Taliban ameaçam retaliar se EUA estenderem "ocupação". Biden admite que "muito pode correr mal"

Joe Biden reconhece que mais uma semana pode não ser tempo suficiente para a retirada de todas as pessoas que têm de sair do Afeganistão. O Presidente dos EUA admitiu que não haverá evacuação sem dor ou perda. Já os taliban avisam que, se for estendida a "ocupação", isso gerará uma resposta.

A operação de retirada dos afegãos que trabalharam com países ocidentais está em curso e pode não ser finalizada até 31 de agosto, o prazo estipulado para a saída dos norte-americanos do Afeganistão. Joe Biden, questionado sobre a pressão de alguns aliados, que pedem a Washington que prolongue para lá do previsto a estadia em território afegão, confirmou que há um debate entre a Casa Branca e os chefes militares acerca da extensão do período de transição.

A hipótese já tinha sido levantada pelo chefe de Estado norte-americano, mas desta vez Biden foi mais cauteloso, e limitou-se a dizer que tem esperança de que não seja necessário prolongar a estadia, num momento em que França e o Reino Unido pedem mais tempo para retirar os cidadãos que defenderam a causa dos aliados e que trabalharam ao lado dos ocidentais nos últimos anos. O chefe da diplomacia europeia chegou mesmo a afirmar, neste fim de semana, que não seria possível concluir a operação de evacuação até 31 de agosto.

É uma hipótese prontamente rejeitada pelos taliban, que fizeram saber já que não querem os norte-americanos no território além do prazo estabelecido. "Esta é uma linha vermelha. O Presidente Biden anunciou que até 31 de agosto retiraria todas as forças militares. Se este prazo for estendido, significa que eles estão a prolongar ocupação. Não há qualquer necessidade disso."

"Se os Estados Unidos ou o Reino Unido pedirem mais tempo, a resposta é não, ou haverá consequências. Vais deteriorar a nossa relação, vai provocar desconfiança. Se eles prolongarem a ocupação, estão a provocar uma reação." O porta-voz do movimento taliban também assegurou que os afegãos estão a tentar abandonar o país por ser um Estado pobre e não por terem medo das ações do grupo. "Garanto que não se trata de as pessoas estarem preocupadas ou com medo. Elas querem viver em países ocidentais. É uma espécie de migração económica, porque o Afeganistão é um país pobre: 70% da população vive abaixo do limiar de pobreza."

Os taliban dizem acreditar que "todos querem ir para países ocidentais para terem uma vida próspera", e que "é claro que, para conseguirem isso, exageram, dizem que estão com medo, aterrorizadas, sabemos isso, conhecemos a nossa sociedade; mas não se trata de medo".

O Presidente norte-americano já declarou que é possível que os terroristas tentem explorar o caos que se vive em Cabul, em especial junto ao aeroporto, onde milhares de pessoas tentam escapar. Joseph Biden reconhece que "terroristas" podem tentar infiltrar-se nos voos ou que podem atacar afegãos e norte-americanos, mas asseverou que todos os esforços estão a ser feitos para manter uma atenção redobrada.

Numa conferência de imprensa na noite de domingo, o chefe de Estado dos EUA tentou, mais uma vez, responder às críticas e dúvidas suscitadas nos últimos dias quanto ao procedimento da retirada de pessoas. Biden garantiu que qualquer pessoa que não seja residente nos Estados Unidos ou que não tenha cidadania vai ser escrutinada ao milímetro e revelou que há um acordo global com vários países nos quais os documentos são processados, antes de os cidadãos seguirem para os EUA. "Estamos a trabalhar com mais de duas dezenas de países nos quatro continentes. Fizemos acordos com países no Golfo, na Ásia Central, na Europa."

Biden sentenciou que o objetivo é "dar um lugar seguro para que afegãos e familiares possam completar os seus documentos enquanto controlamos essas pessoas antes de continuarem para outros países, como os Estados Unidos". Vigilantes neste processo de documentação, os Estados Unidos da América terão maiores dificuldades em retirar tantas pessoas em tão pouco tempo, numa ação que exige, além de força militar, esforços diplomáticos. O Presidente norte-americano acredita que é impossível esvaziar de dor ou perda uma ação deste tipo.

"A retirada de milhares de pessoas de Cabul vai ser difícil e dolorosa. Não importa quando começamos. Não há maneira de retirar tanta gente sem dor e sofrimento, como vemos nas imagens na televisão." Biden também se assumiu pesaroso pelas últimas atualizações de ocorrências no Afeganistão. "O meu coração dói por essas pessoas", declarou.

Muito pode correr mal neste processo, alertou ainda o mais alto responsável da Casa Branca. "Estamos a conseguir tirar milhares de pessoas de Cabul, trazendo os nossos cidadãos aliados da NATO, afegãos que nos ajudaram durante a guerra, mas há um caminho muito longo a percorrer, e muito ainda pode correr mal."

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