"O racismo é um problema que faz parte da vida americana há 400 anos", afirma o escritor
Entrevista

Paul Auster: "Se Trump for reeleito, os Estados Unidos acabam"

O autor da trilogia de Nova Iorque está zangado com o que tem acontecido nos Estados Unidos. Em entrevista à TSF, avisa que, caso Trump seja reeleito, abandona o país.

Pode 2020 ter sido inspirado num livro de Paul Auster? Apesar das semelhanças, o autor garante que não. Confinado há três meses, foi a partir da cave de casa, em Nova Iorque, que Paul Auster falou com a TSF e aproveitou para deixar bem claro que a gestão republicana da crise pandémica o deixa furioso, ao ponto de ver Joe Biden como um bom sucessor.

O escritor, traduzido em mais de 40 idiomas, diz que há duas Américas que não falam a mesma língua, garante até que nos seus 73 anos de vida nunca viu o país tão dividido. De resto, pensa que os Estados Unidos nunca foram sequer uma democracia.

Para o antigo ativista contra a Guerra do Vietname, derrubar estátuas não resolve o problema do racismo no país. Pode dar uma ajuda, mas a segregação tem raízes mais profundas na história do país.

Como tem passado estes dias, como é que se tem sentido com tudo o que está a acontecer nos Estados Unidos?

Bom, essa é uma pergunta muito boa. A verdade é que não sei muito bem como me sinto. Tenho vivido, como todos aqui nos Estados Unidos, emoções tão diferentes ao longo destes últimos meses, que é difícil descrevê-las todas. Em Nova Iorque, ainda estamos confinados e eu e a minha mulher Siri Hustvedt quase não saímos de casa desde o início de março. É claro que não estou a queixar-me. Para pessoas como nós, estar sozinho com o nosso trabalho não é uma dificuldade.

O que me tem motivado é um sentimento de raiva, quase de ódio contra o Governo. Contra a forma como o Governo federal lidou com esta pandemia, demitindo-se de todas as responsabilidade, virando costas ao problema. Esta é uma situação de emergência nacional e tem de ser tratada como tal. É realmente um espetáculo muito triste a forma como o Governo de Trump lida com tudo e principalmente com esta crise, que é a maior que já enfrentámos.

A Administração Trump simplesmente recusou ter qualquer envolvimento. É como se no 11 de Setembro, depois de os aviões terem derrubado o World Trade Center, o Presidente ligasse ao governador do Estado de Nova Iorque e dissesse: "Bem, isto na realidade aconteceu em Nova Iorque, portanto é você que vai ter de lidar com isto. Não é um problema nacional, é um problema vosso e vocês é que vão ter de o resolver." E penso que, na verdade, foi isso que Trump fez. Ele deve ter feito essa chamada telefónica 50 vezes. Deve ter dito isso a todos os governadores estaduais.

Não houve uma resposta coordenada, ou um plano comum, para agir contra o que está a acontecer. Cada estado está a atuar à sua maneira, muitas vezes em flagrante contradição com o que outros estados estão a fazer. Penso que é por isso que temos mais mortos e mais casos de infeção neste país do que em quase qualquer outro país do mundo. Os números oficiais dizem que temos cerca de 130 mil mortos e 2,5 milhões de infeções diagnosticadas, mas a verdade é que o número de pessoas infetadas é muito superior. Eu conheço pelo menos 20 pessoas em Nova Iorque que já estiveram doentes e não fazem parte das estatísticas. Portanto, os números que lemos no jornal não são um reflexo da realidade.

Tudo o que descrevi faz com que a minha raiva seja tão grande que me concentrei na necessidade absoluta de preparar as eleições presidenciais de novembro e derrotar os republicanos. Tirá-los do Governo para que possamos começar a unir novamente o país.

Além de mais, agora há uma crise económica criada por este desastre sanitário. E, mais uma vez, não há um plano nacional. Havia uma medida, aprovada muito cedo, que dava algum alívio aos trabalhadores e às empresas. Mas a verdade é que essas medidas, anunciadas em março, para dar algum apoio aos mais frágeis, sobretudo aqueles que perderam o trabalho, ainda não chegaram às pessoas. Muitas ainda não viram o dinheiro. As pessoas ainda estão à espera e algumas estão desesperadas porque já não têm sequer para comer. Os republicanos, que fingem que não há nenhum problema, recusam-se a aprovar mais ajudas.

Se o vírus continuar a espalhar-se por muitas partes do país - e os cientistas estão preocupados com uma nova onda do vírus no outono - e houver ainda mais casos, então estaremos a olhar para uma situação verdadeiramente desesperante. Na realidade, se isso acontecer, nem consigo imaginar o quão surreais as coisas podem tornar-se aqui, nos Estados Unidos.

Como se tudo isto não bastasse, ainda tivemos o assassinato de George Floyd, que se tornou uma ocasião para uma reavaliação universal das relações raciais nos Estados Unidos. Mas isso até é um aspeto positivo. Finalmente, as pessoas começam a prestar atenção à questão do racismo, no entanto, esse é um problema que faz parte da vida americana há 400 anos. É uma questão que começou antes mesmo de os Estados Unidos serem um país. Chegou quando éramos apenas colónias de Inglaterra. Começou com o tráfico de escravos. Quando o primeiro escravo africano chegou à América. É um problema que tem 401 anos.

Por isso, sinto-me emocionado ou encorajado (não sei bem) pela enorme libertação de raiva, pelas manifestações e pela coligação entre brancos, negros e mestiços. Este não é um problema dos negros. Este é um problema dos brancos e é bom ver que os brancos estão envolvidos nestes protestos. Logo, isso é positivo, mas, ao mesmo tempo - é por isso que não sei o que sinto -, é arrepiante ver estas boas pessoas reunirem-se, em tão grande número, e saírem à rua, manifestarem-se todos os dias, mesmo correndo o risco de contraírem o vírus. Estou... sinto-me... rasgado. Rasgado de cem maneiras diferentes. Realmente não sei o que pensar, limito-me a assistir ao triste espetáculo em que nos tornámos enquanto país e estou só à espera. A ver no que vai dar tudo isto. Isto é apenas o início, ainda há muito mais para vir.

Voltando à pandemia, o que é que leva o Governo federal a agir desta forma, a virar costas perante uma crise como esta?

Para saber isso, temos de olhar um pouco para a história dos Estados Unidos. Para entender como é que foi possível termos os Governos que tivemos nos últimos 50 ou 60 anos. Ao mesmo tempo que o movimento dos direitos civis ganhava força, houve um movimento republicano, de direita muito radical, nos Estados Unidos, que elegeu vários Presidentes. Começou com Nixon e depois, mais dramaticamente, passou por Ronald Reagan, em 1980. Reagan dizia, há 40 anos, que o Governo é o problema. "O Governo não está lá para ajudar. É o problema e temos de livrar-nos do Governo". Ou seja, no fundo, é isso que os Republicanos têm dito desde há muito tempo.

Eles querem um Governo federal que não faça nada por ninguém, que só tenha um exército para defender o país contra um ataque de uma potência estrangeira. E fizeram tudo o que podiam para, pouco a pouco, minar todas as regras, regulamentos e todos os apoios às pessoas mais necessitadas, que não têm dinheiro nem emprego. E assim chegámos a este ponto em que, no pensamento deles, a mera ideia de fazer qualquer coisa a nível nacional e gastar dinheiro com isso é inaceitável. É contra todas as suas crenças. O instinto natural deles é apenas dizer "não", "não vamos fazer nada a esse respeito". É aqui que estamos há muito tempo.

Quando Trump foi eleito, há três anos e meio, ele obviamente não acreditava em nada, mas aliou-se a esses republicanos. Eles estão a usá-lo para cumprir o plano - o sonho - de destruir o Governo. E Trump está a usá-los para tentar obter apoios e ser reeleito. É um pacto entre dois demónios para criar uma situação muito diabólica. Nos últimos três anos e meio que Donald Trump leva no cargo, eles destruíram a Agência de Proteção Ambiental, dilaceraram o Departamento de Estado, têm uma secretária do Trabalho que é contra os interesses dos trabalhadores, têm uma secretária da Educação que é contra as escolas públicas. Eles estão a desmontar e desmantelar o país inteiro. Desde sempre tive medo que isso acontecesse, e agora aconteceu.

Logo após a eleição de Trump, em novembro de 2016, fui entrevistado por uma televisão britânica. Eles vieram aqui, a minha casa, e perguntaram-me: "Então o que é que você acha? O que é que você espera que aconteça agora?". Eu disse: "Bem, este é o momento em que temo por todos esses anos, os 240 anos, em que os Estados Unidos têm sido um país, exceto a Guerra Civil. Digamos que, desde 1865, as pessoas tendem a acreditar nas instituições do país. Por outras palavras, na Constituição, o Estado de Direito, a alternância pacífica do poder e todas as coisas que fizeram da América um país mais ou menos sólido ao longo destes anos. As pessoas acreditam que as instituições são sólidas como prédios de granito". Depois acrescentei: "E se esses prédios de pedra fossem realmente feitos de sabão e Trump e o seu Governo entrassem, apontassem as mangueiras para os prédios e a água atingisse o sabão, e o sabão começasse a derreter e os prédios se tornassem cada vez mais pequenos e, de repente, nas ruas, houvesse apenas espuma nas sarjetas?" Bom, hoje digo que, em três anos e meio, as mangueiras reduziram os prédios em cerca de 30 ou 40%. Foi muito rápido.

Quase não resta Governo, e é por isso que sabemos que eles são incapazes de responder a esta crise. Por exemplo, quando chegou ao Governo, Barack Obama elaborou um programa de 80 páginas sobre como lidar com uma pandemia. Toda a gente sabia que isso estava para acontecer. Quero dizer, os cientistas alertavam para isso há vários anos. É claro que o pessoal do Trump deitou fora o plano (ou deixou-o na gaveta) sem nunca olhar para ele, nem fazer nada para o substituir. Depois, o Governo cortou as verbas destinadas à equipa de combate a pandemias. Tudo isto enfraqueceu o Centro de Controle de Doenças (que era a organização científica mais respeitada nos Estados Unidos) ao ponto de eles não serem sequer capazes de fazer testes no início do surto.

Essa incapacidade para fazer testes foi fatal para nós. Perdemos muito tempo com isso. Havia testes disponibilizados pela Organização Mundial da Saúde que funcionavam. Mas é claro que nós não queríamos testes estrangeiros. Queríamos o nosso próprio teste, mas não o fazemos porque já não estamos mais preparados para fazê-lo, porque não temos as pessoas certas, ou em número suficiente, encarregadas dessas coisas. Eu podia continuar durante 10 horas só a falar destes erros, mas, enfim, é aqui que estamos. É aqui que estamos há muito tempo, há demasiado tempo.

Por trás de toda esta incompetência, esconde-se o racismo, os sentimentos anti-imigração e uma cultura de guerra cultural mais distinta, mais separada. Mas estamos mais divididos do que alguma vez estivemos em toda a minha vida, e isso já é dizer muito. Agora temos duas Américas e os dois lados nem conseguem comunicar entre si. Nós falamos línguas diferentes e isso é uma forma muito perigosa de um país estar. Já temos todos estes mortos, mas haverá mais e mais mortos. Este é o resultado.

Mas mais uma vez os mais prejudicados foram pessoas de bairros desfavorecidos.

Sim, isso está tudo documentado. Os pobres são os mais vulneráveis. O número de negros que morreram da pandemia é proporcionalmente muito maior do que o de brancos. Isso é uma coisa muito interessante. Durante a quarentena, quando ninguém estava realmente a trabalhar, as únicas pessoas que foram trabalhar foram os que chamamos trabalhadores essenciais. Esses trabalhadores essenciais eram as pessoas que trabalhavam, por exemplo, nos hospitais ou condutores de ambulâncias, mas também as pessoas que trabalhavam na agricultura, que fizeram as colheitas dos alimentos que iam para as casas das pessoas.

Isto significa que os motoristas, as pessoas das mercearias e supermercados continuaram todos a trabalhar. Todas estas pessoas, que têm os empregos mais baixos, são geralmente negras, hispânicas, ou de outras minorias. Muitos deles nem sequer têm direitos, são imigrantes ilegais, especialmente os trabalhadores agrícolas, e essas pessoas, as mais baixas da escala do nosso país faminto por dinheiro e doido pelo capitalismo, são aquelas de que depende a nossa sobrevivência.

Penso que isto também serviu para abrir os olhos a muitas pessoas. Para nos fazer entender que todos estamos ligados, que todos somos dependentes uns dos outros para sobreviver. E se não tratarmos as pessoas que fazem esses trabalhos essenciais corretamente, se não lhes pagarmos um salário justo, se não os tratarmos com justiça, então teremos uma sociedade corrupta e má, e acho que a pandemia deixou isso bem claro. Pelo menos para um muitas pessoas, mas as suficientes para que eu pense que há, novamente, a possibilidade de ser feita legislação para mudar muitas dessas coisas.

A Administração Trump vai ser castigada, nas presidenciais de novembro, pela forma como tem gerido os últimos meses?

Acho que os vai prejudicar muito. Penso que muitas pessoas partilham a minha raiva. Penso também que vão ser castigados pela absoluta falta de resposta às manifestações. O exemplo mais dramático foi quando Trump quis dar uma volta perto da Casa Branca, ir à igreja e segurar uma Bíblia - que, diga-se de passagem, segurou de cabeça para baixo -, e a Guarda Nacional recorreu a helicópteros e gás lacrimogéneo para afastar manifestantes pacíficos. Só para que ele pudesse caminhar até onde ele queria ir encenar uma foto. Penso que isso bastou para mostrar ao povo americano a incapacidade de Trump para entender o que está acontecer no país. Ele devia agir como um Presidente, mas não foi isso que aconteceu.

Se as eleições presidenciais fossem hoje, Trump perderia por muitos. Não por poucochinho, mas por uma grande diferença. No entanto, temos muitas preocupações com a possibilidade de haver fraudes. Estamos preocupados com a supressão de eleitores. Temos todo o tipo de preocupações com as eleições. E quem sabe que fraudes é que ainda haverá quando nos aproximarmos do dia das eleições? As pessoas estão preocupadas. As pessoas que estão contra ele estão preocupadas, os democratas e outras pessoas de esquerda estão preocupados. Não sei o que vai, realmente, acontecer. E é por isso que ainda não sei como me sinto. Estou ansioso, talvez. Suponho que é mais isso que sinto do que outra coisa qualquer.

Donald Trump vai entrar para a história como o pior Presidente dos Estados Unidos da América?

Mais do que isso, penso que, sem dúvida, é a pior coisa que já aconteceu à vida pública dos Estados Unidos. Sabemos que existem monstros patológicos como ele no mundo. A Siri, com todo os conhecimentos que tem na área da psiquiatria, sabe o que pode fazer o narcisismo maligno, e um tipo como ele é patológico. Ele está louco. Sabemos que existem pessoas assim, mas que 63 milhões de eleitores tenham votado nele para Presidente é algo que me deixa ainda mais perplexo. Isso não. Isso é qualquer coisa...

Fiquei chocado com os Estados Unidos por escolherem isto, apesar de haver pessoas como a Hillary Clinton. Apesar de tudo isto... Qualquer pessoa com um cérebro na cabeça, ou que olhe para este homem com olhos de ver, para as coisas que ele disse e para as coisas que fez, entende que ele não tem qualificações para ser Presidente. Ele não sabe nada.

Acabou de ser revelado o livro de John Bolton, que é uma pessoa terrível, mas trabalhou como conselheiro de segurança nacional. O Bolton conta que Donald Trump certa vez perguntou-lhe: "A Finlândia faz parte da Rússia?". É um ignorante, nem sabia que a Inglaterra, o Reino Unido, possuía armas nucleares. Ele não sabe nada. Não sabe quais são as competências do Governo, nunca leu um livro, nunca leu nada sobre os Estados Unidos.

Quando um jornalista lhe perguntou: "Então, Sr. Presidente, quando está a lidar com problemas, pensa nas pessoas que eram Presidente antes de si e tenta imaginar o que elas teriam feito nessa situação?" A resposta de Trump foi: "Não, claro que não. Nunca penso neles". Isto é um homem... Este é o homem que disse que já fez mais pelos negros da América do que Abraham Lincoln.

Que alguém tão imbecil e fútil exista é normal, mas as pessoas votarem nele é indesculpável. Estou disposto a perdoar os americanos se não votarem nele novamente; se o fizerem outra vez, então não sei. Já não reconhecerei o país em que vivo. Isso significaria que somos um país de idiotas e que merecemos o Governo estúpido que criamos para nós mesmos. Portanto sim, ele é o pior presidente da história dos Estados Unidos.

Como é que se pode voltar a unir o país? Os Estados Unidos ainda são uma democracia?

Na verdade, não. Não. Os Estados Unidos não são, nem nunca foram, uma democracia real porque, inseridas no sistema, temos regras antidemocráticas sobre a forma de governar o país. Por exemplo, o Colégio Eleitoral. Não é o voto popular que elege o Presidente, mas os votos colegiais dados a cada Estado e, portanto, lugares muito pequenos têm um poder muito maior do que o que seu número de habitantes faria supor.

Temos aquela instituição chamada Senado, que faz parte do ramo legislativo da Administração Central. Temos o Congresso e o Senado. O número de congressistas é definido pelo número de eleitores. Portanto, um grande Estado tem mais representantes da Câmara do que um pequeno Estado. Mas todos os Estados, não importa quão grande ou pequeno são, têm dois senadores. Por exemplo, Wyoming tem 500 mil habitantes e dois senadores. A Califórnia tem quase 40 milhões de pessoas e dois senadores. Isto significa que um eleitor do Wyoming vale 80 vezes mais do que um eleitor da Califórnia. Para mim, isso não é democracia e portanto é muito simples: a menos que mudemos estas coisas, nunca seremos uma democracia.

O candidato do Partido Democrata, Joe Biden, é capaz de fazer essas mudanças e voltar a unir o país?

Joe Biden não é um grande candidato. Eu nunca gostei muito dele, mas é o que temos. Se ganhar, vai chamar muitas pessoas válidas. Gente muito boa que será mais jovem e inteligente do que ele, e que vão ajudar a corrigir, a realmente reparar, alguns dos danos causados ao longo dos últimos três anos e meio. Espero também que promulguem leis que têm, desesperadamente, de ser feitas.

É importante que não apenas Joe Biden ganhe, mas que o Senado - novamente o Senado - se torne democrata. Precisamos do Senado para obter qualquer dessas novas leis. Olhando para o panorama nacional, neste momento, acho que há possibilidades muito boas de os Democratas ganharem o Senado, o Congresso, e a Casa Branca. Caso contrário, se Trump continuar no cargo por mais quatro anos, os Estados Unidos terminaram. A grande experiência que todos gostam de chamar democracia terminará. Seria também sinal de que teríamos desistido. Não sei o que farei se isso acontecer. Penso que talvez nesse momento, faça as malas e vá morar para outro lado, porque posso perdoar ao povo americano uma vez por votar neste idiota, mas fazê-lo duas vezes é imperdoável.

Como é que o Paul Auster, que foi um ativista contra a Guerra do Vietname, olha para estas manifestações contra o racismo?

Bem, são uma coisa notável. É também uma combinação de vários fatores e o culminar de todos estes anos de frustração. Para começar, temos o problema da polícia - um problema com o qual já vivemos há muito tempo - e o tratamento injusto dos negros. Tudo isto é bem conhecido (os assassinatos de negros às mãos da polícia), mas o que acho mais incrível é que, desta vez, estamos assim por causa do vídeo. Se as notícias dissessem que um homem, em Minneapolis, George Floyd, foi morto por um polícia que manteve o joelho no pescoço dele por quase nove minutos, não seria chocante. Mas ver a imagem no computador ou na televisão... Depois de ver, é impossível esquecê-lo. O que é curioso, porque a imagem também teve um efeito muito grande no movimento dos direitos civis, na década de 1960. Quando o movimento voltou realmente a funcionar, após anos de silêncio, uma das coisas que ajudou a inflamar o país, e fazer as pessoas entenderem o que estava a acontecer, foram as reportagens de televisão em que se via a polícia a usar cães para atacar manifestantes negros, a espancar pessoas com paus. Todos podiam ver isso, todas as noites, sentados na sala de estar. Isso indignou as pessoas e levou à aprovação de legislação. Estou a pensar, por exemplo no Voter Act e noutros tipos de legislação de direitos civis que foram aprovadas e tornaram a discriminação ilegal. Mas é claro que esse foi apenas o primeiro passo.

Agora estamos a tentar dar o segundo passo e espero que se dê. O que está a acontecer pode, e deve, ter um impacto igual ao do movimento dos direitos civis. Tem de ter, caso contrário continuaremos a ser atormentados por isso.

Outros dos aspetos interessantes no que está a acontecer é o derrube de estátuas e monumentos da guerra civil, que estão por todo o Sul. Essas coisas estão por toda parte e estão lá há mais de 100 anos, o que eu não entendo é como é que isso pode continuar a acontecer. É como se na Alemanha permitissem que estátuas de Hitler, Goering ou Goebbels estivessem em todas as praças centrais das cidade da Baviera. Por exemplo, a bandeira confederada, para mim, é o equivalente a uma suástica, mas ninguém pensa nisto nesse termos. Acho que temos de começar a entender que a escravidão era um crime, um crime repugnante contra outros seres humanos e que ninguém deveria ser levado a pensar que aqueles é que eram os bons tempos.

Voltamos, mais uma vez, à história americana e ao que aconteceu depois da Guerra Civil. Houve um período chamado reconstrução, que durou desde o fim da guerra em 1865 até 1877, em que as tropas do exército Norte, dos Estados Unidos, permaneceram no Sul. Nessa fase, foram aprovadas leis que tornavam os negros iguais e os negros começaram a ir à escola, concorreram a cargos públicos e ganharam, foram donos de propriedades e de negócios. Ao fim destes 12 anos, o Norte cansou-se, mas o Sul nunca parou. E quando o Norte partiu, logo depois de umas eleições presidenciais 'embargadas', fez um compromisso político que se veio a revelar terrível.

E um dos acordos feitos foi o de parar o processo da reconstrução. Foram então aprovadas leis, no Sul, que levaram ao que chamamos de leis de Jim Crow e a segregação tornou-se lei. Isso durou até à década de 1960. Isto mostra que estes problemas estão profundamente enraizados na história do país e é quase impossível livrarmo-nos deles. Depois desse período, nos anos 1880/90 e no início do séc. XX, o Sul começou a promover a nostalgia da "Boa Causa", da "Causa Nobre" e a Confederação passou, em certa medida, a ser considerada admirável.

Qual é o filme mais popular da história americana? E Tudo o Vento Levou. É um filme claramente esclavagista. É um trabalho nojento. Isto mostra que o Sul venceu e continua a vencer. A menos que, realmente, os derrotemos agora e nos livremos das bandeiras e estátuas confederadas, isso continuará a apodrecer-nos por dentro, porque esses são apenas os símbolos de algo muito mais profundo. Tudo tem de mudar, temos de reinventar a forma como vivemos aqui. Não sei se seremos capazes, mas temos de tentar. Porque se não o fizermos, vamos morrer. Vamos acabar muito mal.

Mas como é que isso se faz? Fica-se só pelo derrube dos símbolos? Apesar dos protestos, o racismo e a segregação continuam a acontecer década após década há vários séculos.

As leis têm que mudar, temos de repensar a forma como investimos o dinheiro público. Precisamos de construir boas casas para os mais pobres. Temos de implementar um sistema educativo melhor. Precisamos de acabar com todos os tipos de preconceitos em todos os aspetos da vida do país.

Mesmo para coisas mais básicas, como comprar uma casa, é complicado porque existem leis imobiliárias (a que eles chamam "redlining" ) segregacionistas. Se uma pessoa negra quiser mudar-se para um bairro branco, não pode porque a legislação torna isso impossível. Portanto, continuamos a ser um país segregado. Todas essas coisas, pequenas e grandes, têm de mudar. Isso pode ser feito, mas nunca tivemos vontade de fazê-lo e, por isso, nunca fizemos um grande esforço.

As pessoas falam sobre reparações históricas aos negros. Bem, acho que é uma boa ideia. Mas, em vez de dar a cada negro dez ou cinquenta mil dólares, devíamos era dedicar muitos milhões de dólares a reorganizar a sociedade, para que os negros tenham o seu lugar justo.

Até que ponto a brutalidade policial é um problema na sociedade americana?

É um grande problema. É grande e está em toda parte. Está no Norte, está no Sul. Isto é, Minneapolis é uma cidade do norte de Minnesota, um Estado geralmente muito liberal. Nova Iorque é uma cidade bastante liberal, talvez uma das cidades mais liberais, e temos brutalidade policial contra negros a toda a hora.

É preciso, antes de mais, perguntarmos quem quer e porque quer ser polícia? Como treinamos a policia? E há um debate muito bom no país sobre como reorganizar tudo. Por exemplo, talvez a polícia não deva envolver-se em todas essas pequenas coisas: por exemplo, em episódios de violência doméstica, ou se alguém está a ter um colapso psicótico, deviam ser enviados outro tipo de profissionais, como assistentes sociais ou psiquiatras, que sabem cuidar desses problemas, e deixarmos a polícia lidar com assaltos a bancos e homicídios, mas não com essas coisas do dia-a-dia. Eu penso que sim, mas, sobretudo, penso que estes assuntos têm de ser debatidos.

Também temos de ter polícias nos bairros que façam parte da comunidade, que conheçam as pessoas com quem estão a lidar, que os conhecem pelo nome, para que não sejam apenas rostos negros, mas seres humanos. Eu diria que, quando assim for, 98% dessa violência policial desaparece. Quase toda a violência acontece por causa do medo. Para além de tudo isto, também temos de desmilitarizar a polícia. É uma coisa muito complicada, mas tudo pode ser feito. É um processo que vai levar anos, mas se não começarmos agora, não sei se vamos conseguir fazê-lo.

Há pouco dizia-me que conhece várias pessoas que estiveram doentes, mas não fazem parte das estatísticas. O senhor e a sua mulher também farão parte desse grupo?

Bom, a Siri dá aulas uma vez por mês num hospital. É um seminário para jovens psiquiatras no Centro Médico Cornell. Ela adora fazer isso, é uma turma pequena e ela foi ao hospital no dia 6 de março. Nessa altura o número de casos na cidade de Nova Iorque já estava a crescer, ela estava no hospital algum tempo e depois passou o dia na cidade a andar de táxi, a entrar em lojas e restaurantes. Poucos dias depois, estava muito doente. Sem febre, mas com uma terrível dor de cabeça, e um aperto muito forte no peito, quase como uma pneumonia ou algo assim. E então, cerca de quatro ou cinco dias depois, eu também fiquei doente. Não era tão forte quanto isso. Pareceu só uma dor de garganta, uma constipação e alguma tosse, mas nada de muito alarmante.

Quando pensei que já estava bem, aconteceu-me uma coisa muito estranha: durante três dias, não conseguia mexer-me, estava ausente. Sentia-me muito cansado, tão exausto que mal conseguia sair da cama, nem conseguia ler e mal podia ver televisão. Pouco a pouco, fomos melhorando e começámos a trabalhar. Estamos bem agora., mas não fomos testados, portanto, não sei se já estivemos infetados ou não.

Tal como os dias que vivemos, os seus livros estão cheios de reviravoltas e mudanças súbitas. O seu romance "O País das Últimas Coisas" é uma distopia, mas podia ser sobre os últimos meses?

Acho engraçado que esse livro, escrito há tanto tempo, se tenha tornado profético. É como se não tivesse envelhecido, se quisermos colocar as coisas dessa forma. Há um realizador argentino, Alejandro Chomski, que está a fazer um filme baseado n'"O País das Últimas Coisas", mas ainda não terminou. Está a aguardar a conclusão, ainda não pode ir para o laboratório para ser feita a montagem final. Teoricamente, já está tudo filmado, mas o realizador liga-me e diz: "O livro já foi escrito há muitos anos, mas é como se estivesse a falar sobre o que está a acontecer hoje em todo o mundo, por isso vamos esperar pelos desenvolvimentos".

Não quero lucrar com o que está a acontecer, até porque no livro tudo é vago, não se sabe exatamente o que aconteceu, nem como aconteceu, mas a ideia de pessoas que não têm o suficiente, de pessoas desamparadas a viverem uma realidade que muda de um dia para o outro, é muito semelhante ao que está a acontecer agora a muita gente. Não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o planeta. Portanto claro que acho engraçado.

Portanto, a pandemia não vai ser tema de um novo livro?

Ainda não sei. Não sei o que vai acontecer. Estou a terminar um livro enorme em que tenho andado a trabalhar nos últimos três anos e ainda não pensei no que vou fazer a seguir. O livro em que estou a trabalhar não é um romance. É um estudo muito longo sobre a vida e obra de um escritor americano, de que gosto muito, mas acho que não é muito conhecido na Europa.

O nome dele era Stephen Crane. Ele viveu no final do século XIX e morreu muito jovem, com 28 anos, mas produziu uma quantidade notável de trabalho brilhante e é famoso, principalmente, por um romance chamado "A Insígnia Vermelha da Coragem". É um romance sobre a Guerra Civil Americana, contada pelos olhos de um jovem soldado, provavelmente um adolescente com cerca de 17 anos de idade. Foi um livro revolucionário em termos de abordagem e de estilo. Mas penso que o trabalho de Crane é tão rico e tão interessante que tenho pena de ele não ser tão lido como merecia, e então a vida dele é tão interessante e tão cheia de aventuras e reviravoltas estranhas que... Vou contar-lhe como é que isto começou. Em 2017, quando acabei de escrever o 4321 (que é um romance muito grande), eu estava exausto. Então decidi não escrever nada durante uns tempos. Só queria ler e vi que tinha um livro do Crane na estante. Nessa altura, ainda não tinha lido tudo dele. E então disse: "Bem, vou voltar a olhar para o Crane". Comecei a ler umas coisas que não tinha lido, percebi o quão genial a escrita dele era e disse a mim mesmo que tinha de continuar a ler. "Vamos ver o que mais existe", pensei.

Depois li um livro muito maior, com 1.500 páginas, e disse: "Oh caramba, isto é ainda melhor do que eu pensava". Depois comprei as obras completas em dez volumes e li todas as 3.000 páginas do seu trabalho. A seguir, comecei a ler sobre a vida dele e, num determinado momento, decidi que ia escrever um livro sobre Stephen Crane. Pensei: "Um livrinho, talvez 200 páginas, agora que acabei o meu romance enorme". Então, comecei a escrever o meu livrinho e agora estou a olhar para ele ali em cima da secretária e já tem mais de mil páginas. Demorei muito tempo a escrevê-lo.

Apesar de ter nascido em Nova Jérsia, o senhor é considerado, por muitos, um dos grandes cronistas de Nova Iorque. O que lhe queria perguntar é se esta crise vai mudar a cidade?

Não. Penso que não. Nada muda Nova Iorque. Quando o vírus desaparecer, seja em seis meses, um ano ou dois anos - não sei quando será -, tenho a certeza que Nova Iorque voltará à vida de sempre. Toda a gente dizia o mesmo depois do 11 de Setembro: "Oh, Nova Iorque não voltará a ser Nova Iorque". Bom, isto está a ser, de facto, terrível, mas a verdade é que as crianças precisam de ir à escola, as pessoas têm de ir trabalhar, as pessoas casam-se, a vida continua e, em breve, não importa qual é a tragédia que ficou no passado, o presente vai sobrecarregar-nos.

Somos envolvidos por tudo isto e depois, de repente, eis que olhamos à nossa volta e a vida continua. E é claro que a vida vai continuar. Sim, muitas empresas vão fechar para sempre, mas, a longo prazo, novas empresas vão surgir. Muitos restaurantes vão fechar para sempre? Sim, mas outros vão abrir. Vai levar algum tempo, mas penso que Nova Iorque nunca deixará de será o lugar fervilhante que todos conhecemos.

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