Vai ser um longo inverno

PorTSF

A semana é cheia de negociações para António Costa. Hoje arrancam as de preparação do Orçamento do Estado 2021, com o PCP declaradamente distante e o BE a dar sinais de que não irá facilitar o diálogo, colocando na linha da frente as leis laborais, precisamente o dossiê que fez divergir o Bloco do Governo após as últimas legislativas.

Segue-se, sexta e sábado, a cimeira que irá aprofundar os detalhes do Fundo de Recuperação, sendo que os detalhes são decisivos para o modelo a seguir. Depois dos encontros preparatórios dos últimos dias, o primeiro-ministro holandês já deixou clara a mensagem de que será difícil ultrapassar a clivagem entre os países do Sul e do Norte, considerando que só poderá haver subsídios sob condições muito restritas. Com o seu habitual otimismo, António Costa afirma contar com um acordo já no próximo fim de semana, mas nas entrelinhas percebe-se que esse objetivo será difícil de alcançar.

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O outono marcará o início de um período particularmente duro para o país. Sem o efeito analgésico das medidas extraordinárias dos últimos meses e com o fim da expectativa de alguma reanimação do turismo no verão, a situação das empresas vai previsivelmente degradar-se e as verbas europeias só chegarão lá para 2021.

Será igualmente um tempo duro do ponto de vista sanitário, como já têm vindo a repetir epidemiologistas e responsáveis de serviços públicos. O Serviço Nacional de Saúde terá de responder simultaneamente à covid-19 e à gripe sazonal. E o país tem de estar preparado para ver os números de infeções subir, sem entrar em pânico. A resposta social será mais uma vez decisiva para a situação social e económica do país.

Os sinais de nervosismo sentem-se já em diversos setores. Particularmente nas escolas, em que diretores e pais admitem que preferiam ir diretamente para o plano B, preparando o ano letivo em regime misto, com aulas presenciais e à distância. Sob o trabalho orientador do Ministério da Educação, obrigado a grande agilidade na disponibilização de recursos e no diálogo com as escolas, compete a pais e professores manterem a tranquilidade necessária para que os alunos frequentem a escola sem um clima de alarme social. Os últimos meses mostraram o fosso de desigualdades agravado pelo ensino virtual e comprovaram que as crianças e jovens precisam da escola - com segurança e regras discutidas com tempo.

O grande desafio do próximo inverno será conseguirmos conviver com a pandemia, percebendo que o confinamento já não é solução. Teremos de ter respostas locais, adequadas a cada surto, numa abordagem completamente distinta da que adotámos em março. Como acontece atualmente nas 19 freguesias de Lisboa que se mantêm em estado de calamidade, haverá momentos em que o país caminha a várias velocidades. E poderá ser necessário endurecer posições perante o desrespeito das regras das autoridades de saúde, como aconteceu com a recente criação de quadros sancionatórios. As medidas que impõem disciplina e contenção são eventualmente o preço a pagar para que a vida siga o rumo possível.

Controlar o medo é, agora e sobretudo quando os relatórios voltarem a registar números mais elevados, absolutamente necessário. É altura de nos habituarmos à ideia de que a covid veio para ficar. Temos de agir em conformidade. Cumprindo escrupulosamente as regras que minimizam o risco de contágio, sem nos deixarmos paralisar.

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