"Tinhamos tanta fome que comemos o medo", diz jornalista cubana

Nas últimas horas, Yoani Sanchez conseguiu colocar na internet um pequeno podcast sobre as manifestações no país e sobre o que se seguiu. Ela defende que os cubanos não vão recuar.

A conhecida opositora do regime castrista diz que domingo foi o grande dia para a população, mas as manifestações continuam. Ao cortar a Internet as autoridades conseguiram dificultar a comunicação entre os cubanos. Tem sido, no entanto, possível saber que ontem se realizaram protestos um pouco por todo o país.

A jornalista conta que a internet teve um papel essencial nos protestos porque a transmissão em direto da primeira manifestação foi como um rastilho de pólvora que explodiu por toda a ilha.

A internet só chegou a Cuba em dezembro de 2018 mas conseguiu mudar o rosto do país porque pela primeira vez o regime não teve o monopólio da informação. As pessoas usaram as redes sociais para se expressarem e foi possível perceber que é muito maior o número dos que querem mudanças do que os que preferem que continue tudo na mesma.

A jornalista defende que desta vez não há volta a dar "o povo sentiu pela primeira vez o que é gritar liberdade nas ruas cubanas. A frase muitas vezes repetida que - não temos medo - tocou muita gente."

Yoani Sanchez conta que o regime tentou fazer parecer que houve apenas algumas pessoas que protestaram contra os cortes na eletricidade, mas esse esforço foi um pouco patético. Ela assegura que não pode haver duvidas, os cubanos querem mudança, querem liberdade. "Estas foram manifestações por algo tão sagrado, algo tão ansiado neste país como é a liberdade. Aqueles que vos dizem que estes protestos não têm uma razão politica, um pedido de mudança estão a mentir. Fomos para as ruas porque tínhamos fome, é certo. Tínhamos tanta fome que comemos o medo."

A ativista realça que o regime respondeu da única maneira que sabe. O presidente, Miguel Diaz Canel, em vez de apaziguar, acalmar a situação e reconhecer alguns erros implementando uma mudança imediata, deu ordens de combate e disse que o regime está disposto a tudo para se proteger.

Ela conta que a presença militar é bem visível nas diversas cidades do país. Em Havana, na praça da revolução, vêm-se militares fardados, alguns à civil e outros com machetes que aparentemente estão a cortar a relva mas que, segundo Sanchez, todos sabem o que estão dispostos a fazer.

Yoani Sanchez diz que nos protestos houve feridos, haverá mortos, mas tudo é difícil de confirmar. O que mais a choca, no entanto, é o facto de haver muitos desaparecidos. Ela lembra que na América Latina a palavra "Desaparecidos" tem uma conotação muito negativa, está ligada a ditaduras de outros tempos. Neste momento em Cuba há mães, familiares às portas das esquadras da polícia à procura dos seus e não os encontram.

Neste podcast Yoani Sanchez pede para que se divulgue o que está a acontecer no país e aos jornalistas independentes porque o momento é muito difícil. Eles estão no olho do furacão, na fila da frente dos alvos da repressão. Há jornalistas detidos, alguns vigiados pela polícia e militares e outros que estão desaparecidos. Sanchez diz que a situação pode agravar-se porque o "regime é alérgico à liberdade informativa".

Apesar de tudo ela acredita que os protestos vão continuar porque no domingo os cubanos recuperaram a voz. O regime perdeu a vantagem que tinha que era o medo, a repressão das liberdades e o domínio da informação.

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