America Countdown... 93 dias. Uma criança chamada Donald Trump

Germano Almeida, autor de quatro livros sobre presidências americanas, faz na TSF uma contagem decrescente para as eleições nos Estados Unidos. Uma crónica com os principais destaques da corrida à Casa Branca para acompanhar todos os dias.

1 - SÓ AS CRIANÇAS DIZEM "NÃO VALEU!" QUANDO PERCEBEM QUE VÃO PERDER. AS CRIANÇAS E DONALD TRUMP

O que dizem as crianças quando percebem que vão perder um jogo? Geralmente uma de duas frases (ou as duas, de seguida): "Não valeu!" e "vamos repetir!". Já muitos disseram que Donald Trump revela comportamentos de uma criança de sete ou oito anos. A ameaça em forma de suposta exigência de querer adiar as eleições revela isso. Talvez agora dê para perceber um pouco melhor que não era um exagero quando, ao longo destes quatro anos, fui dizendo e escrevendo que "Isto Não é Bem um Presidente dos EUA". Não é mesmo. Candidatos com argumentos demagógicos e populistas já houve alguns. Candidatos que mentem ou não cumprem promessas eleitorais depois de vencer é pão nosso de cada dia. Mas candidatos presidenciais, para mais presidentes incumbentes, a recusar o destino de uma muito provável derrota, usando argumentos que atiram para a lama as instituições e o processo eleitoral, é novo. Não é coisa é menor. Não é "uma metáfora". É mesmo uma vergonha. E olhem que é muito raro usar essa palavra, para mais por escrito. Mas é o que é: uma vergonha. Que bicho terá mordido ao eleitorado americano para terem escolhido alguém com este perfil e comportamento para Presidente?

2 - NÃO SEI SE ESTÃO BEM A VER

Que consequências podem decorrer deste comportamento absolutamente irresponsável do Presidente dos Estados Unidos? Vamos por partes. "A data da eleição está escrita na pedra", disse Mitch McConnell, colocando de parte qualquer cumplicidade dos congressistas republicanas com Trump neste tema disparatado. Outros congressistas republicanos de relevo, como John Thune (líder da minoria na Câmara dos Representantes) e Lindsey Graham, senador da Carolina do Sul e aliado do Presidente, mostraram-se até um pouco admirados com a posição de Trump em relação a este tema. A lei é clara: a eleição presidencial é para fazer na primeira terça-feira depois de 1 de novembro do ano eleitoral. Nem na Guerra Civil isso não foi respeitado. Trump sabe que se a eleição fosse adiada ele não continuava Presidente (o seu mandato expira a 20 de janeiro 2021). Porque é que está a fazer isto então? Para manchar o processo eleitoral. Para justificar a derrota, que neste momento pode ser grande, com uma suposta "fraude", que sabe perfeitamente não existir. Ele próprio, nos últimos três anos, votou três vezes por correspondência: para a câmara de Nova Iorque, para o Congresso em 2018, e em si próprio, nas primárias republicanas na Florida. Trump quer energizar a sua base, dar-lhes argumentos para se indignarem contra "o sistema". Mesmo que perca por muitos, haverá muitas dezenas de milhões de pessoas a votar nele. E uma parte significativa acredita nesta irresponsabilidade. Os EUA são um país com regras, leis, tribunais e militares. Se Joe Biden ganhar será, certamente, Presidente e tomará posse a 20 de janeiro 2021. Mas Trump -- no culminar de uma cultura de irresponsabilidade em que a responsabilidade dos falhanços "é sempre dos outros", mesmo que seja óbvio que tenha sido ele -- fará tudo para contaminar o processo, recusando uma transição pacífica, em mais uma vandalização do legado dos seus antecessores. Eleger alguém como Donald Trump tem consequências graves -- e sentiremos isso até ao fim. Mesmo.

UMA INTERROGAÇÃO: Vai a Economia americana recuperar o suficiente até novembro a tempo de evitar uma quase inevitável derrota de Donald Trump, que fazia dos números económicos o seu maior trunfo?

UM ESTADO: Virgínia

Resultado em 2016: Hillary 49,8%-Trump 44,4%

Resultado em 2012: Obama 51,2%-Romney 47,3%

Resultado em 2008: Obama 52,6%-McCain 46,3%

Resultado em 2004: Bush 53,8%-Kerry 45,6%-

(nas últimas 12 eleições presidenciais, 3 vitórias democratas, 9 republicanas - MAS AS ÚLTIMAS TRÊS FORAM DEMOCRATAS)

-- A Virgínia tem 8,6 milhões de habitantes: 61,2% brancos, 6,9% hispânicos, 19,9% negros, 9,8% asiáticos; 50,8% mulheres

13 VOTOS NO COLÉGIO ELEITORAL

UMA SONDAGEM: Virgínia -- Biden 51/Trump 39

(Roanoke College 3-17 maio)

* autor de quatro livros sobre presidências americanas

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