Líbano: e depois das explosões?

Questões e desafios para um país dividido, tão mal governado quanto estratégico e com uma economia de rastos. No meio de uma pandemia.

No momento em que escrevo, a meio da manhã do dia seguinte às explosões que devastaram parte de Beirute, as autoridades libanesas ainda não disseram a quem pertencem os armazéns onde estavam aquelas toneladas de material altamente inflamável, não disseram se havia ou há outros locais a armazenar produtos do género, seja no porto ou em áreas residenciais e outros locais sensíveis em termos de presença de população civil.

A resposta a essas questões pode trazer alguma luz sobre a capacidade logística e operacional do Hezbollah mas também pode acarretar novos episódios de instabilidade política num país à beira do colapso económico, com a moeda em constante desvalorização nos últimos meses, preços a aumentarem, desemprego na ordem dos 35%, restrições bancárias aos levantamentos de dinheiro e transferências para o estrangeiro, a que se soma a falta de estruturas de proteção social em tempo de pandemia, com o clientelismo partidocrático a tomar conta das iniciativas que deveriam ser públicas, nomeadamente através do lançamento de centros de quarentena, apresentados com forte cobertura mediática de teor pouco imparcial.

A amplitude da devastação, a enorme quantidade de vidas humanas perdidas, famílias destroçadas e milhares de feridos, aprofundam a crise num país que vive, há demasiado, em permanente instabilidade.

Os analistas israelitas, que, faça-se a ressalva, terão tanto de boa informação como de natural enviesamento na análise, afirmam que os libaneses conhecem bem o mapa das bases de armazenamento de mísseis e munições do Hezbollah.

Este movimento xiita, apoiado pelo Irão (que, curiosamente, há um mês prometeu enviar navios, petroleiros e até um navio fornecedor de eletricidade para o porto de Beirute, algo que ficará agora inviabilizado, para agrado de, pelo menos, uma potência regional e outra global), fruto da incompetência governativa que tem marcado o país, tem aumentado a sua influência, controlo e apoio popular para áreas cristãs do território libanês. O movimento continua a ser encarado como organização terrorista quer por Israel, quer pelos Estados Unidos, o que acaba por condicionar a capacidade de o país obter ajuda financeira internacional, nomeadamente por parte de alguns países europeus.

No entanto, é altamente sensível para o poder político em Beirute desmantelar os locais de armazenagem de armamento do Hezbollah, uma vez que tal seria privar o país da única resistência nacional possível a eventuais investidas de Israel. O passado recente (2006) tem-no provado. Ao retirar eventuais stocks de explosivos e produtos para os fabricar de áreas densamente povoadas, o Hezbollah iria estar mais vulnerável e exposto à permanente ameaça externa do vizinho que, supostamente, será mais renitente à ideia de atingir áreas civis (exceto se forem palestinianos e estiverem em Gaza ou na Cisjordânia).

Israel e os Estados Unidos receiam que a ajuda iraniana ao Líbano no porto de Beirute, além de petróleo, farinha e medicamentos, possa significar também um canal de passagem de mísseis, armas e munições, como escreve Zvi Bar'el no diário israelita Haaretz. O porto de Beirute é dos mais importantes de todo o Médio Oriente, é uma porta essencial para as importações e exportações do país, conheceu recentemente várias fases de desenvolvimento, é uma fonte de rendimento estratégica para uma economia, como já se disse, depauperada nos tempos que correm.

O primeiro-ministro libanês promete agora inquéritos rigorosos e garante que os responsáveis não ficarão impunes mas Hassan Diab pode não sobreviver às explosões. É líder de um governo frágil, formado no final de janeiro, vários meses após a saída do antecessor, Saad Hariri, na sequência da ameaça de um levantamento popular inédito no país, lançado em outubro, com manifestações diárias contra a corrupção e incompetência da classe política. Manifestações que regressaram há dias.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Líbano, Nassif Hitti, anunciou a demissão também há um par de dias, aparentemente cansado da lassidão na aplicação de reformas ansiadas e exigidas pela comunidade internacional. O Líbano começou negociações com o FMI (Fundo Monetário Internacional) em meados de maio, mas o processo está parado e, ainda recentemente, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, durante uma visita ao país, falou na passividade das autoridades libanesas, tendo exigido as reformas esperadas há muito. Por quem empresta o dinheiro. Já se sabe o que significam essas reformas para a população; e no Líbano, metade vive na pobreza. O país tem, ainda assim, e para vergonha de países ricos que não lhe sabem seguir o exemplo, sabido acolher cerca de um milhão de refugiados sírios, apesar das tensões sociais daí decorrentes, especialmente visíveis após um atentado suicida em Al-Qaa, alegadamente cometido por cidadãos sírios.

A experiência de receber quem mais precisa está impregnada na alma e sangue do Líbano. Este é um país que acolheu milhares e milhares de refugiados palestinianos depois de 1948, cujo sul do território serviu de base à Organização de Libertação da Palestina liderada por Yasser Arafat, que foi palco de uma guerra civil que durou quinze anos (1975-1990), cujo final mal permitiu à Paris do Médio Oriente, como Beirute é conhecida, reerguer-se. Na primeira década deste século, rebentou nova guerra com Israel, após o Hezbollah ter capturado dois elementos das IDF, as forças de defesa de Israel.

Muito do que acontece no Líbano na atualidade está relacionado com o homicídio do primeiro-ministro sunita Rafik al-Hariri, apoiado pelo ocidente e pelas monarquias sunitas do Golfo, há uns 15 anos. Sexta-feira, um tribunal apoiado pelas Nações Unidas vai pronunciar o veredicto do julgamento de quatro participantes nesse homicídio que abalou o país. Os implicados têm ligações ao Hezbollah. E depois?

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