Politbol ou a arte de desaparecer da fotografia

Em setembro do ano passado, quando Filipe Vieira retirou António Costa e Fernando Medina da comissão de honra, já o rol de suspeitas que recaíam sob o presidente do Benfica desaconselhava que o primeiro-ministro e o autarca de Lisboa empenhassem a sua honra.

"As empresas do cidadão de quem o primeiro-ministro se fez testemunha abonatória podem ter provocado um rombo nas finanças públicas. Até parece que o guarda do galinheiro se afeiçoou à raposa". Isto foi escrito há 10 meses, quando António Costa ainda reclamava do seu direito de honrar quem bem entendesse, exigindo que nós esquecêssemos que ele é o chefe do governo que gere os nossos impostos, como se não houvesse um calote ao Novo Banco que estava a ser pago por todos nós.

No Diário de Notícias escrevi igualmente que, "ao encabeçar a comissão de honra, António Costa estava a dizer-nos que confiava inteiramente na inocência do presidente do seu clube e, desta forma, pressionava a justiça para ilibar Filipe Vieira. Isto é grave, mas se não fosse assim, se não acreditasse na sua inocência, o caso seria ainda mais grave". Presumo que, hoje, o político tenha voltado à regra de chutar para canto, já não colocando todos os ovos no cesto dos inocentes, antes pedindo que a justiça faça o seu caminho.

Muita irracionalidade move os adeptos de futebol pelo mundo fora, mas não há assim tantos primeiros-ministros e autarcas de capitais a empenhar a sua honra por um prato de lentilhas. Hoje não se livram de aparecer em dezenas de vídeos e de fotografias, sorridentes na Tribuna Presidencial, fazendo guarda de honra a um cidadão que há muito não se recomendava. De pouco vale que A Bola, outrora a Bíblia do futebol, mas que hoje não chega a ser o antigo testamento, procure apagar as notícias que davam conta da honra que unia Costa e Medina a Filipe Vieira. Isso servia para pouco quando estavam sozinhos no mundo, agora não serve para nada. Ou melhor, serve para mostrar que ainda há muita gente que prefere viver de joelhos a ter de morrer de pé.

Há demasiada partidarite no futebol e falta política. Falta política para impor regras, para impedir que uns e outros vivam na impunidade. E sim, não é só no Benfica que isto acontece. Os que ainda lá estão e lá querem continuar não saberão fazer diferente. Algum dia, alguma coisa vai ter de mudar, mas não pode ser porque alguém teve a brilhante ideia de apagar umas fotografias. Elas estão em todo o lado. Todos nos lembramos do séquito governamental, sorridente, prestando homenagem a quem lhes deu um campeonato para festejar. É caso para perguntar: Riem de quê?

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