Bolsonaro gera crise ao convocar manifestação a seu favor e contra o Congresso

Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva, um juiz do supremo e até um general ex-ministro do atual governo demonstraram preocupação. Na chamada à população são usadas imagens das forças armadas.

Jair Bolsonaro partilhou uma convocatória para uma manifestação no dia 15 de março contra o Congresso Nacional e a favor do próprio Jair Bolsonaro. A situação tem gerado reações fortes, por fazer antever uma crise institucional entre os poderes executivo e legislativo e pelos termos em que é feita.

Em vídeo, com imagens da facada sofrida pelo presidente da República, fotografias de membros do exército e o hino nacional do Brasil como música de fundo, o texto diz o seguinte: "Ele foi chamado a lutar por nós. Ele comprou a briga por nós. Ele desafiou os poderosos por nós. Ele quase morreu por nós. Ele está enfrentando a esquerda corrupta e sanguinária por nós. Ele sofre mentiras e calúnias por fazer o melhor para nós. Ele é a nossa única esperança de dias cada vez melhores. Ele precisa do nosso apoio nas ruas. Dia 15 de março vamos mostrar a força da família brasileira. Vamos mostrar que apoiamos Bolsonaro e rejeitamos os inimigos do Brasil. Somos sim capazes e temos um presidente trabalhador, incansável, cristão, patriota, capaz, justo, incorruptível. Dia 15 de março todos nas ruas apoiando Bolsonaro".

Assinam a convocatória, além de Bolsonaro, o ministro do gabinete de segurança institucional, Augusto Heleno, com referência às suas patentes militares - "Gen Heleno" e "Cap Bolsonaro".

O Presidente da República do Brasil, país que viveu sob ditadura militar de 1964 a 1985, partilhou em grupos de Whatsapp a chamada aos seus apoiantes. Mais tarde, disse que "era uma mensagem de cunho pessoal".

"Tenho 35 milhões de seguidores nas minhas medias sociais, com notícias não divulgadas por parte da imprensa tradicional. No Whatsapp, algumas dezenas de amigos trocamos mensagens de cunho pessoal. Qualquer ilação fora desse contexto são tentativas rasteiras de tumultuar a República".

Como mote para a manifestação estão conflitos entre o Governo e o Congresso Nacional, a propósito de questões orçamentárias. Na semana passada, o General Heleno foi gravado numa cerimónia pública pelo próprio sistema de áudio do Palácio do Planalto a dizer que não aceitava "chantagens do Congresso", terminado com um "foda-se!" que deu que falar.

Para Miguel Reale Junior, um dos três juristas que subscreveram impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a partilha deste vídeo é passível de impedimento. "É contrário ao que está estabelecido no artigo 85 da constituição, no qual se diz que constitui hipótese de impeachment a afronta ao exercício dos poderes da República".

Os antigos presidentes Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso foram dos primeiros a reagir: "É uma crise institucional de consequências gravíssimas (...) Calar seria concordar. Melhor gritar enquanto se tem voz", escreveu Cardoso. Para Lula, "é urgente que o Congresso Nacional, as instituições e a sociedade se posicionem diante de mais esse ataque para defender a democracia".

O general Santos Cruz, demitido do Governo por conflito com um dos filhos do presidente, o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro, protestou contra o uso de imagens das forças armadas na convocatória. "É uma irresponsabilidade".

O ex-presidenciável e ex-ministro Ciro Gomes considerou "criminoso" incitar a população com "mentiras contra as instituições democráticas".

Celso de Mello, o mais antigo dos juízes do Supremo, disse que é a prova que Bolsonaro "não está à altura do altíssimo cargo que exerce".

Parlamentares aliados do governo, entretanto, partilharam as convocatórias e anunciaram a sua presença nos atos de 15 de março.

(Notícia atualizada às 14h29)

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