"É preciso libertar os dicionários, o Portugal de hoje não é o mesmo de ontem"

Sem papas na língua sobre o processo de descolonização que a língua não fez. Sobre Moçambique e sobre a mulher, a Prémio Camões 2021 fala em Lisboa nos 10 anos da associação Corações Com Coroa, de Catarina Furtado.

Moçambicana nascida em Manjacaze, província de Gaza, no sul do país, em 1955. Menina que cresceu nos subúrbios de Maputo. Família protestante mas o português aprendido numa escola católica. Estudou linguística na Universidade Eduardo Mondlhane, foi membro da FRELIMO, mas dedicou-se à militância das letras e dos livros e menos à política, desiludida com a linha seguida após a independência pelo partido fundado por Samora Machel. Trabalhou na Cruz Vermelha durante a guerra civil, mudou-se para a Zambézia, no norte. Foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. Os temas sociais que aborda geram polémica, tal como a prática de poligamia no país.

Em Portugal tem publicados os romances "Balada de Amor ao Vento", "Ventos do Apocalipse", que trata precisamente a guerra civil... "O Alegre Canto da Perdiz", sobre as questões raciais e, entre outros, "Niketche: Uma História de Poligamia", retrato de uma realidade no sul de Moçambique.

Em 2021, foi distinguida (a primeira mulher africana a ser distinguida) com o Prémio Camões. Paulina Chiziane, disse em entrevistas que deu logo a seguir a saber do prémio, que já não contava, mas que foi resultado de muita luta, por ser mulher e por ser mulher negra.

Com a TSF, na entrevista que pode ser ouvida na íntegra no programa O Estado do Sítio este sábado, depois das 12h (e domingo à 01h da madrugada) e também domingo depois das 14h, aborda a situação atual de Moçambique, a evolução da condição da mulher moçambicana e as mulheres no mundo: "a maior parte das mulheres no mundo olham para as mulheres africanas como seres menores. E esquecem que os seus impérios e as suas riquezas, chegaram às mãos delas a partir dos filhos das mulheres de África". E reclama, perentória: "É preciso fazer justiça. As mulheres africanas estão na pobreza sim, foram empobrecidas. Os filhos das mulheres africanas, os mais fortes, foram retirados e desapareceram para sempre. E elas ficaram empobrecidas, por isso é preciso fazer um pouco de justiça. As mulheres do mundo têm de olhar para as mulheres africanas como vítimas de um processo histórico; e não como aquelas coitadas, tontas, aquelas pobres, sei lá..."

Uma conversa que anda à volta do legado da colonização, a linguagem de dominação nos livros e dicionários de português feitos em Portugal. Supremacismo? Dá uma gargalhada antes de começar a responder: "a língua portuguesa foi uma língua imperial, uma língua de supremacia. Foi. isso é história, não o podemos negar. A primeira etapa da nossa libertação como africanos foi a luta armada que depois deu a independência. Mas há muita coisa para fazer". A escritora afirma que "a língua portuguesa que falamos hoje precisa de ser mais democratizada, precisa de ser mais humanizada. Há uma série de vestígios coloniais que estão dentro do livro que precisam de ser lavados, retirados até". Mas também "o sexismo e vestígios de racismo". Sobre o primeiro ponto, dá um exemplo prático: "a palavra herói: é um 'homem considerado de elevada valentia, venceu batalhas'; 'heroína, uma mulher de extraordinária beleza'. Quando li aquilo, pensei: 'alguma coisa aqui não está bem!'. É preciso libertar os dicionários? "Sim, é preciso libertar os dicionários". Será isso parte de um processo de descolonização da língua, que ainda está por fazer? "Absolutamente. E só nós, como escritores, e outros estudiosos da língua, é que nos apercebemos disso".

No seu trabalho diário, usando muito o dicionário, Paulina Chiziane foi descobrindo. Foi chamando a atenção. Congratula-se pelos estudos que vão sendo feitos para esse derradeiro processo de descolonização no sentido de propor "o diálogo e as mudanças". Porque, di-lo como que reforçando os seus argumentos, "o Portugal de hoje não é o mesmo de ontem. Temos de caminhar para a frente e nesse caminho temos de desconstruir alguns mitos e tabus e alguns monstros que foram colocados na língua. E essa é a missão que nos cabe cumprir se queremos uma língua portuguesa humana e para todos".

Diz que Moçambique não conhece a paz, aponta para norte e o conflito em Cabo Delgado com um inimigo cujo rosto não se conhece, "o estado faz o possível", mas também lamenta o conflito na Ucrânia: "detesto guerras, eu não gosto de ouvir falar de guerras, e magoa-me muito que esta Europa que era julgada superior, entra numa guerra mais bárbara que os bárbaros. O que é isto agora? Todos estes anos de democracia, de humanização, de direitos humanos, evangelização, sei lá que nome dar, reduzidos a nada! E matam-se seres humanos como se fossem ratos? Eu não gosto de falar disto".

Paulina Chiziane é convidada de honra da conferência dos dez anos da associação Corações Com Coroa, de Catarina Furtado, este sábado à tarde, no Teatro da Trindade, em Lisboa. A Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), organiza a Conferência e Prémio Comunicação Corações Com Coroa. Na iniciativa da associação sem fins lucrativos, tem números para apresentar que mostram o trabalho feito ao longo da última década: "demos 34 bolsas de estudo a jovens raparigas em cursos como gestão, direito, enfermagem, medicina, futebol (a Jéssica Silva vem cá dar o seu testemunho), fisioterapia, engenharia. São 34 raparigas que se formaram naquilo que elas mais queriam e que, de outra forma, sem o apoio financeiro que é a bolsa, mas sobretudo sem o apoio biopsicossocial, dado pelas nossas psicólogas e assistentes sociais, elas nunca conseguiriam concretizar os seus sonhos". Porque, "inevitavelmente, mesmo em Portugal", refere a apresentadora, "quando uma família está com parcos recursos financeiros, são as raparigas que normalmente deixam para trás os seus sonhos universitários". A longo dos dez anos da Corações Com Coroa, "são mais de cinco mil e quinhentos atendimentos que nós demos, são mais de 580 mulheres emancipadas e empoderadas devido a este apoio".

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