Amália Rodrigues
Centenário de Amália Rodrigues

Amália "cantou sempre o que quis, indiferente a todas as vozes mais conservadoras"

Para a diretora do Museu do Fado, Amália Rodrigues "continua a surpreender" ainda hoje.

"Cada vez que ouvimos um tema percebemos que Amália nunca o interpreta da mesma maneira" considera Sara Pereira, diretora do Museu do Fado, neste entrevista ao jornalista Ricardo Alexandre, onde ser fala também das iniciativas do Museu para assinalar o centenário da fadista, mesmo com as condicionantes impostas pela pandemia.

Sara Pereira, o centenário do nascimento de Amália Rodrigues acontece numa altura estranha, atípica, bizarra. Mesmo tendo isso em conta o Museu do Fado conseguiu de alguma forma organizar, programar alguma coisa que possa refletir o centenário de Amália?

Sim, conseguimos. O museu, e em parceria com uma série de instituições algumas tuteladas pela Câmara Municipal de Lisboa outras pelo Ministério da Cultura. O programa das comemorações do centenário teve início precisamente no dia 1 de julho, com um concerto de cem músicos para Amália, cem guitarristas que se juntaram para prestar um tributo a Amália percorrendo o seu repertório musical. Um concerto que reuniu músicos dos 15 [anos], caso do Daniel Freire muito jovem, aos cem, o nosso Joel Pina também também entrou nesse concerto, também gravou...

... Um dos músicos mais emblemáticos que acompanhou Amália Rodrigues...

Exatamente, e que celebra também este ano os seus 100 anos num concerto que está programado para o Teatro São Luiz, para o dia 24 de setembro. Joel Pina acompanhou Amália creio que ao longo de 29 anos e é um encanto ouvi-lo tocar, ainda com os seus 100 anos, e ouvi-lo falar de Amália e da grande amizade, da grande cumplicidade que os uniu. Mas temos mais iniciativas, concertos. No dia 23 de julho vamos ter um concerto com o Camané e Mário Laginha, no Museu do Fado. No dia 30 de julho a RTP vai transmitir um concerto que estava programado para o encerramento das Festas de Lisboa e que foi convertido agora para este formato televisivo. Um concerto também com Camané, Ana Moura, Ricardo Ribeiro, com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, com Gaspar Varela, Ricardo Toscano, Mário Laginha, e que se chama No Tempo das Cerejas. Depois, temos uma série de edições previstas de reedições de obras também fundamentais para o estudo do legado de Amália, entre elas as de Vítor Pavão dos Santos, essa enciclopédia viva sobre Amália. Curiosamente Vítor Pavão dos Santos quer também editar um novo livro com o título muito sugestivo, "Amália não sei quem és". Vindo dele também é um título bastante curioso...

... Ele que foi o biógrafo oficial de Amália Rodrigues...

.... Exatamente exatamente.

O concerto que referiu do Camané com o Mário Laginha, que tipo de restrições é que tem?

Tem muitas, infelizmente. Vai ser transmitido nas redes sociais em streaming, nas redes sociais do Museu do Fado, da EGEAC e da Câmara Municipal de Lisboa. É um concerto sem público. Infelizmente com a condicionante destes tempos mais estranhos mas vai ser lindíssimo.

Teria sido muito diferente a celebração deste centenário se não tivesse acontecido o que aconteceu nos últimos meses?

Teria. Teríamos sobretudo aquela comunhão do público com os artistas, aquela partilha, aquele momento único de comunhão de partilha que todos vivemos num concerto. Mas não deixamos de fazer, por exemplo, um exaustivo plano de salvaguarda do acervo de Amália Rodrigues. Estamos a digitalizar toda a documentação fotográfica, de repertórios, documentação impressa. Portanto, no fundo, a digitalizar todo o seu acervo que está na posse de várias instituições, na Fundação Amália Rodrigues, colecionadores privados também que ainda não tem estes trabalhos de digitalização feitos. A ideia é disponibilizarmos para o ano, no primeiro semestre de 2021, disponibilizarmos ao público, em livre acesso, numa plataforma online que possa estar acessível a partir de qualquer ponto do globo. Portanto todos estes trabalhos continuam independentemente da pandemia, felizmente.

O que é que Amália Rodrigues lhe diz a si?

Diz-me imenso. Tenho aprendido que tem esta capacidade enorme de nos continuar a surpreender seja através da investigação dos últimos tempos... - estávamos a falar do livro notável de Miguel Carvalho - , seja através do seu próprio legado musical. Cada vez que ouvimos um tema percebemos que Amália nunca o interpreta da mesma maneira, fá-lo sempre com uma entrega absoluta e eu acho que é para todos nós um exemplo incrível de humildade e de liberdade. Cantou sempre o que quis, indiferente a todas as vozes mais conservadoras que criticaram os fados do Frederico Valério, logo nos anos 40, depois os do Alain Oulman. Mas como ela dizia ao Vítor Pavão dos Santos, ela própria fez os fados serem fados à medida que os foi cantando. E de facto deu-nos, de certa forma, o Fado tal como o conhecemos hoje. E foi, sobretudo, um espírito que eu acho que foi verdadeiramente livre e autêntico. Essa capacidade de ser intransigente com a sua própria vontade, com a sua vocação, com a sua intuição e de a respeitar acima de tudo, é verdadeiramente notável e é para todos nós um exemplo.

Pela experiência que tem nesta área, os fadistas contemporâneos sentem-se de alguma forma inibidos ao cantar aquilo que Amália cantava?

Eu diria que seria natural se sentissem porque é um exercício de uma coragem, de uma ousadia incrível. A voz de Amália era uma voz plena, superlativa, e é muito difícil, sobretudo no caso das mulheres, chegar a um patamar que lhe seja equivalente, sejamos francos. Acho que Amália continua, por um lado, a ser esta referência agregadora da comunidade fadista mas sim, há sem dúvida....

... Agregadora apesar das divisões que em determinada altura provocou?

Eu acho que sim, acho que neste momento sim. É a grande referência indiscutível, consensual, dentro e fora do Fado, demos-lhe honras e muito justamente Panteão Nacional, foi aclamada dentro e fora de portas com todos os prémios... tem hoje um lugar central no nosso património cultural, é indiscutível. E acho que só existe uma Amália. Não há nada pior do que pretender ser uma imitação de alguém que, por si só, reunia todos os atributos de excelência. E acho que o Fado naquilo que tem de melhor é muito... enfim, tem a ver com o estilo pessoal de cada artista. Nós ouvirmos um Ricardo Ribeiro e percebermos que é ele, ouvirmos como ouvíamos uma Hermínia Silva, como ouvíamos uma Beatriz da Conceição, uma Lucília... cada artista com o seu estilo pessoal, com o seu cunho muito próprio e Amália, obviamente com o dela, está noutro patamar, está no patamar de uma cantora universal.

Veio à TSF fazer a playlist, uma playlist especial numa semana especial dedicada a Amália Rodrigues. Escolheu dez músicas, se tivesse agora que escolher uma qual seria?

... Uma pergunta incrível. A minha playlist fui escolhida a pensar não tanto no Fado mas mais no repertório internacional. Provavelmente se tivesse de escolher uma destas que trago, e pensando no Fado, escolhia o Abandono.

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