A morte política de Joe Biden será francamente exagerada

Um ano e uma semana depois da vitória eleitoral que impediu segundo mandato de Donald Trump, o fulgor dos primeiros 100 dias já soa a realidade distante.

Um terço dos americanos travou o sucesso da vacinação e insiste na "Big Lie": acredita que foi Trump o vencedor das eleições. A humilhação de Cabul, a 15 de agosto, foi o ponto de viragem.

Joe Biden tenta colar a "maioria de bom senso" que lhe deu legitimidade para avançar com planos federais robustos. Quer pôr os milionários e as grandes empresas a financiar, com impostos, a sua agenda pelo Clima e pela equidade social. Mas até no seio do Partido Democrata tem divergências muito difíceis de sanar, entre os "progressistas" (Sanders, Warren, Ocasio-Cortez) e os "moderados" (Manchin, Synema).

Na tomada de posse clamou pelo fim da "guerra incivil" da América que acabara de herdar. Não, não é "igual a Trump". Essa falsa equiparação não faz jus ao que já mostrou e conquistou -- mas pode vir a ser apenas a próxima vítima da polarização extrema.

O paradoxo Biden

Joe Biden fez campanha ao centro e com moderação institucional, prometendo o regresso à decência e à normalidade possível, depois de quatro anos de distúrbio trumpista.

O primeiro meio ano na Casa Branca mostrou um Presidente sem tempo a perder -- recordista de ações executivas, com três grandes planos federais que revelam visão mais à esquerda do que aparentava. Foi um roteiro para o retorno ao essencial.

O problema é que a "ferida trumpista" está mesmo para ficar. E isso revelou-se, com o tempo, um problema ainda maior. O seu plano era fazer esquecer rapidamente o "intervalo Trumpista". Não aconteceu.

O ceticismo sobre as vacinas travou a recuperação económica. Até maio, a média diária de vacinados na América passava os três milhões; nos últimos três meses, nem a um milhão chegou.

No Congresso, nem as maiorias democratas nas duas câmaras são garante para que a agenda da Administração da mesma cor política avance com a eficácia necessária.

É este o "paradoxo Biden": foi eleito Presidente com número recorde de votos, foi capaz de desafiar a tendência de que o Presidente em funções consegue reeleger-se, até ganhou em estados do Sul que nas últimas três décadas pareciam irremediavelmente destinados aos republicanos (Geórgia, Arizona). Mas o voto popular e o exercício das instituições não estão a ser suficientes para a concretização de uma agenda presidencial que uma parte muito numerosa da população não reconhece como legítima. Embora o seja.

"Back to basics"


A "via Biden" para a retoma económica fundou-se numa mistura de aposta na vacinação com planos federais de apoio de estímulos pós-covid. Resultou nos primeiros meses, mas começou a dar sinais de "gripar" desde o verão.

Para Joe Biden conseguir ter uma Presidência de sucesso precisa de ser capaz de governar não só para a maioria que o elegeu, mas também para a "América esquecida".

Tem, no Plano de Infraestruturas finalmente aprovado a 6 de novembro na Câmara dos Representantes, uma importante ativação desta via pragmática de chegar à "América esquecida", seja pela via do apoio às comunidades rurais, com internet rápida, seja pela aposta em empregos não qualificados, nos projetos de obras públicas.

A grande dúvida é: ainda será possível, pela mensagem económica pragmática, travar a ameaça identitária e populista?

O impasse político


A aprovação de Biden caiu 10 pontos percentuais desde junho.

O modo como enfrentará a ameaça da crise das cadeias de distribuição, a pressão energética e o risco de inflação será decisivo.

Sem boas soluções para proteger a carteira dos americanos, a Administração federal ficará politicamente vulnerável. 2022 é ano eleitoral na América, com as intercalares para o Congresso em novembro (mês em que o Presidente completará 80 anos). Os próximos três ou quatro meses podem ditar quase tudo para o que resta deste mandato presidencial.

Será crucial que o Plano de Infraestruturas, aprovado há dias, no total de 1,2 biliões de dólares chegue à "economia real". Para os próximos cinco anos estão previstos 550 mil milhões para renovação de estradas, pontes, viadutos, caminhos de ferro, aeroportos, internet de banda larga para todos os lares americanos, carros elétricos, sistemas hidráulicos.

Seguem-se, na próxima semana, as negociações para um pacote de 1,75 biliões de dólares com a reforma social (combate à pobreza, equidade racial, apoio aos estudantes) e Clima.

O filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella costuma dizer que "a melhor maneira de afastar fantasmas é ligar a luz". Quanto mais competente se revelar a Administração Biden nestes quatro anos, quanto melhores forem os resultados práticos das políticas de promoção de justiça social e equidade racial, menor será o risco de haver um "backlash" democrático em 2024. Porque ele existe.

A "doença americana"


A 6 de janeiro de 2021, a democracia norte-americana viveu o seu momento mais grave em mais de dois séculos. O assalto ao Capitólio foi o culminar de um processo de disrupção política que ainda está em curso.

As reais responsabilidades do então Presidente Donald Trump no incitamento ao ataque estão ainda a ser apuradas, em comités nas duas câmaras do Congresso. Descrições como as que constam no livro "Peril", de Bob Woodward e Robert Costa (em especial os receios do General Mark Milley), são preocupantes.

Para lá do emaranhado legal de tão complexo ato, o que 6 de janeiro de 2021 nos mostrou verdadeiramente são duas realidades aparentemente contraditórias: por um lado, que a democracia americana está sob séria ameaça; por outro, mesmo perante um cenário para muitos era inacreditável, as instituições continuaram a funcionar, garantindo, sob pressão extrema, a aplicação da Lei e a primazia do Estado de Direito - afinal de contas, a sessão conjunta de 6 de janeiro realizou-se mesmo, ainda que interrompida a meio pelo episódio mais grave desde a "queima de Washington" de 1814, e certificou a vitória eleitoral de Joe Biden. Se a segunda premissa parece tranquilizadora, devemos focar-nos na ameaça real que paira sobre aquela que foi até agora para muitos de nós a mais inspiradora democracia do mundo.

Que caminhos se percorreram até que, por exemplo, o congressista republicano Andrew Clyde, da Geórgia, tenha dito em plena sessão da Câmara dos Representantes que a ocupação violenta do Capitólio foi "uma visita turística normal"? Ou que, tantos meses e tanta evidência depois do ocorrido, ainda dois em cada três eleitores republicanos ainda acreditem na "Big Lie" e permaneçam na tese de que "a eleição foi roubada" e que o verdadeiro vencedor do sufrágio de há um ano teria sido Donald Trump? Ou que um em cada três vá mais longe e defenda que a invasão do Capitólio terá tido uma justificação plausível?

Mary C. Curtis, na "Roll Call", nota: "É da natureza humana não levar demasiado a sério uma crise até que ela nos bata à porta. Mas os Estados Unidos já passaram esse ponto numa série de assuntos, com demasiados cidadãos em estado de negação ou a obter vantagem desse estado. A disfunção na América já não está apenas a bater à porta. Parafraseando Sinclair Lewis, "não pode acontecer aqui, até acontecer".

O ataque ao Capitólio foi o auge de um vasto conjunto de sintomas da "doença americana".

Decorreu, em grande parte, do comportamento irresponsável de Donald Trump - que nas semanas anteriores somou diligências agressivas, numa escalada de desespero, para evitar a perda de poder e respetiva passagem de testemunho a Joe Biden.

E depois há o Texas: a agenda do governador Greg Abbott, numa espécie de imposição da Presidência Trump em pleno mandato Biden, tem passado por permitir acesso livre às armas, mesmo sem licença ou treino; impedir mulheres de abortar, mesmo até às seis semanas, em caso de violação ou incesto. Nas eleições intercalares da semana passada, um referendo no Texas mostrou que a esmagadora maioria dos texanos está contra a proibição de ir à igreja, em nome de restrições pandémicas: Deus acima da prudência sanitária.

"Duas Américas"? Vai para lá disso. As diferenças de visão, crença e abordagem sobre como lidar com as instituições são tão grandes entre democratas e uma parte dos republicanos que se torna difícil imaginar um caminho para criar "common ground".

Norman Ornstein, do "think tank" Conservative American Enterprise Institute, nota: "Os republicanos em 2021 são uma rebelião radical que abandonou a clássica política parlamentar".

Nas cerimónias dos 20 anos do 11 de Setembro de 2001, o ex-Presidente George W. Bush pôs o dedo na ferida: "Nas semanas e meses que se seguiram aos ataques, tive orgulho de liderar pessoas resilientes e unidas. Quando falamos de união na América, aqueles dias parecem distantes".

A reação do ex-Presidente Trump à morte do General Colin Powell foi novo sintoma disso: "Wonderful to see Colin Powell, who made big mistakes on Irak and famously, so-called weapons of mass destruction, be treated in death so beautifully by the Fake News Media" ("É maravilhoso ver Colin Powell, que cometeu grandes erros no Iraque e as chamadas armas de destruição em massa, sendo tratado na morte de forma tão bela pelos Fake News Media").

E enquanto Joe Biden não consegue voltar a ter uma aprovação acima dos 50%, Donald Trump vai montando uma plataforma de regresso para 2024 (a "Truth Social", rede social da Trumposfera, vai avançar no primeiro trimestre de 2022). E Bannon, seu antigo conselheiro-chefe, insiste em desafiar o Congresso e a justiça e recusa-se a depor sobre o tema.

A viragem de 15 de agosto

Até à queda de Cabul, as coisas corriam globalmente bem a Joe Biden. Depois da humilhação americana de 15 de agosto de 2021, com a tomada galopante da capital afegã por parte dos talibãs - apesar das juras do Presidente dos EUA, um mês e uma semana antes, de que tal não iria acontecer - a agulha virou.

Entendamo-nos: a consumação da saída do Afeganistão foi uma decisão correta e corajosa. Barack Obama e Donald Trump iniciaram a retirada, mas não a conseguiram concretizar. Ambos adiaram o problema. Joe Biden, quarto Presidente da mais longa guerra de sempre dos EUA, recusou-se a passar a batata quente para um quinto.

A leitura da Administração Biden sobre não querer cair no erro de adiar uma retirada inevitável estava correta. Não haveria boa saída para uma guerra que já não tinha propósito. Terá sido melhor sair agora, com risco, do que sair daqui a um, dois, cinco ou dez anos - com ainda mais riscos e mais tempo somado aos custos financeiros gigantescos, às perdas humanas e ao desgaste da opinião pública.

O problema foi tudo o resto. Falhou a relação com o poder afegão em fuga. Falhou a preparação dos soldados afegãos que assegurariam a transição para uma saída digna antes do avanço talibã. Terá falhado a inteligência.

Joe Biden não se livra do seu "momento Cabul". Por muito que a herança pesada de um acordo mal desenhado pelo seu antecessor, Donald Trump, com os talibãs em Doha, datado de fevereiro de 2020, possa explicar a quase impossibilidade de se encontrar boa solução para a saída inevitável, o "timing" e o modo em que a retirada foi consumada correram demasiado mal.

Haveria mesmo outras possibilidades a explorar? Em audição no Senado, o General Mark Milley considerou que "saída americana foi um sucesso logístico, mas um falhanço estratégico". O Secretário da Defesa, General Lloyd Austin, alegou, na mesma sessão, que o Presidente Biden havia ponderado, nos primeiros meses na Casa Branca, manter uma pequena força de 2500 militares americanos para evitar a tomada de poder dos talibãs.

As ondas de choque foram imensas: crise na relação com os aliados da NATO, por falta de articulação prévia e divergências na data de saída; críticas internas de republicanos e até de alguns setores democratas; perda reputacional da América noutros cenários sensíveis (os EUA, já depois desta retirada, mantêm ainda perto de 170 mil efetivos militares destacados em vários palcos).

Joe Biden, Anthony Blinken e Jake Sullivan repetiram-no à exaustão: o foco é conter a China, lidar com a Rússia e estar cada vez mais preparados para as novas ameaças - ciberataques, alterações climáticas. Os cinco principais riscos identificados pela Administração Biden no guia interino de estratégia de segurança nacional, publicado no final de março, são, por esta ordem: 1) China; 2) Rússia; 3) Irão e Coreia do Norte; 4) estados falhados; 5) terrorismo.

Fazia todo o sentido o Afeganistão não estar no topo da agenda de política externa da Administração Biden. O problema é que, depois de 15 de agosto, passou a estar. Em política, nenhuma decisão é inócua.

A queda de popularidade

Analisar a evolução da popularidade de Joe Biden na Casa Branca até agora é impressionantemente fácil: até à queda de Cabul, a 15 de agosto, o saldo foi positivo; a partir daí foi sempre negativo.

Se fizermos um "zoom" a esta tendência, verificamos que os primeiros 100 dias (até ao final de abril) foram de grande popularidade. Na diferença entre a taxa de aprovação e a de reprovação começou com saldo positivo próximos dos +20%, manteve-se entre os +10%/+15% até ao final de abril, sendo que a partir de maio os valores de aprovação baixaram da esfera do 55% e se aproximaram do 50%, reduzindo o saldo positivo para um dígito (+5% a +9%).

Pelo final de julho e a primeira quinzena de agosto, com os sinais de que a saída do Afeganistão poderia ser arriscada e traumática, surgiram as primeiras sondagens da Presidência Biden a dar-lhe 50% ou menos de aprovação e valores de reprovação na casa dos 40 e muitos por cento.

E veio 15 de agosto: a humilhação americana em Cabul, e as duas semanas de risco máximo que se seguiram, gerou um trambolhão de todo o tamanho na performance presidencial de Joe Biden: a reprovação saltou bem para cima dos 50%, a aprovação caiu para valores idênticos aos que tinha Donald Trump. Um ano depois da eleição, Joe Biden tem 42% de aprovação e 52% de reprovação.

Será que isto ainda se resolve? É possível. Mas é duvidoso.

Depois do ambiente inicial, que não era bem de "estado de graça" (Biden está na alta política americana há meio século, seria difícil falar em "novidade"), o desempenho muito positivo dos primeiros 100 dias fundou-se na aceleração da vacinação e nas decisões tomadas por ordem executiva. Os primeiros quatro meses da Presidência Biden tiveram crescimento económico pelos 7%, novos empregos com média mensal acima do meio milhão.

Mas a partir de junho começou a derrapagem, por culpa dos passos atrás na pandemia: inflação acima dos 5%, criação de empregos na esfera dos 200/300 mil mensal (é pouco). Os 194 mil novos postos de trabalho do "report" de setembro, muito abaixo das expectativas, lançaram novo sinal de alerta, mas em outubro já foram criados 531 mil novos postos de trabalho em outubro, terceiro valor mais alto da Presidência Biden -- e o triplo dos 194 mil de setembro. A queda de casos COVID em vários estados e o aumento da contratação sazonal são apontadas pelo Departamento do Trabalho dos EUA como duas das principais explicações para este bom desempenho. A Taxa de Desemprego nos EUA baixou para os 4,6% (era de 6,3% em janeiro, na tomada de posse Biden; e de 4,8% em setembro).

A China, a China, a China

Se há tema em que houve mais continuidade que rutura entre as Presidências Trump e Biden, esse tema é, certamente, a necessidade de Washington conter a ascensão da China.

A desconfiança dos EUA em relação aos chineses está em máximos históricos. Dois em cada três norte-americanos têm, em 2021, uma opinião negativa sobre a China. Há três anos, eram menos de metade. Mas o contrário também é verdade: a desconfiança dos chineses em relação aos Estados Unidos está em máximos históricos: 45%.

Há duas décadas, o PIB chinês valia 12% do norte-americano. Hoje valor perto de 80%. Na Paridade do Poder de Compra, a China já lidera, assim como em áreas como a Inteligência Artificial e o 5G. E quanto ao 6G, desafio tecnológico que se segue e que deverá chegar pelo final desta década, por 2028/2030, a China já tomou a liderança, com cerca de 40% dos pedidos de patentes, seguida dos EUA (35%) e Japão (10%).

A CIA criou recentemente o China Mission Center, o mais recente esforço da agência de Langley para compreender a verdadeira extensão do competidor chinês.

Taiwan é a tensão mais evidente. No início de outubro, a força aérea chinesa enviou cerca de 150 jatos para a zona de identificação de defesa aérea da ilha no espaço de apenas quatro dias. Pela mesma altura, EUA, Japão e Reino Unido promoveram exercício naval de grande dimensão no Pacífico ocidental. A escalada retórica é cada vez mais acompanhada de tensão militar. Estados Unidos e China vão-se emaranhando num jogo de "póker" que ameaça o futuro da ilha. Xi Jinping falou em "tarefa histórica de reunificação que será definitivamente cumprida", mesmo jurando que a prioridade é assegurá-la "de forma pacífica". Joe Biden avisou por telefone o homólogo chinês que deve "cumprir o acordo para Taiwan e nada fazer fora disso".

O momento da verdade sobre Taiwan parece estar a chegar. Gideon Rachman, no "Financial Times", observa: "A ambiguidade estratégica manteve a paz durante décadas. Mas um perigoso momento de clareza pode estar a aproximar-se".

Joe Biden afirmou na ONU não querer "uma nova Guerra Fria". A comparação, cada vez mais usada para descrever o ponto atual da rivalidade EUA-China, é atraente. Só que não faz grande sentido. Ao contrário do que ocorria com a bipolaridade do mundo americano-soviético, que nos mostrava dois mundos opostos e sem pontos de contato em quase tudo, americanos e chineses têm um nível de interação e interdependência altíssimo.

A URSS não era um competidor, mas era uma ameaça real. Mesmo não sendo "ameaça" oficial, a China é um enorme competidor.

Xi Jinping alargou a influência chinesa com os projetos "One Belt, One Road" e a Nova Rota da Seda. Perto de meia centena de países devem à China o equivalente a pelo menos 10% do seu PIB. Pequim disputa o poder diplomático americano e fez tudo, nos anos Trump, para aproveitar os vazios morais deixados por um Presidente dos EUA que abdicou do "excecionalismo" que havia caracterizado as sete décadas anteriores da política externa de Washington.

Temos olhado muito, nos últimos anos, para os fatores que têm contribuído para a perda de poder relativo dos EUA. Falta olharmos com mais atenção para os riscos de crise dos fatores que têm levado até agora à ascensão chinesa. Os casos recentes Evergrande e Fantasia avisam-nos para que um "cisne negro" financeiro gigantesco vindo de Pequim possa aparecer quando menos esperarmos.

Três obstáculos contrariam a tese de pujança chinesa: o declínio do crescimento populacional (que ameaça a fórmula assente na explosão do consumo interno para reduzir a dependência de Pequim das exportações); o crescimento económico abaixo dos valores que sustentaram o modelo chinês nas últimas três décadas (já se notava antes da pandemia, agravou a partir dela); danos reputacionais pelo modo como terão ocultado o risco da COVID-19.

Joe Biden deseja ser o líder das democracias liberais, na travagem da ascensão das autocracias. Pretende envolver atores como a Índia, o Japão e a Austrália (a ativação do "Quad" assim o denota) nesse caminho. O duelo com Pequim é o pilar deste desígnio e pode estar ainda só a começar.

A ambiguidade transatlântica

Joe Biden passou os primeiros meses na Casa Branca a repetir: "A América está de regresso". Um dos destinatários dessa frase era a Europa. Apesar dos solavancos recentes, esse "statement" continua a valer mais do que possa parecer.

O compromisso transatlântico passou por enorme teste de "stress" nos quatro anos de Presidência Trump. O 45.º Presidente dos EUA teve um comportamento "bully" com os aliados europeus e a vontade em várias chancelarias europeias era a de que o episódio trumpista na Casa Branca fosse mero intervalo de um só mandato.

A vitória de Biden sobre Trump há um ano parecia ter confirmado essa tese do "intervalo". As juras de "regresso" do novo Presidente americano reforçavam esse sentimento.
As escolhas para a administração (Blinken no Departamento de Estado, Sullivan Conselheiro de Segurança Nacional) apontaram para um comprometimento pró-europeu e pró-NATO que dificilmente se repetirá em Washington.

O que se passou, então?

Em julho, o périplo europeu de Joe Biden confirmava o desejo de "reconciliação pós Trump" dos dois lados do Atlântico. Mas, ao mesmo tempo, surgiam os primeiros sinais contraditórios.

A inclusão da Austrália, a par da Índia, Coreia do Sul e África do Sul, não terá tido, na altura, a atenção que merecia. Mas foi aí que os líderes norte-americanos, britânicos e australianos deram o passo decisivo para a aliança estratégica anglófona que abalaria fortemente a confiança de Paris.
O AUKUS revela a grande necessidade que Washington sente de reforçar a sua posição no Indo-Pacífico. Mas isso não significa uma abdicação norte-americana da frente atlântica. A conclusão é tentadora, mas assimétrica.

Mesmo em declínio, o poder americano é ainda tão grande que não implica escolhas exclusivas. O momento atual exige maior foco na construção de novas alianças para travar a China. A relação transatlântica, mesmo em crise, é mais duradoura.

Os últimos anos mostraram-nos que já obriga a opções difíceis - mas ainda não chegámos ao ponto de ver Washington num dilema de escolher entre "a Europa" e "a Ásia".

A narrativa mais recente pode ser essa, mas uma visão a mais longo prazo mostra-nos que o reforço estratégico no Indo-Pacífico (um terço do comércio marítimo mundial passa pelo Mar do Sul da China, 10% das classes médias mundiais estarão até ao fim desta década nesta zona) começou há mais de uma década, no primeiro mandato presidencial de Barack Obama, com Hillary Clinton a chefiar o Departamento de Estado. Mas isso não significou o adeus americano à Europa.

Dias depois da "tempestade AUKUS", e ainda na ressaca da saída turbulenta do Afeganistão, Joe Biden e Emmanuel Macron falaram ao telefone. O Presidente americano admitiu erros no modo como a sua administração comunicou a nova aliança estratégica, o líder francês reduziu o grau de retaliação diplomática e deu indicações ao seu embaixador para voltar a Washington.

Depois de vários dias de fúria em Paris (não, não é uma figura de estilo), o encontro do início de outubro entre os chefes da diplomacia não foi totalmente animador.

O Secretário de Estado norte-americano, Anthony Blinken, usou os seus dotes de domínio perfeito da língua francesa para tentar, em horário nobre numa entrevista em direto na France 2, pôr água na fervura. Mas não se livrou de ouvir de Anne-Sophie Lapix: "Não esperávamos isto da América, sobretudo de si".

Na semana seguinte, o mesmo Blinken liderava a representação americana no Conselho de Comércio e Tecnologia EUA-EU (CCT), órgão criado pelos presidentes Joe Biden e Ursula Von der Leyen, na cimeira euro-americana, realizada em junho, em Bruxelas. O CCT é um novo fórum para os Estados Unidos e a União Europeia coordenarem abordagens relativas às principais questões mundiais em matéria de comércio, economia e tecnologia, e para aprofundar as relações comerciais e económicas transatlânticas com base em valores democráticos comuns.

As notícias sobre a morte da confiança transatlântica terão sido exageradas.

O desafio climático

A emergência climática é muito mais que mera agenda ambiental. Trata-se de um problema económico (pelos empregos que se perdem e pelos prejuízos que se somam), é uma questão social (pelos deslocados, pelos refugiados), é uma questão política (pelas escolhas difíceis que será preciso fazer) e tenderá a ser cada vez mais uma questão de segurança nacional.

Na sequência de ordem executiva feita nos primeiros dias de Joe Biden na Casa Branca, em que aponta o objetivo dos EUA reduzirem para metade as emissões poluentes até 2030, a 7 de outubro a Administração Biden divulgou os Agency Climate Adaptation and Resilience Plans from Across Federal Government. Este vasto conjunto de relatórios feitos por 23 agências federais revela um panorama assustador, mas relativamente previsível, sobre as consequências das alterações climáticas nos mais diversos aspetos da governação.

O retrato traçado antecipa o que será a vida para quem tem hoje menos de 40 anos: mais trânsito, mais doenças, mais cheias, (muito) mais calor, mais secas. O que já fomos sentindo nos últimos anos vai acentuar-se nos próximos: mais eventos climáticos extremos vão obrigar a decisões políticas difíceis.

O alcance do que tem que ser feito é brutal: os planos que estes relatórios propõem abrangem medidas como a proteção dos trabalhadores de eventos extremos; a criação de cadeias de distribuição mais resistentes a desastres climáticos extremos e mais frequentes; a avaliação dos impactos da má qualidade do e do calor em comunidades de baixo rendimento e minorias; preparação dos edifícios governamentais mais bem preparados para as mudanças climáticas.

Três exemplos concretos que estes relatórios nos mostraram.

O Departamento de Defesa avisa que a mudança climática representa uma ameaça às operações militares e pode criar novas fontes de conflito em todo o mundo, incluindo conflitos sobre a potencial escassez de água -- o General Lloyd Austin, Secretário da Defesa, chega a advogar a criação de uma "inteligência climática" que apoie o Pentágono no processo de decisão das operações militares.

O Departamento de Transportes escreveu que a mudança climática tornará as construções e as viagens mais difíceis e mais perigosas. Joe Biden já tinha apontado, em agosto, o objetivo de metade dos automóveis nos EUA serem "zero emission" até 2030.

O Departamento de Educação revelou que, só na Califórnia, mais de um milhão de alunos foram afetados pelo fecho de escolas devido a incêndios florestais durante o ano letivo de 2018-19 e que, após os furacões Maria e Irma em Porto Rico, os alunos perderam uma média de 78 dias de escola.
A escolha de John Kerry como enviado-especial da Administração norte-americana para as alterações climáticas, com credenciais do Presidente Biden para representar os EUA neste tema de forma permanente, é a prova de que o atual Presidente dos Estados Unidos quer dar força e dimensão política a um assunto que, durante demasiados anos, foi olhado como um capricho de ambientalistas.

Depois do interregno Trump, Joe Biden tem no desafio climático uma grande oportunidade para recolocar os EUA na liderança de um tema fundamental - que a cada novo relatório compreendemos como poderá mesmo vir a tornar-se existencial.

O novo programa chinês de comércio de emissões aponta para que Pequim consiga atingir a neutralidade carbónica antes da meta de 2030. O caminho é positivo, mostra novo comprometimento da China na sustentabilidade climática, mas estará a ser um dos fatores de agravamento dos preços do carvão, um dos elementos da "tempestade perfeita" que, nas últimas semanas, geraram pressão nos preços e potencial crise energética global.

O momento atual expõe uma transição contraditória: as decisões políticas, mais preocupadas com o imediato, chocam com as medidas que têm que ser feitas a longo prazo: o mesmo Biden que promoveu o regresso dos EUA ao compromisso climático (e destacou 13 figuras de topo da sua administração para a COP26) apelou dias antes da COP26 aos países da OPEC para aumentarem a produção de combustíveis fósseis por causa da subida dos preços da gasolina e do gasóleo.

A grande questão que está a colocar-se em Glasgow, no que à posição dos EUA diz respeito, é: vai o Presidente dos Estados Unidos ser capaz de mostrar que vai mesmo ser o líder do combate a esta emergência global, perante a ausência da China e a hesitação dos seus pares?

Ainda dá para fechar a "caixa de Pandora"?

A vitória de Joe Biden, há um ano, evitou o pior: um segundo mandato presidencial de Donald Trump seria demasiado mau para a democracia americana.

Mas talvez não tenha sido suficiente para garantir o essencial. Depois de se abrir a caixa de Pandora, fica muito mais difícil voltar a colocar os demónios lá dentro.

O caminho de Joe Biden é, cada vez mais, das pedras. Mas decretar a morte política desta presidência será, por enquanto, francamente exagerado.

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