Bruxas voltam a andar à solta em Montalegre nesta sexta-feira 13

Iniciativa da Câmara Municipal é uma das maiores festas de rua do país e atrai dezenas de milhares de pessoas. Há espetáculos para todos os gostos e uma queimada "benzida" pelo padre Fontes para esconjurar todos os males.

Quando as bruxas invadirem Montalegre na noite desta sexta-feira 13, já as 40 mil almas esperadas hão de ter arrebanhado o caldo de urtigas e o leite-creme mugido de uma bruxa cornuda, entre outros manjares a condizer. A queimada "benzida" pelo padre Lourenço Fontes será o digestivo servido à meia-noite.

As excomungadas das bruxas ainda estão quedas nas rotundas da capital do Barroso, mas está-se mesmo a ver que vão ganhar vida, esta noite, para sobrevoar o castelo de Montalegre, com aquele sorriso maléfico de cana rachada a ressoar por entre as muralhas. Afinal, depois de dois anos travadas pela pandemia hão de querer mostrar toda a sua maldade.

Este ano brinda Montalegre com uma única Sexta 13, com o adicional de ser a primeira em pleno desde que a covid-19 obrigou cancelar tudo o que era eventos com ajuntamento de pessoas. Não admira, por isso, que Catarina Magalhães, do café Polo Norte deposite neste dia uma "grande expectativa", pois os montalegrenses têm "uma maluqueira" por esta festa e quem chega de outras bandas não se fica atrás. O stock de bebidas foi reforçado e no exterior do estabelecimento foi instalado um bar decorado a preceito.

A caminho do castelo, a artista plástica Amélia Santos tem a loja cheia de vestuário e artesanato decorados com bruxas e dizeres alusivos à sexta-feira 13. Confia que o negócio vai correr bem, porque "toda a gente está ansiosa por participar numa festa com esta dimensão".

No palco do castelo, o Bruxo Queiman e a Donzela Andrea Pousa prometem um espetáculo gigante, com "magia, fogo, pirotecnia, música e muito amor", diz ela, que vai dominar um dragão de sete metros que levará energias más.

Este será apenas um dos muitos espetáculos da Sexta 13 em Montalegre. De acordo com o vice-presidente da Câmara, David Teixeira, vai haver sete palcos espalhados pela vila, com estilos de música e animações diferentes.

A banda Virgem Suta, que vai atuar no palco instalado à frente da Câmara, e o padre Guilherme Peixoto, pároco na Póvoa de Varzim, que vai ser o DJ no palco do castelo, são algumas das atrações.

A Rua Vítor Branco será uma esplanada contínua. Devido à pandemia e a uma preocupação ambiental, a organização vai voltar a implementar o uso do copo único, como forma de poder contribuir para evitar a disseminação do vírus que provoca a covid-19.

O padre Lourenço Fontes, a figura mais emblemática do Barroso, será, mais uma vez, responsável pela queimada feita à meia-noite, no castelo. O "mijo de Belzebu", como lhe chama, é uma mistela feita à base de aguardente num caldeirão - a que se juntam pedaços de maçã, limão, grãos de café, água, vinho, mel e açúcar - vai ser distribuída por todos os que quiserem aquecer a noite. Antes, serão "despejados" no caldeirão todos os males que atormentam os portugueses, para que pelo poder do fogo e da bênção possam ser destruídos.

Durante a preparação, vai fazer um discurso provocatório para desmistificar medos, invejas, fantasmas, bruxas e demónios, que reza assim:

Sapos e bruxas, mochos e corujas.

Demónios, trasgos e dianhos.

Espíritos das enevoadas veigas.

Corvos, pegas e meigas.

Feitiços das mezinheiras.

Lume andante dos podres canhotos furados.

Luzinha dos bichos andantes, luz de mortos penantes.

Mau-olhado, negra inveja.

Ar de mortos, trovões e raios.

Uivar de cão, piar de mocho.

Pecadora língua de má mulher, casada com um homem velho.

Vade retro, Satanás, lá para as pedras cagadeiras!

Lume de cadáveres ardentes, mutilados corpos dos indecentes peidos de infernais cus.

Barriga inútil de mulher solteira.

Miar de gatos que andam à janeira.

Guedelha porca de cabra malparida!

Com esta colher levantarei labaredas deste lume, que se parece com o do Inferno.

Fugirão daqui as bruxas, por riba de silvaredos e por baixo de carvalhedos, a cavalo na sua vassoira de gesta, p'ra se juntarem nos castelos de Montalegre.

Ouvide! Ouvide!, os rugidos das que ardem nesta caldeira de lume.

E quando esta mistela baixe pelas nossas gorjas, ficaremos livres de todo o embruxamento.

E de todos os males que nos atormentam.

E deste frio que nos arrefece.

Forças do ar, terra, mar e lume, do Larouco e do Gerês.

A vós requeiro esta chamada:

Se é verdade que tendes mais poder que as humanas gentes, fazei que os espíritos ausentes dos amigos que andam fora participem connosco desta queimada!

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