Mais Opinião

Paulo Baldaia
Paulo Baldaia

O pântano que sonha ser um deserto

O problema de Portugal é ser habitado por portugueses. Se é que há um problema, porque podemos chegar à conclusão de que, apesar de tudo, Portugal é como a democracia, o pior país do mundo à exceção de todos os outros. Também podemos concluir que, a existir um problema, esse problema não sejam as pessoas, mas os políticos que governam o país ou os empresários que gerem as empresas, só que facilmente descobriremos que os políticos e os empresários são pessoas como nós, com virtudes e defeitos.

Inês Cardoso
Inês Cardoso

Crise política? Qual crise?

À procura de um consenso que permita a aprovação do Orçamento do Estado, o Governo tem mantido uma agenda preenchida de encontros com os partidos à sua Esquerda. Mantém-se a mensagem de que o acordo está por alcançar, mas ontem começámos a sentir um tom mais apaziguador no discurso. O PAN ressalvou ganhos e medidas em que há aproximação. O Bloco de Esquerda diz não haver acordo, mas admite esperar "cedências na Saúde". O PCP vai mantendo um tom ambíguo, embora descartando, por agora, sinais suficientes para valerem o ambicionado apoio parlamentar.

Miguel Poiares Maduro
Miguel Poiares Maduro

O preço de trazer radicais ao governo

Subitamente, o país parece à beira de uma crise política. A verdade, no entanto, é que não sabemos se esta crise não é apenas mais um capítulo da farsa em que se transformou o debate orçamental em Portugal. Todos os anos, os partidos da esquerda mais radical que suportam o governo ameaçam reprovar o orçamento. Depois, um misto de ficção e realidade conduz ao acordo orçamental. Por um lado, o governo apresenta aumentos de despesa e investimento que nunca virão a ser executados, mas satisfazem, artificialmente, os seus parceiros políticos. Os orçamentos de Estado tornaram-se uma ficção que permite ao governo anunciar regulamente aumentos de investimento que nunca serão realidade. Por outro lado, o governo faz concessões, para lá do orçamento, revertendo ou adiando reformas que os seus parceiros políticos radicais não aceitam. Neste caso, a falta de reformismo dos governos de António Costa é o preço a pagar às forças conservadoras de esquerda, sendo que esse preço tem vindo a aumentar. O governo transformou os orçamentos em propaganda e moeda de troca da sua sobrevivência política.

Paulo Baldaia
Paulo Baldaia

Será que Costa quer mesmo imitar Nero?

Estando há mais de 30 anos no jornalismo político, não deixo de me surpreender com a criatividade da intriga palaciana. É difícil perceber onde os políticos querem chegar quando apontam para o que, de forma evidente, se for feito, atenta contra os superiores interesses do povo. Se é em nome do povo que governam, como podem deliberadamente colocar os seus interesses à frente dos interesses do país? Quando se faz esta pergunta, espera-se sempre que seja apenas intriga, a informação de que pretendem criar artificialmente uma crise política.

Raquel Vaz Pinto
Raquel Vaz Pinto

Afeganistão, Iraque e o nosso radar

Na última semana, falei sobre o Afeganistão e, em especial, os refugiados e a sua vinda para Portugal. Depois de um longo hiato, voltámos, nos últimos meses, a estar atentos ao que se passa em cidades afegãs como Cabul, Mazar-i-Sharif, Herat ou Kandahar. E este registo fez-me pensar no seguinte: quanto tempo vai durar esta nossa atenção? Mesmo sabendo das violações de direitos humanos dos taliban, quando é que o Afeganistão deixará de estar no nosso radar? Esta é, claramente, uma situação que os novos senhores de Cabul vão reforçar e incentivar. Ter repórteres estrangeiros e liberdade de imprensa vai contra o que os taliban representam e o modo como querem moldar (ou doutrinar) a sociedade afegã.

Miguel Poiares Maduro
Miguel Poiares Maduro

O futuro da democracia

Nos últimos dias espreitei o futuro da democracia e não gostei do que vi. Daniel Innenarity e Paul Kahn, dois dos melhores pensadores da atualidade estão em Lisboa para conversar, esta tarde, na Gulbenkian (perdoem-me a publicidade) sobre o futuro da democracia, mas já anteciparam parte do seu diagnóstico em duas publicações da série Gulbenkian Ideas. O futuro da democracia, de acordo com Innenarity e Kahn, não é promissor. Ambos identificam desafios de natureza existencial. São desafios diferentes, mas que convergem parcialmente. Para Innenarity o desafio da democracia é, nas minhas e não suas palavras, de natureza cognitiva. Innenarity, na sequência do seu mais recente livro (democracia complexa) entende que a democracia e as suas instituições não se souberam adaptar à crescente complexidade da sociedade (que vai da sua crescente heterogeneidade à disrupção introduzida pelas novas tecnologias). Esta inadaptação estende-se à inadaptação das velhas categorias políticas: esquerda ou direita, conservadorismo ou liberalismo. Para Innenarity todas estas ideologias se tornaram, se já não eram, simplistas na sua abordagem à complexidade dos problemas que enfrentamos. Esse simplismo, traduzido em receitas políticas excessivamente ortodoxas qualquer que seja o lado político, conduz, por sua vez, à sua ineficácia em lidar com esses problemas. É esta ineficácia das diferentes ideologias tradicionais na resolução dos problemas complexos de hoje que conduz, paradoxalmente, ao emergir de ideologias populistas que exploram melhor o apelo da simplificação do complexo, tornando-se assim mais convincentes.