"A noção da enormidade e da grandiosidade toda só tive realmente no dia em que ela faleceu"

Diogo Varela Silva, realizador e sobrinho-neto de Amália Rodrigues, recorda o impacto que a tia-avó teve na sua vida e a versatilidade musical da fadista.

"Acima de tudo e primeiro é a tia. É o lado humano, o lado caloroso e familiar. Nesse sentido é uma imensa saudade, numa ausência grande que não passa apesar destes 20 anos. Eu só tive bem a dimensão estratosférica do que é Amália Rodrigues exatamente no dia que ela faleceu. Sabia perfeitamente quem era a artista. Estive no Coliseu, nos concertos no Coliseu, e vi o que era uma casa vir abaixo com a grandeza da arte dela. Mas a noção da enormidade e da grandiosidade toda só tive realmente no dia em que ela faleceu."

"Mas não há dúvida que é único, não há igual. Duvido muito que em vida volte a ver uma coisa com a mesma dimensão em Portugal, uma artista tão completa, uma cantora tão completa. Ela não era só fadista. Apesar de ser a maior fadista de todos os tempos, não há ninguém que se compare nem que chegue perto... São patamares diferentes, é outra coisa. Há ela e depois há o Fado.

Quando se dispunha a cantar outros géneros cantava igualmente muito bem...

Cantava igualmente muito bem. Nós vamos ouvir as rancheras ou vamos ouvir o disco da Broadway, seja o que for, ou o folclore... É magistral tudo! Mesmo as coisas napolitanas, é enorme! Fomos uns privilegiados de a ter aqui neste cantinho à beira mar plantado.

Portanto um sobrinho-neto, quando a tia-avó era alguém que corria ao mundo e necessariamente estava tão ausente, guarda algumas memórias desse tempo e do tempo de infância?

Guardo. Eu tive a sorte, eu vivi com ela um ano. Houve um ano na nossa vida quando nos mudámos para a América. A minha mãe foi à frente e eu e as minhas irmãs ficamos um ano a viver com ela na rua de São Bento. Aí houve uma proximidade muito maior e de contacto diário que era uma coisa que nós não tínhamos. Tínhamos de vez em quando, quando a tia estava em Portugal, quando havia folgas entre os concertos, quando nos juntávamos no Brejão, quando nos juntávamos no Natal, na rua de São Bento. Aquele ano acho que foi muito fulcral na minha formação como ser humano e como artista também. Aprendi imenso com ela.

Como é que alguém que está na família vê agora toda esta avalanche de coisas? Há livros, o livro da Carminho, o livro do jornalista Miguel Carvalho. Como é que alguém que está dentro da família olha para tudo isso?

Eu vejo com muito bons olhos o livro do Miguel porque acho que era uma coisa que era devida à memória da minha tia. É uma verdade que é bom que venha à tona ainda com alguns dos implicados vivos, para ver se têm vergonha na cara e se se retratam, acho que ainda vão a tempo. Se tiverem vergonha na cara ainda vão a tempo de se retratar. Acho muito importante. Acho ótimo trabalho que ele fez.

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