"Os eurodeputados portugueses trabalham e honram-nos muito." Palavra de huissier do Parlamento Europeu
Estrasburgo

"Os eurodeputados portugueses trabalham e honram-nos muito." Palavra de huissier do Parlamento Europeu

Por vezes, Francisco Falcão tem de fazer esforços para conter a comoção, em especial quando são proferidos os discursos mais mobilizadores ou são tratados os temas que mais desesperança transmitem. Desde 2009 é o responsável pela unidade portuguesa de interpretação no Parlamento Europeu, mas trabalha nas cabines, a fazer interpretação simultânea, há 25 anos. As novidades "lá de Bruxelas" chegam a Portugal de outra forma, mais simplificada, admite. Mais distante, também. No calor do momento, é diferente. O "lá em Bruxelas" é perto, muito perto dos sonhos tangíveis. "Temos de controlar as emoções. No fundo, é como a representação; um ator também não se pode deixar tomar pelas emoções, tem de continuar o seu trabalho."

Há reuniões em que se passa por "coisas difíceis", como recordar o 11 de setembro, e os anos de experiência de vida - 60 desde o nascimento, 25 desde a imersão na realidade europeia - não amenizam o entusiasmo. No Parlamento Europeu, há os intérpretes que fazem tradução escrita e os que fazem interpretação de conferência, como é o caso de Francisco. "O nosso trabalho é ajudar na comunicação entre os deputados portugueses, assistentes e outros colaboradores, nas reuniões, que são multilíngues, onde cada deputado poderá falar na sua língua, se assim o entender", aclara. É também responsável por possibilitar que os eurodeputados portugueses ouçam os debates na língua materna, de uma forma "fiel, rigorosa, clara e completa".

"É um prazer trabalhar no Parlamento Europeu, porque tem uma componente política, mas também há reuniões muito variadas com caráter técnico, tratamos temas da atualidade", reconhece o chefe da unidade portuguesa de interpretação no Parlamento Europeu. É um "prazer", mas também uma responsabilidade que Francisco Falcão sente na pele. "É fundamental ter curiosidade intelectual e estar sempre a par do que se passa, não apenas nas instituições e na Europa, como dos temas da atualidade. Consumimos muito o trabalho dos jornalistas, muito jornal, para estarmos à altura do desafio que é estar nas reuniões do Parlamento Europeu."

Para o intérprete, a responsabilidade das funções que desempenha é "fazer sentir que o Parlamento Europeu não é uma construção cinzenta e afastada, e cujo trabalho tem influência na vida do cidadão europeu", e Francisco Falcão vê-o assim, como uma "emanação dos cidadãos", pelo que todos "têm de se sentir representados pelos eurodeputados que elegeram".

Ser "a voz em português dentro da construção europeia" também implica contribuir para que haja um arquivo media com a interpretação em português das sessões plenárias, o que radica num duplo sentido de dever, já que os cidadãos devem poder ouvir a interpretação adequada do que está a ser discutido.

Francisco Falcão ainda se sente intrigado, maravilhado, quando vê como posições muito afastadas acabam por se encontrar num consenso: é "fascinante, é o que é a Europa", sintetiza. Ainda assistiu à queda do muro de Berlim, à reunificação da Alemanha, e a momentos marcantes como a assinatura do Tratado de Lisboa, "particularmente importante" por ter dado ao Parlamento Europeu uma capacidade interventiva e um reforço de poder, sublinha.

Desde 1990 está ligado ao Parlamento Europeu. "Os tempos eram outros. Em 1990 vir para Bruxelas não é o mesmo que vir em 2020 ou 2021. Não havia internet, as ligações aéreas eram muito mais caras, não tínhamos jornais. Sentíamo-nos desterrados, muito mais longe das famílias e dos amigos." Hoje a componente de aventura e de desconhecido atenuou-se, justamente pela contribuição das conquistas do projeto europeu (o roaming que chegou ao fim, o Erasmus, que permitiu novas experiências na Europa muito mais cedo...).

Francisco Falcão tem muita esperança na construção europeia. "Temos o conhecimento, temos a capacidade, temos é de trabalhar mais em conjunto", assinala. No entanto, começa a escassear mão-de-obra em Bruxelas e Estrasburgo. "Alguns intérpretes chegaram à idade de se reformarem, e estamos à procura de novos talentos para preencher os nossos quadros", explica. Os novos candidatos devem ter um diploma, seja de que curso for, experiência em interpretação ou pós-graduação em interpretação de conferência. Para isso há cursos de interpretação de conferência, nomeadamente no Porto, recomenda o responsável.

Carlos Cordeiro, 62 anos, natural do Porto, era funcionário público, no Ministério da Agricultura, e já tinha trabalhado no antigo matadouro industrial do Porto, quando "uns amigos tiveram a felicidade de ter conhecimento deste concurso, em 1986", para trabalhar no Parlamento Europeu. Não houve hesitações: no final de uma jantarada, preencheu o formulário. "Quando surgiu a oportunidade, eu agarrei-a. Não foi nada planeado, foi uma coisa que aconteceu... Isso obviamente mudou a minha vida. Todos nós temos de seguir um apelo, não temos o direito de lhe voltar as costas."

O concurso, publicado no jornal oficial das comunidades, que por todos pode ser consultado, pedia aos candidatos que falassem três línguas. Carlos Cordeiro falava a língua materna, o francês e o inglês, e o resto aprendeu com a experiência, acumulada ao longo de décadas, enquanto huissier no Parlamento Europeu. "Contínuo parlamentar" não explica tudo o que faz parte das suas incumbências, por isso o termo francês - a sua segunda língua e também europeia - ajuda a ilustrar. "Estamos na base da pirâmide. Somos os primeiros a contactar quem chega, somos os primeiros a receber, os primeiros a orientar as pessoas. Somos aqueles através dos quais vai perdurar ou não aquela boa impressão com que se deve ficar."

Enquanto huissier no Parlamento, está presente em todos os eventos, organizações e conferências, "tanto nas reuniões que podem ser de menor expressão pública, como nas de maior repercussão".

"Somos nós que organizamos, que passamos as mensagens, que ajudamos a estabelecer o contacto entre quem já está cá e os visitantes. Somos uma espécie de vaso comunicante que, não sendo primordial no desenrolar das reuniões e dos eventos, é essencial para que esses eventos ganhem forma e tenham depois a boa substância e os objetivos cumpridos." Quem visita o Parlamento Europeu distingue facilmente estes guardiões de todas as atividades dos edifícios. Carlos Cordeiro utiliza "com orgulho" o fraque nas cerimónias de mais elevado índice protocolar, isto é, nas sessões parlamentares. O branco e o negro estabelecem o contraste que se iniciou por tradição francesa, como homenagem a Simone Veil, a primeira presidente mulher do Parlamento Europeu, que era francesa.

São edifícios grandes, quase labirínticos, com muitos pisos, gabinetes, e tudo é tão simétrico que o sentido de orientação pode falhar. "Perder-me não me perco mas não sei tudo. Às vezes, acontece-me fazerem-me perguntas e ter de pensar um bom pedaço."

No Parlamento Europeu desde fevereiro de 1990, o "contínuo parlamentar" reconhece que desempenha "uma função de grande responsabilidade, mas é também uma função muito gratificante", que coloca, contudo, em planos distintos do que é feito politicamente na arena da construção europeia. "Sabe o que acho que as pessoas deveriam saber? A enorme capacidade de todos, mas de todos. Estou cá há muitos anos, e não tem que ver com a cor política dos deputados. São extremamente trabalhadores, honram-nos a todos, fazem imenso trabalho e são muito bem vistos."

"Sinto-me honrado por ter tido um presidente da Comissão que era português [Durão Barroso], honrado quando vejo que uma senhora que foi deputada durante anos é hoje comissária [Elisa Ferreira], honrado quando vejo um português como secretário-geral das Nações Unidas [António Guterres], honrado pelo papel que teve Jorge Sampaio junto de uma grande instituição internacional [ONU]..." Honrado e orgulhoso, acreditando que "sentir a camisola do espírito europeu é engrandecedor" e que "todos temos alma europeia, profundamente marcada a partir do momento em que pomos o pé no Parlamento Europeu", é com "enorme satisfação e alegria" que Carlos Cordeiro sente o cargo que ocupa, mas volta sempre ao elogio dos representantes portugueses na política da Europa: "Todos os portugueses devem sentir-se contentes e felizes, porque, independentemente do grupo político em que se encontram, os eurodeputados portugueses trabalham muito e honram-nos, trabalham muito para a construção europeia."

"Trabalham todos para defender os interesses da Europa, e conseguem defender ao mesmo tempo os interesses de Portugal. Quanto a isso não tenham a mais pequena espécie de dúvida. Eu, como funcionário, sinto-me honrado por termos estes eurodeputados, que nos enaltecem. Vemo-los nos diferentes grupos de trabalho a lutar pelo bem comum."

Em três décadas de trabalho, muitos momentos já o comoveram e mobilizaram, como "o funeral do chanceler alemão Helmut Kohl, que manifestou o desejo, que depois foi cumprido, de ter as cerimónias fúnebres aqui, no Parlamento".

"Aí não era o chanceler alemão. Era a união toda sentida por toda a gente em torno de alguém que contribuiu para o engrandecimento e para a construção europeia." Também as visitas dos Presidentes da República Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa o "engrandeceram": "Vibrar com os seus discursos tocou-me com muita intensidade." Diz ter-se sentido "inseguro" aquando dos atentados de dezembro de 2018, em Estrasburgo. "Estava a trabalhar, e quem estava a trabalhar não podia sair. Estivemos aqui até às 04h00, e preocupados com quem sabíamos que devia voltar e que não voltou..."

E o incontornável 11 de setembro de 2001 também teve um impacto incomensurável, reflete. "Foi muito tocante saber o que estava a acontecer, e as pessoas no Parlamento tiveram de reagir - e reagiram - de uma forma emocional..."

Apesar da evolução do mundo, da escalada da ameaça terrorista, invisível, Carlos Cordeiro garante que se sente seguro a trabalhar na instituição europeia. "Do ponto de vista mediático, é óbvio que atingir uma instituição tem uma amplitude maior. Em casos de terrorismo, seremos sempre um alvo mediático. Mas quando entramos notamos que há uma preocupação com o nosso bem-estar e com a nossa segurança."

Desde 1990 até aos dias de hoje os procedimentos para as entradas e as saídas mudaram muito. "Há um controlo muito grande. Eu sinto-me seguro a trabalhar no Parlamento Europeu."

Carlos Cordeiro lamenta que, perante a importância do que é decidido no Parlamento Europeu, "haja tão poucos programas a dar conta do que se passa aqui, dos debates europeus".

"Vimos as eleições europeias, e qual foi a percentagem do debate em que se falou de políticas europeias e do que se passou aqui?" Por isso, o huissier pede às pessoas "que se interessem cada vez mais pelo que acontece na Europa e que se sintam cada vez mais indissociáveis das decisões que aqui são tomadas, que cada vez mais se sintam europeias, que é algo que as engrandece enquanto portuguesas". Há, no entanto, motivos para se ser esperançoso, assegura o "contínuo parlamentar" português: "A pandemia veio reforçar a ligação com a Europa, a noção de que o futuro se faz com a Europa."

Entre funcionários e assistentes, muitos portugueses trabalham nas instituições europeias de Bruxelas e Estrasburgo. "A partir do momento em que seja quem for entre para uma instituição europeia, há um sentimento muito forte, um apelo para trabalharmos todos para um bem comum. Há um espírito de equipa muito forte e uma diplomacia a que nos deveríamos todos habituar, até por estarmos a trabalhar com pessoas de diferentes origens europeias."

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