeu: " Não imagino esta equipa sem ti."

E então surgiu uma das melhores equipas da história do futebol. A genialidade de Pep no banco de suplentes tinha prolongamento no terreno de jogo. Um homem personificava dentro das 4 linhas a sua filosofia e a ideologia de Johan Cruyff. O seu nome? Xavi Hernández. O pequenino de 1,70m era o cérebro da equipa, o seu ponto de equilíbrio e ainda o porto seguro dos seus colegas. Se não sabes o que fazer à bola, passa-a a Xavi! Ele guarda-la-á como se fosse o seu último tesouro, ou descobrirá aquela linha de passe que mais ninguém viu. Dani Alves disse mesmo: "Enquanto nós vivemos no presente, Xavi vive no futuro. Ele pensa primeiro que todos os outros e torna tudo muito mais fácil." Foram anos de sucessos infindáveis, tanto no Barça como na "La Roja". Campeão da Europa, campeão do Mundo, vencedor da Liga dos Campeões, vencedor da Liga Espanhola e muitos mais títulos. Tudo isto sob a batuta do maestro Xavi. Tal como disse Vicente del Bosque: " Xavi é tão importante para nós, mesmo mais importante que o treinador. Xavi deixará um vazio, mas, acima de tudo, deixará um legado."

Os grandes também cedem à passagem inexorável do tempo e Xavi despediu-se do seu clube aos 35 anos. E que despedida! No último jogo com a camisola "blaugrana", tal como numa história de encantar, Xavi levantou a Liga dos Campeões. Que final de carreira no seu clube do coração, que se tornou a sua segunda pele! "Esgotaram-se os elogios. Ninguém se pode comparar com ele em relação àquilo que representa como pessoa e como jogador. É um verdadeiro prazer e um privilégio ter jogado ao lado dele toda a minha carreira." Don Andrés Iniesta dixit!

No ocaso da carreira, Xavi deixou o Barcelona e rumou ao Qatar para representar o Al-Sadd, em 2015. Além da "reforma dourada", o catalão tinha também a intenção de iniciar as suas qualificações para treinador. Um futebol menos mediático e com menos pressão, onde pudesse aprender os primeiros passos até finalmente caminhar com firmeza. Xavi representou o Al-Sadd como jogador durante 4 temporadas, onde se tornou capitão e conquistou ainda 4 títulos, entre os quais 1 campeonato do Qatar. Até que em Maio passado, Xavi decide colocar um ponto final na carreira de futebolista, para pouco mais de uma semana depois ser anunciado como técnico principal do Al-Sadd, sucedendo a Jesualdo Ferreira.

Xavi já dá os primeiros passos como treinador e a imprensa, com toda a naturalidade, já fala no Barcelona. O mau arranque na La Liga e as eliminações humilhantes nas duas últimas edições da Liga dos Campeões, em Roma e em Liverpool, não abonam nada a favor de Ernesto Valverde. O próprio Xavi já admitiu que o Barcelona é um objectivo, mas nunca uma obsessão.

A grande questão não é se um dia treinará o Barça, mas sim quando chegará a treinador principal do gigante catalão. O próprio já confessou o estilo de jogo que o fascina: a filosofia implementada e desenvolvida há já muitos anos em La Masia, sob a influência de Johan Cruyff. " Adoro equipas que tomam iniciativa. Adoro futebol de ataque e voltar à essência do que todos adoravamos na nossa infância, a posse da bola." Por isso, podemos afirmar que são duas peças de um puzzle que se encaixam perfeitamente. O Barcelona é um clube único com uma identidade muito própria, mas que recentemente não tem aproveitado devidamente a sua "cantera" e, acima de tudo, não tem jogado à Barcelona. E Xavi é Barça! Catalão de gema, "culé" desde o berço, bandeira do clube e de La Masia, tem tudo o que é preciso para reforçar uma história lendária que Johan Cruyff criou e que Pep Guardiola continuou.

Visca el Xavi!

Miguel Batista (A Economia do Golo)*

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico.

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

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