"Desenhar do Escuro." Num livro de folhas pretas também pode morar a luz

O ilustrador António Jorge Gonçalves acaba de lançar "Desenhar do Escuro", um livro de edição limitada, do qual foram feitos apenas 250 exemplares assinados e numerados e no qual todos os desenhos são feitos e impressos a branco sobre papel preto. O autor esteve à conversa com o jornalista Fernando Alves na manhã da TSF.

António Jorge Gonçalves estava em Guadalajara, no México, quando viu numa rede social um pedido de uma amiga para que alguém que estivesse por aquele país lhe trouxesse para Portugal lápis brancos de uma marca específica que não existe na Europa. O ilustrador respondeu ao apelo, com um "sim, eu levo", e decidiu comprar um desses lápis também para si.

Mais tarde, durante a pandemia, descobriu na Papelaria Fernandes, em Lisboa, um caderno de folhas pretas. A bizarria daquele objeto fez com que o comprasse de imediato, e, semanas depois, um sopro de inspiração em pleno confinamento levou-o a juntar os dois acasos: "De tanto tempo encerrado, um dia olhei para o lápis branco e para o caderno e achei que podia fazer alguma coisa com os dois".

Em entrevista ao jornalista Fernando Alves na manhã da TSF, o autor do livro "Desenhar do escuro" explica que não estava habituado a trabalhar com lápis, porque esta ferramenta o fazia sentir-se como que "a lamber a página". Por isso, quando começou a experiência de contar os seus dias por cima daquelas folhas negras fazia muita força com o lápis, como se fosse um marcador, o seu material de eleição. Pouco tempo depois, percebeu que essa não era a abordagem certa e passou a usar a ferramenta com a "subtileza" de que aquele caderno preto precisava.

O caderno deu origem a um livro impresso em papel sírio ultra black de 115 gramas. O ilustrador, autor de banda desenhada, cartoonista e performer visual acompanhou todo o processo de impressão, não fosse ele um "apaixonado pelo processo de impressão e de produção gráfica" com um carinho especial pelo "objeto livro" desde pequeno.

Em "Desenhar do Escuro" há muito mais do que negritude, acrescenta: "É como se aquelas folhas pretas fossem salas às escuras para as quais eu trazia luz. Não luzes incandescentes, mas velas." O autor sustenta, aliás, que "há muitos momentos em que parece que o lápis quer vencer aquele papel".

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