Na era da Internet, o Periódico de España aposta no papel

Nasce um novo diário espanhol, com uma edição impressa distribuída em Madrid.

A ameaça é antiga: os jornais em papel têm os dias contados. Mas, do outro lado da fronteira, apesar do domínio da internet, ainda há quem aposte neste formato. O Periódico de España acaba de nascer, e vai chegar às bancas de Madrid todos os dias. Parte do Grupo Prensa Ibérica, o grupo de comunicação com maior presença em todo o país, com jornais digitais em quase todas as comunidades autónomas, a edição em papel será distribuída apenas na capital.

"Vamos ter uma edição em papel, está limitada a Madrid, e a uma edição digital para toda a Espanha. O grupo tem jornais regionais por todo o país e não tinha sentido fazê-lo de outra forma. Até porque os regionais podem usar os nossos conteúdos também", explica o diretor, Fernando Garea.

Começam com uma redação de 40 jornalistas, mas Garea frisa que, na verdade, serão o espelho do trabalho dos 1200 jornalistas que trabalham em todos os meios do grupo. Porque, apesar de nascer no centro de Madrid, quer ser um jornal "descentralizador". "Na nossa edição online queremos ser um espelho da Espanha plural. Que os leitores de Múrcia possa ler as notícias da Galiza e vice-versa. Às vezes, os jornais nacionais têm tendência para contar apenas o que se passa em Madrid e nós pretendemos ampliar o olhar e ser a soma de todos esses jornais regionais", conta.

Fernando Garea fez parte das redações mais importantes do país. Foi jornalista do Diário 16, fundador do jornal El Mundo, escreveu no El País e foi diretor da Agência EFE, de onde foi afastado pelo Governo, numa atitude que causou muita polémica em Espanha. À saída, frisou que "uma agência pública de notícias não é uma agência de notícias do Governo" e reivindicou a independência jornalística que agora que fazer vingar no meio que dirige.

"Todos os poderes tentam interferir e dizer o que se pode publicar e o que não. O que temos que fazer é criar mecanismos que possam servir de muro de contenção: um, o apoio do editor, que ajude a aguentar essas pressões, e um conselho de redação forte, que também vamos ter", analisa. "Depois há um elemento fundamental que é a independência económica: se um jornal estiver bem economicamente, pode tomar decisões arriscadas."

Por isso, a edição digital do Periódico de Espanha começa por ser de acesso gratuito, mas, dentro de umas semanas, será necessário assinatura para aceder aos seus conteúdos. Será um jornal com o foco nas novas narrativas, na reportagem e na informação, mais do que na análise ou na opinião. "Gostamos dos temas que têm a ver com os interesses dos cidadãos mais próximos, mais do que os temas políticos que só importam a uns poucos. E depois acho que há uma aposta muito interessante que é a de fazer reportagens quase todos os dias. Os vídeos, os gráficos e as novas narrativas vão ser presença habitual também", conta o diretor.

No meio da atualidade política, que em Espanha nunca desce o tom de discussão e alimenta há anos um ambiente crispado e de tensão, o Periódico de España pretende ser um meio com uma visão diferente, e contribuir para uma visão menos exaltada. "Temos muita responsabilidade no ambiente que vive a sociedade espanhola. Os jornalistas, no geral, passamos parte do dia a queixar-nos de que não há acordos e outra parte do dia a criticar quando alguém muda de opinião para chegar a acordos.... ignorando que mudar de opinião é essencial para conseguir pactos. Temos que mudar o foco do jornalismo", frisa.

Os dados de difusão e audiência atestam uma perda contínua de leitores por parte dos jornais, tanto em papel, como online. De acordo com o relatório anual da Associação para os Meios de Comunicação, em 2020, apenas 18,4% dos espanhóis afirmavam ler um diário. Para diminuir a distância que se foi criando entre os leitores e os meios de comunicação, Fernando Garea não tem fórmulas novas: "A única forma é criar conteúdos que interessem aos cidadãos. Sair dessa bolha de políticos e empresários e abandonar os temas que só interessam a uns poucos para falar do que interessa realmente aos cidadãos. Essa é a única maneira".

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de