Saúde e Doença, parceiros ou desavindos

Esta semana, na sexta-feira, celebrou-se o Dia Mundial do Doente. Instituído em 1992, pelo Papa João Paulo II, com o objetivo de sensibilizar a sociedade para a necessidade de apoiar e ajudar os doentes, tornou-se na oportunidade de debater os caminhos da saúde.

A celebração deste dia tem especial significado quando ainda atravessamos um período pandémico em que a doença assumiu muito protagonismo. Tem sido a doença antes de tudo, quer pelo Covid, quer pelo que não se conseguiu fazer por causa do Covid.

Na sombra da incerteza e do desconhecimento, foi preciso somar hipóteses e soluções e as mudanças que chegaram são evidentes...

Entre "confinadores" e confinados, o primado tem sido da doença e não da saúde e o tema convocou todos para a reflexão.

O coordenador da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde (CNPS), padre José Manuel Pereira de Almeida, destacou, numa entrevista à Agência ECCLESIA a importância da "rede de proximidade", no acompanhamento das pessoas sozinhas e isoladas, destacando a importância de melhorar a resposta na área da saúde mental. Refere nomeadamente que "a saúde mental em Portugal carece, de facto, de um novo entendimento e um novo cuidado" e creio que a saúde mental é uma ferramenta fundamental para a resolução de problemas sociossanitários complexos.

O Papa Francisco lembra que o "doente é sempre mais importante do que a sua doença, e, por isso, qualquer abordagem terapêutica não pode prescindir da escuta do paciente, da sua história, das suas ansiedades, dos seus medos". A doença transforma a vida das pessoas por dentro - no seu íntimo, no entendimento de si mesma, na sua economia, nas suas relações com a família e amigos - e, por fora - no entendimento que a sociedade tem do doente e da sua fragilidade, como a economia o protege nos seus direitos, como o emprego o defende.

Os votos de boa saúde, que já acompanhavam, muitas vezes, os cumprimentos de despedida, entraram nas nossas conversas e nos nossos melhores desejos em qualquer conversa ou troca de mensagens.

A saúde, esse desbloqueador de felicidade!

"Sem saúde não se faz nada!";

"A saúde é o mais importante!".

Sempre foi assim, mas a verdade é que esta é uma preocupação que nos últimos dois anos nos trouxe uma ansiedade generalizada e transversal. Ouvir uma criança pedir saúde para o Natal é quase assustador. Todas deveriam querer apenas carrinhos e bonecas. Na minha vida profissional e pessoal tenho-me cruzado com muitas histórias de fragilidade. Tenho aprendido muito com elas... Não é fácil agir com o propósito de contribuir para que o mundo se torne um lugar melhor para todos.

Colocar o olhar ao largo das fragilidades podia ser uma tentação. Procurar caminhos mais fáceis que as contornem e que as interrompam é uma opção política e ideológica, mas a verdade é que nada nos transforma mais do que ser tocado pela fragilidade.

De certa forma podemos dizer que o Covid nos trouxe uma certa "democratização da doença". O Covid, quando chegou, não fez seleção por estatuto económico, mas como em outras desigualdades, também aqui o acesso à saúde manteve a estratificação no tratamento, cuidados e acompanhamento de outras vulnerabilidades de saúde. Mas trouxe-nos também uma renovada atenção para uma das formas mais esquecidas que é a saúde mental. O que aconteceu nos últimos dias com o potencial ataque terrorista numa das universidades de Lisboa é mais uma chamada de atenção para a urgência de cuidarmos seriamente da saúde mental em Portugal e, por força das circunstâncias também trazidas pela pandemia, da saúde mental dos nossos jovens.

Assinalando este dia desejo que todos os doentes encontrem os cuidados e o acompanhamento de que necessitam.

Que todos os prestadores de saúde possam sentir-se reconhecidos no trabalho que realizam ao ponto de ir sempre além dos tratamentos médicos.

Que os decisores políticos encontrem o melhor caminho orçamental e organizativo para que a saúde seja sempre uma prioridade.

Que aqueles que gozam de saúde possam ser "testemunhas" da esperança e da caridade!

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